Derrotados na última eleição buscam abrigo na vida partidária

Por Marcel Frota , iG Brasília |

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Parlamentares com tradição na Câmara dos Deputados avaliam derrota ao iG e falam sobre o futuro nos partidos políticos

Nomes de peso e tradição na Câmara dos Deputados viram seus planos de renovar o mandato fracassados nas eleições deste ano. Se alguns parlamentares tentaram trocar de posto em disputas majoritárias e acabaram fora do Congresso Nacional na próxima legislatura, outros não se atreveram a tanto, mas mesmo assim se viram derrotados. Nomes como Penna (PV-SP), Roberto Freire (PPS-SP), Devanir Ribeiro (PT-SP), Guilherme Campos (PSD-SP) e Cândido Vaccarezza (PT-SP) são alguns exemplos. O iG conversou com alguns deles e a direção partidária parece o caminho natural para esses quase ex-deputados.

Alan Sampaio / iG Brasília
Roberto Freire (PPS-SP): "Seguirei fazendo o que sempre fiz, mas sem o exercício de um mandato"

Ex-senador e presidente nacional do PPS, Roberto Freire não conseguiu os votos necessários para continuar na Câmara. Ele, que já foi também deputado estadual por Pernambuco e por seis mandatos deputado federal, diz que o caminho agora é tocar o partido. “Vou continuar a fazer o que sempre fiz, só que agora sem o exercício de um mandato”, resume Freire, que vem liderando o PPS desde sua fundação, em 1992, a partir de desmembramento do antigo PCB.

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Freire faz uma rápida análise da derrota eleitoral e considera que talvez o eleitor de São Paulo, acostumado a vê-lo ao lado dos tucanos, possa ter visto seu movimento rumo a Marina Silva (PSB) com alguma estranheza – o PPS apoiou a então candidata no primeiro turno. “Tenho a impressão de que em São Paulo (capital), onde tive maior votação, o apoio a Marina talvez tenha diminuído minha votação. É um eleitor que sempre associou minha luta com o PSDB”, avalia ele.

Se a tese de Freire é ou não precisa, o fato é que a força do PSDB se verificou de forma clara no Estado. No primeiro turno da disputa presidencial, Aécio Neves (PSDB) terminou em primeiro lugar com 44,22% dos votos (totalizando mais de 10 milhões de votos em São Paulo). A presidente Dilma Rousseff (PT) ficou em segundo, com 25,82% dos votos, seguida de perto por Marina Silva (PSB), que obteve 25,09% em território paulista. Além disso, Geraldo Alckmin (PSDB) acabou reeleito no primeiro turno, com 57,31% dos votos, e José Serra (PSDB) desbancou Eduardo Suplicy (PT), se elegendo senador por São Paulo com 57,92% dos votos.

Divulgação/PV
O presidente do PV, Penna (de bege), na campanha de Eduardo Jorge à presidência: derrotados

Conservadorismo
Outro dirigente nacional também acabou derrotado em 2014. Penna, presidente nacional do PV, não obteve a reeleição. Sem mandato, seu futuro é parecido com o que projetou Freire para si. “Sou dirigente nacional do partido. Sou isso primeiro e depois parlamentar. Agora, serei isso sem o Parlamento”, resume Penna. “Quero observar a partir de agora o que posso fazer para ajudar o partido e o País. Ser deputado não é profissão. Ser representante popular não pode ser profissão." Ele, que também é músico, afirma que passará a dedicar mais tempo à carreira de artista. 

Na avaliação de Penna, a derrota veio em função de uma dicotomia muito acentuada do eleitorado. Nesse espectro, o PV, segundo ele, optou por uma agenda progressista com discurso de vanguarda aglutinado na candidatura de Eduardo Jorge. Jorge defendeu uma legislação menos rígida que a atual para a questão do aborto, propôs uma nova abordagem no debate do casamento homossexual e criticou até aliados por questões sociais.

