PT será o fiel da balança em disputa entre candidatos do PMDB

Por Marcel Frota , iG Brasília |

compartilhe

Tamanho do texto

Calheiros, indicado oficial do partido, e Luiz Henrique, que se lançou na disputa com apoio da oposição, buscam estimular traições para assegurar vitória na disputa pela Mesa Diretora

Uma eleição que até poucos meses era tratada com tranquilidade pelo Planalto e seu principal aliado, o PMDB, ganhou novos contornos na reta final da campanha pela Mesa Diretora do Senado. A receita era simples: o PMDB realizava seu processo de maturação interna para oferecer o nome de Renan Calheiros (RN) para disputar mais um mandato como presidente do Senado como nome oficial do partido. 

O senador Renan Calheiros: favorito, ele afirma contar com 55 votos de colegas no Legislativo
Câmara dos Deputados/Gustavo Lima
O senador Renan Calheiros: favorito, ele afirma contar com 55 votos de colegas no Legislativo

Mas se a disputa no Senado sempre contrastou com a da Câmara devido à aparente calmaria, articulações recentes transformaram o cenário, tornando-o incerto. Vitaminado pela oposição e por correntes não muito fiéis dentro da base, o ex-governador de Santa Catarina Luiz Henrique (PMDB) resolveu entrar no páreo, criando problemas para seu partido.

Apesar do apoio esmagador recebido por Renan após reunião com a bancada do PMDB, na tarde de sexta-feira (30), senadores do partido não saíram do encontro transbordando otimismo, tampouco favoritismo. Todos sabem que numa votação secreta a última coisa que se espera é um resultado previsível, dadas as condições. "Há 20% de traição em toda a eleição parlamentar na face da Terra", disse o senador Roberto Requião (PMDB-PR), para quem a disputa deste domingo será "dura".

A avaliação de Requião não é feita com base só em pessimismos. Fora a possibilidade aventada pelo senador paranaense a respeito de traições, Luiz Henrique já recebeu apoio de PSB, PDT, PSDB, PP, PSOL e DEM. Juntos, esses partidos terão 34 senadores na legislatura que começa neste domingo. 

Leia mais:
Renan Calheiros é indicado por ala do PMDB para presidir Senado

Além deles, Luiz Henrique deverá contar com o voto de quatro senadores da bancada do PMDB – incluindo o seu próprio: Ricardo Ferraço (PMDB-ES), Waldemir Moka (PMDB-MS) e Dário Berger (PMDB-SC). Se tudo ocorrer desta forma, o catarinense contabilizará 38 votos, faltando apenas três para derrubar os planos de reeleição de Renan. Para ser empossado, o candidato precisa de 41 votos, a maioria simples, em um Senado com 81 legisladores.

Traições
Enquanto Luiz Henrique esbanja confiança, impulsionada pela empolgação dos apoios recebidos nos últimos dias, Renan e seu grupo apostam nos próprios números, trabalhando com a possibilidade de obter 55 votos. Essa conta tem dois eixos principais nos cálculos de Calheiros. Primeiro, assegurar que não será traído pelo PT. Segundo, garantir que apoiadores de Luiz Henrique traiam o catarinense. Daí se estabelece uma guerra de bastidores que pode ser sintetizada pelo encontro que os dois tiveram na última quinta-feira (29).

Se colegas cumprirem apoio, Luiz Henrique pode chegar bem perto dos 41 votos necessários
Agência Senado
Se colegas cumprirem apoio, Luiz Henrique pode chegar bem perto dos 41 votos necessários

A portas fechadas e de acordo com quem presenciou o diálogo, Renan e Henrique se trataram de forma cortez na ocasião, mas a troca de palavras teve seus picos de embate.

Em dado momento, Luiz Henrique disse a Renan que nunca havia perdido uma eleição e que não perdeira esta. A resposta do atual presidente do Senado, ouvida por testemunhas, deu o tom do clima: “Pois eu já perdi eleição e sei como é. Por isso posso dizer que esta eu não vou perder".

Fora das quatro paredes, Renan também deu declarações que demonstram sua insatisfação com o correligionário. “O Congresso não caminha por projetos pessoais, por candidatura avulsas”, disse o senador ao deixar a reunião em que seu nome foi oficializado como o representante do PMDB na disputa.

Leia também:
PT e PSDB perdem vagas no Senado; PSB e PMDB ganham. Veja infográfico
Senado gastará R$ 696 mil com aparelhos celulares para parlamentares

O grupo ligado a Renan acredita que pode estimular traições no PSB, PDT e até no PSDB. A confiança não se abalou mesmo diante do discurso do presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), que disse após reunião com a bancada, no sábado (31), que todos os senadores do partido concordaram em votar em Luiz Henrique.

“Não acreditamos nisso (traições). Conversamos com muita franqueza. O que está em jogo não é sequer a candidatura de um determinado senador contra outro, é uma opção pela mudança”, afirmou Aécio ao fim do encontro. “Acabamos de fazer uma reunião muito franca em que, individualmente, cada um dos senadores do PSDB se manifestou favoravelmente à candidatura de Luiz Henrique. Ele contará com a unanimidade dos votos do nosso partido."

Mesmo com as manifestações de líderes partidários, não há a garantia de que as bancadas obedecerão tais diretrizes numa votação secreta. O próprio presidente nacional do DEM, senador José Agripino (RN), deixou esse recado nas entrelinhas ao afirmar que a manifestação de apoio dos partidos se dará “se não unânime, pela maioria expressiva”. Nisso apostam ambos, Renan e Luiz Henrique.

Arlindo Chinaglia: candidatura praticamente anula pelo apoio de seu partido, PT, ao aliado PMDB
ig
Arlindo Chinaglia: candidatura praticamente anula pelo apoio de seu partido, PT, ao aliado PMDB

PT
E é exatamente aí que surge a importância do PT na corrida. A bancada do partido – a segunda maior da nova legislatura, com 14 senadores – esteve reunida na véspera da eleição justamente para tratar do tema.

O PMDB argumenta que Renan é o nome oficial do partido, derrubando qualquer possibilidade de que petistas possam justificar o voto em Luiz Henrique baseados no argumento de que respeitaram a proporcionalidade da Casa, regra pela qual o partido com a maior bancada indica o presidente.

Apesar disso, mesmo entre peemedebistas, é notória a simpatia que alguns petistas nutrem por Luiz Henrique, considerado um senador independente e sem alinhamento com teses da oposição.

Ao fim do encontro petista, o partido resolveu apoiar Renan Calheiros. Durante o encontro, petistas ressaltaram a necessidade de passar um recado implícito com a decisão: só votam no candidato oficial dos partidos para evitar que aconteça no Senado o que já vem acontecendo na Câmara.

O PT pretende, portanto, fazer um gesto de boa vontade, combater traições e assim espera alguma contrapartida na disputa cada vez mais forte pela Mesa da Câmara.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas