Empresas tinham acesso a boletins internos sobre outras companhias que seriam convidadas a tocar obras da empresa. Atuação passou a ser mais forte após 2006

O ex-gerente de serviços da Petrobras Pedro Barusco revelou em delação premiada que 14 empresas integrantes do cartel que tocava as obras da estatal tinham acesso a informações estratégicas e sigilosas da Petrobras. O acesso às informações privilegiadas permitia a estas empresas escolher quais seriam responsáveis pelas obras da Petrobras e quanto cada uma receberia por obra.

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Divisão da propina na Petrobras era decidida ainda na fase de projeto

Nesta quarta-feira, o iG mostrou que documentos e planilhas apreendidos pela Polícia Federal (PF) mostravam que as empresas dividiam a execução de cada empreendimento ainda na fase de projeto. Esta definição prévia da destinação de cada obra na Petrobras ocorria até um ano antes do lançamento oficial do empreendimento. A divulgação do depoimento de Pedro Barusco reforça a tese da Procuradoria e da PF de que as empresas tinham a vida facilitada por membros da própria Petrobras, após pagamento de propina a ex-executivos da estatal.

Segundo depoimento de Pedro Barusco, havia na Petrobras um esquema de direcionamento de licitações especificamente para as 14 empresas envolvidas no quartel, entre as quais estavam a Camargo Corrêa, a Andrade Gutierrez, a Odebrecht, a Metal/SOG, a OAS, a UTC, a Skanska, Promon Engenharia, a Techint, a Queiroz Galvão, a Engevix, a Mendes Júnior, a Schain e a MPE. Além do direcionamento de licitações, as empresas também tentavam estipular preços para as obras por valores “muito além” do mercado, conforme Barusco. As companhias negaram participação no esquema citado por Barusco.

O ex-gerente afirmou que não participou de reuniões com o clube de empresas do cartel, mas chegou a receber uma lista de um funcionário da Odebrecht de quais empresas deveriam participar de um procedimento licitatório da refinaria Abreu e Lima, em abril ou maio de 2008. “Rogério (funcionário da empreiteira) disse na ocasião que já havia acertado como Paulo Roberto Costa, à época diretor de abastecimento, a lista de empresas que iria participar”, disse Barusco, pontuando que “achou absurda” a situação. Foram exatamente as empresas da lista que participaram deste procedimento licitatório referente à Abreu e Lima.

O ex-gerente de serviços da Petrobras também disse que, para viabilizar algumas obras em favor do clube de empresas, ele “vazava” informações estratégicas de forma antecipada às integrantes do cartel. “Por ter acesso ao Documento Interno do Sistema Petrobras – DIP, no qual constava a lista das empresas que seriam convidadas, eu ‘vazava’ esta lista a pedido dos representantes de cada empresa do cartel”, informou Barusco aos policiais federais. “O conhecimento da mesma era fundamental para que organizassem entre si quais os pacotes de obras que ficaria para cada um”, complementou.

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“Eu nunca fornecia cópia do DIP por se tratar de documento sigiloso interno da Petrobras, mas eu ou copiava a lista das empresas em um documento de word sem qualquer tipo de identificação da Petrobras ou anotava em uma lista à caneta, de próprio punho”, afirmou.

Além disso, Barusco revelou que o PT teria recebido entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões em propina entre 2003 e 2013. As declarações do ex-gerente colocam novamente o tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, no centro das investigações, ao apontarem que o petista participava do esquema de pagamento de propina na estatal.  O dinheiro usado nos pagamentos, segundo o delator, teria saído de 90 contratos da estatal.

Em outro trecho de seu depoimento, Barusco afirmou também que os contratos de construção de sondas da Petrobras, no valor de U$$ 22 bilhões, renderam 1% de propina em uma operação que envolveu diretamente Vaccari Neto. Somente no processo de construção de sondas de exploração de petróleo em alto mar, foram geradas propinadas da ordem de U$$ 220 milhões, que teriam sido divididos entre Vaccari e demais operadores do esquema.


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