Relembre os candidatos bizarros das últimas eleições:

Toninho do Diabo - deputado federal - Solidariedade/SP - 919 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoMick Jagger do Brasil - deputado federal - PSB/SP - 562 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoVovó Equilistra - deputada federal - PMDB/SP - 257 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoBin Laden - deputado federal - PEN/SP - 2.195 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoMulher Maravilha - deputada distrital - PHS/DF - 81 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoRocha do Sucatão - deputado federal - PT/AP - 4.362 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoJesus - deputado estadual - PMN/PE - 3.528 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoDengue - deputado estadual - PMN/PE - 645 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoNeymar Cover - deputado estadual - PV/SP - 551 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoRonaldinho Cover - deputado federal - PTdoB/MG - 4.094 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoKid Bengala - deputado estadual - PTB/SP - 1.106 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoCidinho do Paraíso - deputado federal - PMN/SP - 1.057 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoBatman Capixaba - deputado estadual - PRP/ES - 697 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoJhow Maclaren - deputado estadual PRB/AL - 244 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoGretchen Cover - deputado estadual - PTdoB - 154 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoMulher Pera - deputada federal - PTdoB/SP - 1.272 votos - não eleita. Foto: ReproduçãoDr. Rey - deputado federal - PSC/SP - 21.371 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoClark Crente - deputado estadual - PSC/PR - 2.214 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoPaulo Batista - deputado estadual - PRP/SP - 16.853 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoMarciano - deputado federal - PSDB/MG - 4.822 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoMister M - deputado federal - PMDB/MG - 4.080 votos - não eleito. Foto: ReproduçãoPerereca do Alumin - deputado federal - PV/CE - 4.776 votos - não eleito. Foto: Reprodução

“Minha análise é que a sociedade foi para uma crise e na crise ela dá um passo para trás, fica mais reacionária. Demos (o PV) um passo para frente. Tivemos em 2010 quase 500 mil votos de legenda. Este ano foram 100 mil”, diz o verde. “Todos tivemos muito menos votos. Isso é sinal de que a sociedade em geral não está contente."

Coordenador da bancada paulista na Câmara e presidente da Comissão Mista de Orçamento, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) diz que a derrota eleitoral foi a alavanca necessária para a sua decisão de se aposentar da vida parlamentar. Ribeiro ganhou notoriedade recentemente ao ser um dos mais entusiastas defensores da tese do “volta Lula”. Ele também chegou a encampar a ideia de um terceiro mandato para o ex-presidente, em 2009.

Lúcio Bernardo Jr/Câmara dos Deputados
O deputado federal Devanir Ribeiro: derrota foi alavanca para se aposentar da vida parlamentar

“Não quero mais me candidatar. Temos de renovar. Tenho 71 anos, quero descansar. Tem de deixar os mais novos. Comecei cedo e os outros tem de começar cedo também. Não vou fazer igual ao Sarney, que ficou aí 50 anos”, diz Ribeiro. O petista exerceu três mandatos seguidos como deputado federal. Antes, foi vereador em São Paulo por quatro legislaturas consecutivas.

Ribeiro faz um rápido diagnóstico sobre sua derrota e diz que, além das dificuldades de se disputar uma eleição com um novato na cabeça da chapa, o sentimento anti-PT de alguma forma também tem seu papel nesse quadro. “Nosso candidato (o ex-ministro Alexandre Padilha, que disputou o governo paulista) nunca tinha disputado cargo algum. Democracia é isso”, afirma ele, refletindo sobre o desgaste que o partido sofreu após 12 anos no poder.

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“Essa coisa da Petrobras... Isso é de todas as petroleiras. Uns não aceitam o PT. Começou com o Lula e agora acontece com a Dilma. Quando eles perceberam que não iam segurar a Dilma, quiseram acabar com o PT. Já vimos isso nas décadas de 40 e 60. Jango teve problemas. Juscelino também. Essa é a história. Temos de ter cuidado, renovar o partido e buscar nosso caminho”, pondera ele.

“Quando você é deputado ou tem mandato, é natural que seu tempo seja dedicado a ele. Agora terei mais condições de ajudar o partido."

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