Haddad: a única estrela em ascensão no PT-SP

Por Anderson Passos - iG São Paulo |

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Prefeito viu sua popularidade crescer com incentivo às ciclovias credenciando-se como candidato em 2016

Um poste com luz própria: única estrela em ascensão no PT paulista, combalido após massacrantes derrotas no estado de São Paulo nas eleições de 2014, o prefeito da capital paulista Fernando Haddad está progressivamente de bem com os paulistanos e atravessando seu melhor momento do ponto de vista partidário.

BBC Brasil
Fora do gabinete, Fernando Haddad se mostra um homem de hábitos simples, dizem vizinhos

Com a criação de corredores exclusivos para ônibus e ciclovias, por exemplo, o petista enfrentou resistências, mas as pesquisas recentes sinalizam uma recuperação na imagem da gestão. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 22 de setembro passado, a avaliação negativa caiu de 47% para 28%. Pelo mesmo estudo, a avaliação ótima ou boa atingiu 22% ante 15% do levantamento anterior. Um dos fatores pode ser a aprovação dos paulistanos ante uma política prioritária para Haddad: as ciclovias aprovadas por 80% dos entrevistados.

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Entre Marta e Haddad, Suplicy prefere o prefeito

Nem sempre foi assim: na corrida à prefeitura em 2011, Haddad era citado por apenas 3% dos entrevistados. Nas agendas externas, a militância presente era ínfima. Mesmo nas periferias, onde o PT é mais robusto, o candidato se viu tomando café apenas com assessores e, não raro, sem o acompanhamento de apoiadores ou da imprensa.

Com o ingresso de Marta Suplicy e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na campanha (o ex-presidente tratou um câncer na laringe em 2012), Haddad conseguiu a arrancada rumo ao segundo turno e uma vitória consagradora contra José Serra (PSDB) na fase final do pleito.

Veja galeria dos locais frequentados por Haddad:

Fernando Haddad. Foto: BBC BrasilNa Thomas Carvalhal, rua do "novo apartamento", michês e traficantes dão a tônica local à noite . Foto: Anderson Passos/iG São PauloVizinhança comenta que Haddad comprou cobertura de R$ 6 milhões; ele nega. Foto: Anderson Passos/iG São PauloO prédio onde mora o prefeito Haddad há 30 anos. Foto: Anderson Passos/iG São PauloHaddad voltou ao Primus em 2013, depois de eleito. Foto: Anderson Passos/iG São PauloDeck é um dos locais frequentados pela família Haddad; Tenda do Nilo fica ao fundo à direita. Foto: Anderson Passos/iG São PauloDepois de um hiato de um ano sem cortar o cabelo de Haddad, o cabelereiro André Ribeiro comemora a volta do cliente. Foto: Anderson Passos/iG São Paulo


Já eleito, Haddad conviveu com dificuldades, sendo obrigado a deixar de lado projetos de grande impacto como o Arco do Futuro por falta de recursos. 

A crise maior foi a de junho de 2013, quando a prefeitura propôs reajustar a tarifa de de ônibus de R$ 3,00 para R$ 3,20. Foi um dos pretextos para que uma insatisfação geral ganhasse as ruas em São Paulo e em outras capitais.

Até o prédio em que Haddad mora na Vila Mariana (zona sul de São Paulo) teve a área frontal ocupada pelos manifestantes, que exigiam a redução da tarifa. Constrangido, o prefeito da capital uniu-se ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) e, em entrevista coletiva, anunciou que o reajuste não seria concedido. Foi nesse momento que PT e o prefeito ficaram mais distantes.

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Outro duro golpe foi a ofensiva desencadeada tanto pelos tucanos quanto pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que foram ao Supremo Tribunal Federal (STF) e impediram o reajuste do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), o que comprometeu ainda mais as finanças do município.

Fora do gabinete

A paz entre parte dos paulistanos e seu prefeito pode ser expressa ainda em alguns episódios e gestos: quando da ocupação por manifestantes do acesso do Parque do Ibirapuera da Assembleia Legislativa, em agosto de 2013, o mandatário paulistano e o presidente da Casa, Samuel Moreira (PSDB), se enfrentaram.

Ocorre que no auge dos protestos, uma tentativa de invasão dos manifestantes à Casa resultou em três feridos depois de forte intervenção da Polícia de Choque. Até deputados da bancada petista, que tentaram proteger os manifestantes, foram agredidos na ocasião. O grupo exigia investigações em torno de denúncias de formação de cartel no transporte sobre trilhos em São Paulo.

Samuel Moreira (PSDB) então acionou judicialmente a prefeitura para que eles fossem retirados do local. O petista alegou que era um problema institucional, enquanto o presidente do Legislativo estadual sustentava que o passeio público era de responsabilidade da prefeitura.

Numa de suas caminhadas pela região, Haddad foi ao local e falou com os manifestantes, sugerindo a retirada pacífica, o que acabou acontecendo tempos depois.

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Em outro episódio, ao acompanhar a presidente Dilma Rousseff em uma agenda na região de Guaianazes, zona leste de São Paulo, Haddad foi xingado por um popular. O petista deixou o gradil de autoridades e foi ouvir o que o eleitor insatisfeito tinha a dizer. Se despediram com um abraço.

