Congresso, economia e Petrobras: os três desafios do novo mandato de Dilma

Por BBC - Mariana Schreiber | - Atualizada às

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Após vitória apertada nas eleições, presidente inicia segundo governo nesta quinta-feira; cerimônia de posse está prevista para começar às 14h45 (horário de Brasília)

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Após vitória apertada nas eleições, presidente começa segundo mandato nesta quinta-feira; cerimônia de posse está prevista para às 14h45
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Após vitória apertada nas eleições, presidente começa segundo mandato nesta quinta-feira; cerimônia de posse está prevista para às 14h45

A presidente Dilma Rousseff começará este governo mais leve. Para estar mais esbelta na cerimônia de posse do seu segundo mandato, na tarde desta quinta-feira, ela encarou nos últimos dias uma dieta radical com objetivo de perder 13 quilos.

Os desafios que terá à frente em 2015, porém, serão bem pesados. Três questões prometem dar especial trabalho à presidente ─ a relação com o Congresso Nacional, a recuperação da economia e o desenrolar da crise da Petrobras.

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Após uma vitória muito apertada nas eleições, o governo tem pela frente uma oposição mais combativa e estridente. O principal desafio político, porém, deve ser a relação dentro da própria aliança governista, acredita o cientista político Fernando Abrucio, professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Ele nota que a oposição está com seu discurso enfraquecido, já que a presidente sinalizou que fará o ajuste econômico defendido pela campanha do candidato derrotado Aécio Neves (PSDB).

"Mais do que uma oposição mais forte, o desafio de Dilma é lidar com um governismo mais fraco", afirma.

Segundo ele, há três razões para esse enfraquecimento: o desempenho fraco da economia, o escândalo da Petrobras e a falta de um projeto claro para o governo.

"A própria aliança governista não tem clareza de por que está junto. Os partidos não têm perspectiva de ir para oposição mas não sabem o que fazem na base do governo", observou.

Após enfrentar momentos de tensão no Congresso Nacional em seu primeiro mandato, como na votação do Código Florestal e da mudança da legislação dos portos, Dilma usou a nomeação dos novos ministros como forma de tentar costurar maior lealdade no Legislativo.

A estratégia de distribuir cargos em troca de apoio no Congresso não é nova. Dessa vez, porém, nota-se um perfil político mais forte entre os novos ministros.

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Apesar de alguns nomes terem causado grande polêmica, como a escolha da senadora Kátia Abreu para a pasta da Agricultura e do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab para o Ministério das Cidades, a nomeação de políticos de tradição, incluindo três ex-governadores, pode aumentar a base de sustentação do governo no Congresso, que será mais fragmentado e conservador com a posse dos novos parlamentares eleitos em outubro.

Além disso, Dilma abriu mais espaço para novos partidos, como Pros (Cid Gomes como ministro da Educação) e PSD (Kassab para Cidades), para tentar reduzir a dependência do PMDB.

"A presidenta montou um ministério que reúne as melhores condições para a repactuação política da governabilidade. É um ministério que tem um viés político grande, que representa uma grande correlação de forças e capacidade de articulação", disse à BBC Brasil o deputado federal José Guimarães (PT-CE).

Para Abrucio, Dilma montou um "ministério defensivo".

"É uma forma de se proteger no Congresso num ano em que há muitas incertezas. Será necessário aprovar medidas econômicas não muito populares e também haverá a crise da Petrobras, com consequências também para o Congresso", acrescentou.

Dilma optou por nomear para cargos próximos da Presidência petistas mais distantes do ex-presidente Lula
Reuters/BBC
Dilma optou por nomear para cargos próximos da Presidência petistas mais distantes do ex-presidente Lula

PT insatisfeito 

Embora a nomeação do novos ministros tenha rendido elogios públicos, nos bastidores há insatisfação até mesmo dentro do PT ─ o que pode indicar uma relação mais difícil entre Dilma e o partido.

A presidente optou por nomear para os cargos mais próximos da Presidência, lotados dentro do Palácio do Planalto, petistas mais distante do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: Miguel Rosetto ocupará a Secretaria-Geral e Pepe Vargas será o ministro das Relações Institucionais, com a função de fazer o meio de campo entre o Planalto e o Congresso.

Além disso, Aloizio Mercadante, hoje muito mais próximo de Dilma que de Lula, foi mantido à frente da Casa Civil.

As escolhas desagradaram a tendência majoritária do partido, CNB (Construindo um Novo Brasil), da qual Lula faz parte. Apesar de oficialmente o grupo negar, um parlamentar petista confirmou o desconforto à BBC Brasil.

