Laudos sobre João Goulart não confirmam envenenamento

Por Luciana Lima (iG Brasília | - Atualizada às

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Os estudos ponderam, no entanto, que o material utilizado é de 37 anos atrás e, por isso, vestígios podem ter sido perdidos

As análises feitas nos restos mortais do ex-presidente João Goulart foram inconclusivas em relação à causa da morte do ex-presidente. 

2013: Jango será enterrado com honras de chefe de Estado

Corpo de Jango chega para ser enterrado pela segunda vez em São Borja (RS) 06/12/13. Foto: Juliano Jaques/Futura PressCorpo de Jango chega para ser enterrado pela segunda vez em São Borja (RS) 06/12/13. Foto: Juliano Jaques/Futura PressCorpo de Jango chega para ser enterrado pela segunda vez em São Borja (RS). 06/12/13. Foto: Antonio Cruz/Agência BrasilCorpo de Jango é recebido em Brasília, em 14/11/13. Deposto pelo regime militar, Goulart morreu no exílio, na Argentina, em 1976. Foto: Futura PressA viúva de João Goulart, Maria Teresa Goulart, se emocionou durante a cerimônia. Foto: Futura PressEla e a presidente colocaram uma coroa de flores na urna que trazia os restos mortais de Jango. Foto: Futura Press"Este é um gesto do Estado brasileiro para homenagear o ex-presidente João Goulart e sua memória”, disse Dilma. Foto: Futura PressOs ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva, José Sarney e Fernando Collor também acompanharam a cerimônia. Foto: Futura PressRestos mortais de Jango foram recebidos com honras militares em Brasília nesta quinta-feira (14). Foto: Futura Press

Histórico: Congresso anula sessão que depôs João Goulart em 1964

De acordo com os laudos produzidos por dois laboratórios internacionais – um da Argentina e outro de Portugal – e consolidados pela Polícia Federal brasileira, não foram encontradas substâncias suficientes que sustentem a tese do envenenamento.

Os laudos, no entanto, ponderam que o material analisado é de 37 anos atrás e, por isso, vestígios podem ter se perdido. Além disso, não há prova de que a causa da morte seja por “infarto do miocárdio”, já que, após este tempo, não é possível a análise do próprio órgão que se deteriorou. “Não há mais coração para ser analisado”, perito cubano Jorge Perez, indicado pela família para acompanhar as investigações.

“A verdade é que não se pode provar que o ex-presidente morreu de morte natural, tampouco provar que morreu de morte por envenenamento. É um caso que não está encerrado. Caso haja alguma outra suspeita específica, há material guardado para ser analisados”, disse Perez.

De acordo com a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, o laudo será encaminhado à Comissão Nacional da Verdade, que terá um capítulo exclusivo sobre a morte do ex-presidente, deposto pelo golpe, em 1964.

Outra cópia do laudo também deverá ser entregue ao Ministério Público Federal (MPF) para fazer parte das investigações que deverão ser feitas em parceria com a Argentina sobre a operação Condor, ação de repressão que perseguiu e matou opositores das ditaduras que persistiam no Brasil, Argentina e Uruguai.

Para o filho de João Goulart, o estudo deve contribuir para que outros aspectos da morte de seu pai e das ações repressivas sejam esclarecidos. “A obrigação da família não cessa aqui”, disse.

“Eu ficaria muito tranquilo, e eu pedi a Deus que ele tivesse falecido de um processo natural, mas há ainda um vácuo inconclusivo. É necessário considerar que havia a operação Condor estava em andamento”, disse o filho de Jango, João Vicente Goulart.

Exumação

Jango morreu enquanto estava no exílio, na Argentina, em 1976, 12 anos após ter sido deposto pelo golpe militar, em 1964. O laudo da Polícia Federal se fixou na análise dos gases presentes na sepultura do ex-presidente, em São Borja, no Rio Grande do Sul. O corpo de João Goulart foi exumado em novembro do ano passado. Já os laudos dos laboratórios se concentraram na análise dos restos mortais do ex-presidente. No atestado de óbito a causa registrada é de infarto do miocárdio.

Saia justa

Na coletiva de apresentação dos resultados, a presença do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão acabou sendo questionada, já que Lobão foi um dos apoiadores da ditadura militar, como deputado da Arena. De acordo com a ministra de Direitos Humanos, Ideli Salvatti, Lobão foi convidado da mesma forma que todos os ministros.

“Há uma decisão de governo com o resgate da memória e da verdade. Este compromisso é uma posição de governo. Com relação a presença do ministro, seria interessante perguntar a ele”, justificou Ideli, que saiu na defesa do colega.

“Eu considero que a fala do ministro Lobão resgatou aspectos bastante importantes, já que ele é testemunha viva do que estava ocorrendo na época. Como sou uma militante sem qualquer vacilo da democracia eu prefiro ver alguém que, por ventura tenha apoiado a ditadura e vem defender o direito de resgate da verdade e da memória, do que assistir pessoas, que inclusive sofreram efeitos da ditadura, e que estão agora insinuando golpes e intervenções militares”, comparou a ministra.

Durante a apresentação, Lobão falou da fase em que trabalhou como jornalista e dos contatos que teve com o ex-presidente. “Sempre fui admirador profundo das ideias e inclinações do presidente João Goulart. Ele estava profundamente ligado ao povo, aos mais pobres, aos desvalidos, aos desassistidos. Não foi assim. Foi antes no MTB e com suas inclinações de deputado e de amigo do presidente Vargas”, disse o ministro.

João Vicente Goulart preferiu tratar a presença de Lobão com bom humor. “Realmente não sabia o motivo da presença de Lobão aqui, mas eu referendo as palavras da ministra”, disse. “Ainda bem que não é o outro Lobão, o músico”, brincou João Goulart referindo-se ais recentes participações do músico Lobão em manifestações em favor do impeachment de Dilma e em defesa de uma intervenção militar no Brasil.

“Meu pai sempre dizia que, em política não existe inimigo com quem não se possa recompor, nem amigo com quem não se possa romper em defesa da Democracia”, disse João Vicente.

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