Investigações apontam relação entre o esquema de corrupção na Petrobras e diversos escândalos que marcaram a política brasileira, como os casos do mensalão, Banestado e Cachoeira

As investigações da Operação Lava Jato, que desarticulou um mega esquema de corrupção na Petrobras, mostram que tanto a Polícia Federal (PF), quanto o Ministério Público Federal (MPF), conseguiram chegar a uma espécie de “espinha dorsal” de outros casos de corrupção em todo o Brasil. Para os investigadores, esta é a primeira vez que os elos entre diferentes esquemas são tão fortes.

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O entendimento dessas equipes é que diversos escândalos que surgiram nos últimos anos era, na verdade, apenas superficiais, perto do que vem sendo revelado na Lava Jato. A metáfora utilizada é que este caso pode ser considerado a raiz de vários esquemas de corrupção no Brasil. De forma direta ou indireta, ele está ligado a pelo menos três grandes casos: o esquema do mensalão, o caso Banestado e o esquema deflagrado pela Operação Monte Carlo.

O principal personagem do escândalo do Banestado é o líder do esquema de corrupção da Lava Jato: o doleiro Alberto Youssef. O escândalo do Banestado envolveu remessas ilegais de divisas para o exterior, pelo sistema financeiro, durante a década de 1990. Aproximadamente U$$ 19 bilhões teriam sido enviados para fora do país de forma ilegal. A remessa de recursos ilegais ocorreria por meio de empréstimos fraudulentos feitos pelo doleiro, em modo semelhante ao que vem sendo descoberto nos autos da Lava Jato.

No caso do mensalão, o vínculo se dá não somente pelo pagamento de propina a políticos, como revelou Alberto Youssef e o ex-diretor de refino da Petrobras Paulo Roberto Costa. Alguns personagens são os mesmos do escândalo que culminou com a prisão do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu, o ex-presidente do PT José Genoino, entre outros.

Na lista dos citados até agora na Lava Jato e envolvidos no mensalão, está o ex-presidente do PP José Janene, tido como operador do partido no esquema, responsável pela distribuição de recursos ao membros do partido. Em uma forma semelhante ao que estava na denúncia do esquema do mensalão, em 2007. A diferença era que, no caso do mensalão, os recursos eram fruto de empréstimos simulados junto ao Banco Rural e Banco do Brasil; na Lava Jato, os recursos surgiram de desvio de recursos da Petrobras.

Além disso, o ex-deputado federal Pedro Corrêa, condenado a 7 anos e 2 meses no julgamento do mensalão, também já foi citado por testemunhas da Lava Jato como suposto beneficiário do esquema. Testemunhas afirmam que Corrêa esteve no escritório de Carlos Habib Charter, o Habib, dono do Posto da Torre e considerado laranja de Youssef, para tratar de negócios pessoais. O escritório de Charter é considerado pelos investigadores como uma espécie de caixa ilegal onde recursos eram distribuídos, inclusive para político.

Além de Correâ e Janene, os autos da Lava Jato já apontam envolvimento de outros dois réus do mensalão: Enivaldo Quadrado e João Claúdio Genu. Quadrado, conforme as investigações da Lava Jato, é apontado como o responsável por determinar a emissão de notas fiscais frias da GFD Investimentos, empresa tida como de fachada utilizada para o recebimento de propina de Youssef junto às nove empresas investigadas no âmbito da Operação Lava Jato, que mantinham contratos com a Petrobras.

Quadrado foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a três anos e seis meses de prisão mais multa de R$ 232 mil pelo crime de lavagem de dinheiro. Já Genu, ex-assessor do PP, é apontado pelas investigações como beneficiário do esquema de corrupção da Petrobras já tendo recebido recursos do policial federal Jayme Alves de Oliveira Filho, o “Careca”, tido como uma espécie de office boy de Youssef. Genu chegou a ser condenado a 5 anos de prisão pelo STF no julgamento do mensalão, mas um dos crimes, o de corrupção passiva, prescreveu. Do outro, de lavagem de dinheiro, ele foi inocentado por conta dos embargos infringentes.

No caso do escândalo da Operação Monte Carlo, que desarticulou um esquema de corrupção comandado pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, os investigadores da Lava Jato apontam uma ligação com as atividades tomadas como ilegais pela Construtora Delta e outras empreiteiras. Um exemplo é a relação da Malta Engenharia, ligada a Alberto Youssef, com a Construtora Delta. A Malta foi subcontratada da Delta em obras do governo federal e tinha intenções de fazer prospecções de petróleo na Bacia de Santos.

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Além disso, o nome da empresa aparece em uma planilha de Alberto Youssef, apreendida pela Polícia Federal, com a lista de mais de 750 projetos tidos com algum tipo de influência do doleiro. A Construtora Delta foi acusada de superfaturar obras públicas e era a principal empresa responsável pelas obras do Programa de Aceleração do Crescimento. Além de desvios na Petrobras, o MPF e a PF também apuram a influência de Youssef em obras de infraestrutura do governo federal, inclusive as que foram tocadas pela Delta.

“Como bem pontuou a autoridade policial, há semelhanças do esquema em questão com aquele já identificado anos atrás na investigação das atividades da Construtora Delta, de Fernando Cavendish, ali também constando registros de pagamentos milionários por grandes empreiteiras à empresa que aparentemente não prestou os serviços correspondentes. A descoberta daquele caso e o processo decorrente não tiveram eficácia suficiente para interromper o esquema criminoso em questão, que persistiu mesmo após”, afirma o juiz Sérgio Moro, em uma das decisões da Operação Lava Jato.

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