Insatisfeitos com a nova composição do governo, movimentos ligados à defesa de direitos humanos chegam a prever volta de manifestações de rua por reformas estruturantes

Dilma tenta conciliar interesses da base aliada e de setores que tradicionalmente apoiaram governos petistas
Reuters
Dilma tenta conciliar interesses da base aliada e de setores que tradicionalmente apoiaram governos petistas

As escolhas feitas pela presidente Dilma Rousseff na montagem do ministério que abrirá seu segundo mandato geraram insatisfação em setores que foram fundamentais para a reeleição da petista, principalmente na reta final da campanha. Movimentos sociais de defesa de direitos humanos, de luta no campo, de defesa de direitos da população indígena e de negros ainda esperam de Dilma uma sinalização mais forte de que promessas feitas durante o período eleitoral serão cumpridas nos próximos quatro anos.

Dilma toma posse para seu segundo mandato nesta quinta-feira, numa sucessão de cerimônias que será aberta às 15h. Mas a petista entra no novo governo desgastada junto a setores do próprio partido, que também se somam à relação de insatisfeitos com a nova Esplanada. A presidente passou as últimas semanas mergulhada em negociações para tentar conciliar interesses da base aliada e de setores que tradicionalmente apoiaram governos petistas. Mas, na última hora, acabou desistindo de parte das trocas que estudava na equipe.

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A indicação de Kátia Abreu para a pasta da Agricultura foi uma que acendeu a luz amarela na relação de Dilma com os movimentos populares. “Não esperávamos que Kátia Abreu fosse nomeada”, disse Lurdinha Rocha Nunes, da coordenação do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH), integrante do Conselho Nacional de Segurança Pública, órgão consultivo do governo, abrigado pelo Ministério da Justiça. “Isso nos surpreendeu bastante. Em janeiro vamos nos reunir em Brasília para ver como nos posicionaremos em relação a isso”, disse Lurdinha.

Veja fotos dos preparativos para posse de Dilma Rousseff:


A principal crítica à gestão de Dilma no primeiro mandato é de que os espaços de participação popular existiram mais no discurso que na prática. “Não houve, por exemplo, a realização de várias conferências prometidas pela presidente, entre elas a de Segurança Pública”, criticou. “Nós estamos na escuta. Estamos preocupados e ainda esperando o que vai acontecer. Ela foi eleita, com nossa participação, mas ela precisa saber que não é dona do país. Ela tem que escutar”, disse Lurdinha, ao iG.

A insatisfação, no entanto, não se resume à nomeação da líder do agronegócio. Para os movimentos populares, Dilma montou um ministério conservador, principalmente, nos setores considerados estruturantes para as políticas públicas como Cidades e Educação.

“Para nós recado já foi dado. É um governo conservador”, observou o coordenador geral do MNDH, Rido Marques.  A pasta da Educação ficou nas mãos de Cid Gomes (PROS), aliado importante de Dilma no Ceará e Cidades foi para o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (PSD).

“As pastas que a gente considera possíveis de promover reformas estruturantes no país estão nas mãos de gente conservadora. Estamos apreensivos com isso e já estamos prevendo um novo agrupamento dos movimentos sociais no Brasil e grandes manifestações em março de 2015”, disse Marques.

A reunião do MNDH está marcada para os dias 17, 18 e 19 de janeiro, em Brasília. Além de conversarem com a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, integrantes do movimento já solicitaram uma audiência com a presidente que poderá ocorrer no dia 19.

A presidente procurou amenizar o desgaste dos primeiros nomes anunciados com a nomeação de Patrus Ananias (PT-MG) para o Ministério de Desenvolvimento Agrário. Para o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Alexandre Conceição, Patrus já demonstrou capacidade de dar celeridade às demandas do campo quando foi ministro do Desenvolvimento Social do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Esperamos que ele tenha a mesma força política que outros ministros”, ressalvou.

“No sentido geral, as escolhas de Dilma refletem a aliança ampla que ela fez para garantir sua reeleição, mas ela tem que saber que se não fosse os movimentos sociais nas ruas, o marketing dela não garantiria nada. O novo ministério é uma colcha de retalhos. Ela saiu contemplando Deus e o Diabo”, enfatizou.

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