Conheça os ministros do novo mandato de Dilma

Dilma posa ao lado dos 39 ministros de Estado. Foto: Roberto Stuckert Filho/Presidência da RepúblicaGilberto Occhi sai do Ministério das Cidades e vai para Integração Nacional. Foto: Bernardo Rebello/ Imprensa Caixa Economica FederalEx-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab será novo Ministro das Cidades. Foto: Alexandra Martins/Câmara dos DeputadosAntônio Carlos Rodrigues (azul) assumirá a pasta de Transportes. Foto: DivulgaçãoNelson Barbosa assumirá Planejamento a partir de 2015. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilManoel Dias, continua no Ministério do Trabalho. Foto: Agencia Brasil/reproduçãoEx-ministro do Lula, Juca Ferreira volta para Ministério da Cultura em novo mandato de Dilma. Foto: Agência BrasilIndicado para Controladoria Geral da União, Valdir Simão foi presidente do INSS e secretário-executivo do Turismo. Foto: DivulgaçãoThomas Traumman foi escolhido como ministro da Comunicação Social. Foto: Agência BrasilJosé Elito Siqueira responderá pelo Gabinete de Segurança Institucional. Foto: DivulgaçãoMinistra Izabela Teixeira permanece a frente do Ministério do Meio Ambiente. Foto: DivulgaçãoCarlos Gabas vai substituir Garibaldi Alves no Ministério da Previdência. Foto: DivulgaçãoHelder Barbalho é o novo ministro da Pesca. Foto: Agencia Brasil/reproduçãoPrimeira negra a chefiar universidade federal, Nilma Lino Gomes assume Secretaria de  de Política de Promoção da Igualdade Racial. Foto: Agencia Brasil/reproduçãoJaques Wagner será novo ministro da Defesa. Foto: Agência BrasilVinicius Lages continua no comando do Ministério do Turismo. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaKatia Abreu é nova ministra da Agricultura. Foto: Agência BrasilEx-ministro de FHC, Deputado Eliseu Padilha substituirá Moreira Franco na Aviação Civil. Foto: DivulgaçãoSenador Eduardo Braga vira ministro de Minas e Energia. Foto: Ricardo Stuckert/PRDeputado Edinho Araújo foi nomeado novo ministro da Secretaria Nacional de Portos. Foto: Agência CâmaraCid Gomes será novo ministro da Educação. Foto: Agência BrasilDerrotado nas últimas eleições, Armando Monteiro ganhou o Ministério do Desenvolvimento, indústria e Comércio Exterior. Foto: REUTERS/Ueslei Marcelino George Hilton será novo ministro dos Esportes, no lugar de Aldo Rebelo. Foto:  Aldo Rebelo sai do Ministério dos Esportes para assumir a pasta de Ciência,Tecnologia e Inovação. Foto: Roosewelt Pinheiro/ABrAlexandre Tombini permaneceu como presidente do Banco Central. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilJoaquim Levy assumirá Fazenda em 2015. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilEx-chefe da SRI, Ricardo Berzoini (PT-SP), passará a comandar o Ministério das Comunicações. Foto: Allan Sampaio/iG Brasília Deputado federal Pepe Vargas (PT-RS), que comandou o MDA durante o primeiro mandato de Dilma, passará a ocupar a Secretaria de Relações Institucionais (SRI). Foto: Agência BrasilMiguel Rossetto foi confirmado na Secretaria Geral da Presidência da República. Foto: Fotos PúblicasDilma anunciou o petista Patrus Ananias (MG) para o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Foto: Denise MottaArthur Chioro continua no Ministério da Saúde. Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom /Arquivo Agência BrasilEmbaixador Mauro Vieira será o ministro das Relações Exteriores. Foto: Wilson Dias/Agência BrasilEleonora Menicucci foi mantida da Secretaria de Políticas para Mulheres pela presidente Dilma Rousseff. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaGuilherme Afif Domingos permanece na Secretaria de Micro e Pequena Empresa. Foto: Divulgação/Assembleia de São PauloNa Esplanada desde 2011, José Eduardo Cardozo permanece no Ministério da Justiça. Foto: Agência BrasilIdeli Salvatti continua na Secretaria de Direitos Humanos. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaTereza Campello permance a frente do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaDilma mantém Aloizio Mercadante como ministro chefe da Casa Civil. Foto: DivulgaçãoMarcelo Neri continua à frente da Secretaria de Assuntos Estratégicos. Foto: ReproduçãoLuís Inácio Adams fica no comando da AGU no novo governo Dilma. Foto: Alan Sampaio / iG Brasília

A principal discordância é quanto ao nome de Pepe Vargas. Político gaúcho, deputado federal com poucos anos de Congresso, ele é visto como alguém sem o trânsito necessário entre deputados e senadores para comandar as negociações no Legislativo.

