Informação vai integrar relatório da Comissão Estadual da Verdade paulista, que deve finalizar documento em março

Capturado pela ditadura militar e escolhido pelo regime para ser um dos delatores da então integrante da VAR Palmares, recém fundida à VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), Dilma Rousseff, o guerrilheiro Antônio Carlos Melo Pereira foi torturado pelo regime e, com sintomas de demência, enviado ao Hospital Psiquiátrico do Juquery, em Franco da Rocha (SP). Apesar da tortura e das pressões, o guerrilheiro não delatou sua companheira de lutas.

Corredor do Juquery, ontem militante preso para ser delator de Dilma passou cinco anos
Ricardo Shinji/iG
Corredor do Juquery, ontem militante preso para ser delator de Dilma passou cinco anos

"Eles [militares] queriam que o Melinho entregasse o paradeiro de algumas pessoas, inclusive a presidente Dilma Rousseff. Ele não colaborou e acabou sendo tão torturado que enlouqueceu e foi parar no Manicômio Judiciário do Juquery durante cinco anos e pouco. Só saiu depois da abertura política", lembra Ivan Seixas, um dos coordenadores estaduais da Comissão da Verdade paulista, que entrega seu relatório final em março do ano que vem.

Seixas e sua colega Suzana Lisboa visitaram os arquivos do Complexo Hospitalar do Juquery em 1983 após obterem determinação extra-oficial do então governador do Estado de São Paulo, Franco Montoro, então no PMDB, para buscar informações da presos políticos na instituição.

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"Ficamos dois meses no Juquery trabalhando nos arquivos oficiais e cruzando dados. Fotos, prontuários. Dos presos políticos, que eram tratados naquela época como terroristas, três foram encaminhados ao Juquery. Os documentos verificados foram de 1970 a 1975", enfatiza.

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Além de Melinho, como era conhecido, também foram encaminhados ao Manicômio Judiciário José Adolfo Costa Pinto e Aparecido Galdino Jacintho. "Nenhum deles morreu no Juquery. Se algum deles está vivo, talvez seja o Galdino", relata Ivan Seixas, ele mesmo ex-preso político nos anos 70 e enviado ao Manicômio de Taubaté, no interior paulista.

Costa Pinto era fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN) "e foi levado pra lá a pretexto de ter enlouquecido, a gente não sabem bem o porquê", relembra Seixas.

O coordenador da Comissão da Verdade paulista relatou à reportagem que outra prisão curiosa é de Galdino, conhecido como "profeta das águas".

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"O Galdino liderava uma seita denominada de Exército de Deus e a menção desse nome foi o motivo para ele ser preso", relembra. "Muito antes da onda ecologista, ele defendia que a natureza deveria permanecer intocada e longe da ação do homem. Assim, ele se opôs à construção da represa de Rubinéia (na fronteira entre São Paulo, Minas Gerais e Mato Grosso), que era uma obra fundamental para os militares. Galdino foi submetido a um inquérito e o juiz Nelson da Silva Machado de Assis alegou que, mesmo acreditando em Deus, como Galdino, o condenaria a cumprir pena como louco no Manicômio Judiciário do Juquery."

O profeta das águas permaneceu no Juquery entre 1972 e 1979, até ter alta. Em 2005, o diretor de cinema Leopoldo Nunes exibiu um documentário no Festival É Tudo Verdade contando a trajetória messiânica de Galdino.

Resultados

Outro documento que chama a atenção e que será mencionado no relatório é justamente um ofício enviado à direção do Juquery por um coronel que indaga sobre o número exato de terroristas mantidos no hospital. "Vasculhamos os arquivos e esse ofício ficou sem resposta", comenta Ivan Seixas.

O jornalista admite que, em matéria de resultados, a Comissão estadual tende a não surtir efeito, ao menos do ponto de vista legislativo. "O relatório final será entregue ao presidente da Assembleia Legislativa, que provavelmente arquivará o documento já que se elegeu deputado federal em 2014", admitiu o coordenador.

A presidência da Assembleia paulista é exercida pelo tucano Samuel Moreira, ex-prefeito de Registro (SP) e eleito para a Câmara dos Deputados pela primeira vez. Outra possibilidade é Moreira acolher o relatório final e encaminhar uma cópia ao governador Geraldo Alckmin (PSDB). "Como é um documento em nível estadual, dificilmente produziremos avanços porque não é do interesse do governo que isso avance", diz Seixas.

Outros presos

A reportagem do iG apresentou a Ivan Seixas o relato de Walter Farias, funcionário que virou interno do Juquery e que afirma que havia mais presos políticos na instituição no período entre 1972, quando foi admitido via concurso público, e 1979, quando deixou a instituição aposentado, depois de ser internado.

"Essa lenda do Juquery eu já ouvi muitas vezes. A Comissão certamente vai tentar ouvi-lo. Mas a questão central é que para acontecer alguma coisa, ele [Walter Farias] tem de passar referências mais claras, descrevendo ao menos características dessas pessoas que podem nos associar com algum desaparecido. Precisamos de provas, de fatos novos", resume Ivan Seixas, que deve se encontrar no futuro com outras pessoas que passaram pelo Juquery a fim de apurar possíveis fatos novos.

O encontro, marcado inicialmente para esta terça-feira (16), acabou adiado e ainda não tem nova data para acontecer.

Em entrevista ao iG , Walter Farias, que ao lado de Daniel Navarro Sonim assina o livro "O Capa-Branca" - biografia que narra sua trajetória no hospital psiquiátrico  -, sugere que as autoridades procurem localizar documentos dos pacientes.

"Eu mesmo vi prontuários com nome Ignorado 1, Ignorado 2 e por aí vai. Não pode tudo ter se perdido em 2005 naquele incêndio na administração. Quando o paciente ingressava no Juquery, ele já era fichado e, quando era enviado para uma Colônia, era feito novo registro", sugere Farias, emendando que esses dados devem ser cruzados com os dados do cemitério localizado na área do Complexo.

O ex-funcionário aponta ainda que os presos políticos eram submetidos a lobotomia dentro do hospital e que tais procedimentos eram realizados em áreas substerrâneas, que hoje estão sendo aterradas.

"Não temos essa informação", aponta Ivan Seixas. "O que sabemos é que os terroristas eram submetidos a torturas físicas de toda ordem nos porões da Ditadura e os que não cederam e entregaram seus colegas, acabaram enlouquecendo. E tudo isso tinha um rito: um preso político não ia para o Juquery automaticamente. Ele era submetido a inquérito policial militar, processo, julgamento e só então, se fosse o caso, era encaminhado para um hospital psiquiátrico", esclarece.

Seixas diz que os militares não poderiam ter interesse em simplesmente eliminar seus opositores, pois eles eram informantes úteis ao regime. "O modus operandi da ditadura era esconder e confundir. Se alguém era assassinado, eles atuavam para que essa vítima não fosse encontrada tão rapidamente e plantavam pistas falsas. Sobre presos políticos no Juquery, o que se tem até agora é que a lenda existiu, mas a confirmação não", encerra Ivan Seixas.

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