No pedido de prisão preventiva, Procuradoria dizia acreditar que transações suspeitas eram primeira parte de um plano de fuga do ex-diretor da área internacional da Petrobras

O Ministério Público Federal (MPF) identificou nos passos do ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró um comportamento que indicava o risco de ele fugir do país. O MPF temia que Cerveró executasse um plano semelhante ao de Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil condenado a 12 anos e 7 meses de prisão por crimes de corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, que fugiu para a Itália e hoje está solto no país europeu.

Preso pela PF, ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró chega ao IML de Curitiba para exame de corpo delito nesta quarta-feira (14/01/2015)
Vagner Rosario/Futura Press
Preso pela PF, ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró chega ao IML de Curitiba para exame de corpo delito nesta quarta-feira (14/01/2015)


Monitorado pela Polícia Federal (PF) e pelo MPF, Cerveró começou desde junho do ano passado a se desfazer de parte de seus bens e a sacar grandes valores em espécie beneficiando seus parentes diretos. O MPF temia que isso fizesse parte ou de um grande plano de fuga ou de uma tentativa de ocultar todos os seus bens com o intuito de que eles não fosse sequestrados pela Justiça, conforme o andamento da Operação Lava Jat o.

Das 17 operações de compra e venda de bens registradas em nome de Cerveró desde o 2002, quatro foram realizadas em junho deste ano. E todas exatamente no mesmo dia, 10 de junho do ano passado. A transação foi considerada atípica porque Cerveró, neste histórico de transações de bens, só fez mais de uma transação anual em 2003, 2005 e 2006. Em 2003, Cerveró adquiriu dois imóveis, um em janeiro e outro em julho. Em 2005, Cerveró também comprou dois imóveis em um ano: ambos em junho. E, em 2006, ele vendeu um e comprou outro. A aquisição ocorreu em junho e a venda em novembro.

Além disso, os quatro imóveis foram vendidos para parentes de Cerveró, todos em Ipanema, no Rio de Janeiro, a valores bem inferiores ao de mercado. A PF estima que somente os três imóveis mais baratos, repassados ao valor de R$ 560 mil, sejam avaliados em R$ 7 milhões. Apenas nesta operação, Cerveró teria “perdido”, R$ 6,5 milhões.

Outra fase do processo de dissimulação de bens, conforme o MPF, foi o saque de R$ 463.763,00 do plano de previdência privada de Cerveró em favor de sua filha, mesmo sendo alertada pela gerente de seu banco que a transação acarretaria a uma perda de R$ 100 mil. “A transferência de recursos, por parte de CERVERO para a filha, é, sem dúvida, um estratagema espúrio para retirar recursos do alcance do Estado”, afirma o MPF no pedido de prisão preventiva de Cerveró.

“Qualquer medida patrimonial não seria suficiente para tanto porque, como visto, Cerveró recorre à prática de colocar bens sob nomes de terceiros. Não há como garantir que houve ou haverá a identificação total desses terceiros”, se manifesta mais à frente o MPF. 

Residência fixa

Cerveró morava no primeiro imóvel que ele adquiriu na vida, em 2002, localizado em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Após a expedição da prisão preventiva, em 1º de janeiro, os agentes da PF procuraram Cerveró em Ipanema, depois começaram as buscas em Petrópolis e, somente lá, souberam que ele estava na Inglaterra, passando as festas de final do ano.

“Tendo vultoso patrimônio oculto do Estado – são aproximadamente R$ 53 milhões só em “propina” – e já tendo demonstrado praticar atos em busca de impunidade, não há como garantir que não fuja para o exterior e se esconda. A entrega de passaportes não basta em um país com amplas fronteiras territoriais desguarnecidas com outros países, como revelou o caso Pizzolato (com fuga para a Itália), o caso Cacciola (também com fuga para a Itália), o caso dos Rozemblum (com fuga para o Uruguai) e o caso de Roger Abdelmassih (com fuga para o Paraguai)”, lembrou o MPF.

 Entre essas fugas, a considerada mais espetacular foi a de Henrique Pizzolato , que após ser condenado no julgamento do mensalão, clonou os documentos de identificação de Celso Pizzolato, irmão morto nos anos de 1970, e com essa documentação fugiu para a Itália. O Brasil chegou a pedir a extradição de Pizzolato, mas a Corte Italiana negou o pedido brasileiro. Pizzolato foi solto e aguarda em liberdade tanto o julgamento do recurso pela sua extradição, quanto uma eventual reabertura do julgamento do mensalão na Corte Italiana.


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