"É uma escolha equivocada. Demonstra que nesse aspecto ─ relação com o Congresso, com os líderes, com os parlamentares ─ a presidente não teria feito de fato uma mudança", afirma o petista.

"Como o PT é o partido da presidenta, já é considerado um apoio automático, sem questionamento, mas de fato está havendo uma insatisfação", acrescentou.

Congresso

O primeiro desafio de Vargas será coordenar as negociações em torno da eleição para a presidência da Câmara dos Deputados em fevereiro. Para o Senado, há consenso entre PT e PMDB quanto à continuidade de Renan Calheiros na presidência. No caso da Câmara, porém, os dois maiores partidos da base aliada estão em lados opostos.

Favorito na disputa, o deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ) tem muitas vezes contrariado os interesses do Planalto. O PT tenta articular a candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP), mas a disputa pode acabar gerando mais rusgas na relação entre os dois partidos.

"Nós esperamos que o Palácio do Planalto, embora a gente saiba que jamais deixaria de torcer por uma candidatura do PT, fique relativamente neutro ou que não faça uma pressão tão escancarada (contra a candidatura do PMDB) que possa trazer depois um ressentimento", afirma o deputado Marcelo Castro (PMDB-PI).

"A gente percebe que há um sentimento difuso na Câmara, que permeia quase todos os parlamentares, de que o Poder Legislativo precisa ser fortalecido. E o Eduardo é aquela pessoa que hoje encarna esse sentimento. Daí a força da sua candidatura", acrescenta.

Esquema de corrupção na Petrobras deve causar mais dor de cabeça a Dilma, dizem especialistas
AFP/BBC Brasil

Petrobras e PIB 

Outro fator que pode trazer mais instabilidade política é o desenrolar do escândalo de corrupção na Petrobras. Estima-se que até 40 deputados (do total de 513) possam vir a ser cassados se comprov ado seu envolvimento no esquema de desvio de verbas da estatal.

A presidente Dilma Rousseff resiste a demitir a presidente da estatal, Graça Foster, porque confia em seu trabalho e não há indícios de que ela tenha praticado corrupção. Sua manutenção, porém, "mantém a crise na sala de estar do governo", observa Abrucio.

"Essa indefinição sobre o 'Petrolão' atrapalha muito o governo, e não apenas no Congresso, atrapalha porque o governo não consegue nem aparecer em público. Então o governo está retraído, está claramente na defensiva", afirma.

Além disso, o novo governo terá ainda o complicado desafio de acelerar o crescimento econômico, ao mesmo tempo que reduz gastos (para equilibrar as contas públicas) e eleva juros (para reduzir a inflação).

O governo Dilma teve o mérito de manter o desemprego em níveis recordes de baixa. Mas, fora isso, nota-se uma piora dos indicadores econômicos. Além do crescimento baixo e da inflação continuamente acima do centro da meta de 4,5%, o resultado da balança comercial ficará negativo neste ano pela primeira vez desde 2000.

Vitória sobre Aécio Neves foi apertada; em segundo mandato, Dilma enfrenta oposição mais resistente
Reuters/BBC
Vitória sobre Aécio Neves foi apertada; em segundo mandato, Dilma enfrenta oposição mais resistente

Posse

Diante de tantos desafios, o PT espera reunir 30 mil pessoas nesta tarde para passar uma mensagem de que a presidente conta com forte apoio popular. O partido não revelou quanto gastou para contratar centenas de ônibus que vão trazer milhares de militantes de todo o país. O PT está bancando também shows na Esplanada dos Ministérios. Entre as atrações estão Alcione e o rapper GOG.

São esperados também manifestantes contrários ao governo.

A cerimônia de posse começa às 14h45 com o desfile de Dilma sobre o Rolls-Royce presidencial da Catedral de Brasília até o Congresso Nacional, onde a presidente firma o compromisso de respeitar a Constituição Federal e discursa para os congressistas.

Depois disso, ela passa a tropa militar em revista e se dirige para o Palácio do Planalto, onde discursa do parlatório às 16h30 para a população brasileira. Em seguida, entra no palácio para cumprimentar autoridades estrangeiras e dar posse aos 39 ministros.

Às 18h30, há um recepção aos convidados no Itamaraty. Quatorze chefes de Estado ou de governo e 16 vices-chefes confirmaram presença na cerimônia, como o atual chefe de Estado e o presidente eleito do Uruguai, José Mujica e Tabaré Vásquez, a presidenta do Chile, Michelle Bachelet, e o vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.

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