Num passeio recente pela Avenida Paulista, que o mandatário paulistano pretende transformar em “templo da mobilidade” com a construção de uma ciclovia no canteiro central, Haddad e a primeira dama Ana Estela caminharam sem qualquer aparato de segurança em trajes civis e sem serem importunados, senão por um eleitor que os cumprimentou.

O perfil pacífico e conciliador também se vê na Padaria Cecília, que o prefeito frequenta na Vila Mariana. O proprietário Raimundo Soares, de 51 anos, diz que não tem visto o petista no local – o vizinho ilustre só foi duas vezes ao local desde que foi eleito. O filho de Haddad, Frederico, é quem passa por ali mais assiduamente. Na época da campanha eleitoral, quando a família Haddad acompanhava os debates reunida em casa, Frederico era o responsável por buscar mantimentos. Soares destaca que a figura de Haddad é que o fez votar no PT pela primeira vez.

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No salão Primus Cabelereiros, que Haddad havia trocado em 2012 pelo badalado Celso Kamura - que cuida das madeixas de Dilma Rousseff - o barbeiro André Carlos Ribeiro comemorou a volta do cliente de 20 anos.

Ele conta que o prefeito vai ao salão apenas quatro vezes ao ano, em geral aos sábados quando dispensa seguranças e cerimoniais da prefeitura. “Ele vem aqui, fala com todo mundo. É extremamente acessível”, elogia Ribeiro que descreve ainda que o prefeito tem ojeriza à ideia de esconder os cabelos grisalhos ganhos no mandato municipal.

Perto da cadeira onde cuida do cliente ilustre, André Ribeiro guarda dois recortes: um extraído da internet e outro de jornal um jornal impresso. O primeiro é de uma reportagem quando Haddad trocou de hair stylist. O outro é menos auspicioso: é o relato de uma conversa entre Haddad e André, na qual os dois teriam ventilado sobre a mudança do prefeito. Segundo Ribeiro, o diálogo descrito no jornal não existiu e o prefeito não gostou do escrito. “Até hoje respondo sobre isso aqui”, disse sorrindo ao iG.

Fernando Haddad reside há 30 anos na rua Afonso de Freitas, mas a fofoca é de que ele estaria se mudando para uma cobertura de R$ 6 milhões na rua Thomas Carvalhal. O prédio de luxo, que fica nos costados do arranha céu da IBM na Avenida 23 de Maio, à noite convive com michês e traficantes de drogas.

Numa das visitas à Tenda do Nilo, na esquina da Oscar Porto com a rua Afonso de Freitas, onde Haddad costuma almoçar com a família desde quando era ministro da Educação, o prefeito rechaçou a ideia da mudança e disse que “gostaria de ter R$ 6 milhões em caixa”, mas que estava longe disso.

Com dois meses de residência na Vila Mariana e novo cliente de André Ribeiro no Primus, o jornalista Bruno Blecher considera Haddad “bem intencionado” e afirma que “quem conhece gosta dele”. Ele manifesta preocupação quanto ao projeto de reeleição do prefeito da capital paulista. “Ele [Haddad] anda meio escanteado do partido. Ele não tem base. Tem que tomar cuidado com a Marta [Suplicy]”, sugere.

A sócia da Tenda do Nilo Xmune Isper é natural de Beirute (Líbano) e considera o prefeito “uma pessoa nota mil. Entra direto no restaurante, senta, pega fila, conversa, pessoa supersimples”, elogia. Ela credita sua confiança no mandatário paulista a um preceito árabe no qual os filhos honram o nome dos pais. “Não esqueço uma frase dele: eu quero honrar o nome do meu pai”, relata.

O tratamento cordial com as pessoas também é registrado pelo zelador do prédio onde reside o prefeito. “Tanto ele, como toda a família cumprimentam, perguntam como estão, se está tudo bem. Tratam bem, com educação”, conta Sidney da Silva Teixeira, de 43 anos.

Teixeira também se declara eleitor do PT e que votaria em Haddad caso ele tente a reeleição, mas manifesta preocupação com o partido do mandatário. “Apareceu muita coisa”, disse lembrando a Operação Lava Jato que investiga desvios na Petrobras.

Deck da discórdia

Já o proprietário de uma das seis padarias da rua Sampaio Viana, próximo aos Haddad, é enfático e afirma que Haddad "não foi votado na Vila Mariana". Ele comentou que o prefeito, por terceiros, compra leite, pão e frios no local, mas nunca apareceu em seu estabelecimento.

A fonte criticou também a construção de um deck de descanso próximo à Tenda do Nilo por supostamente, favorecer os “irmãos árabes”. É o mesmo princípio do posto de gasolina. Você vende a cerveja ali e o cliente bebe no entorno do posto”.

Xmune Isper destaca que o deck é uma ideia bem-vinda, mas que não teve efeito em matéria de clientes. “O máximo é que como tem filas aqui, as pessoas aguardam ali no deck para serem atendidas”, frisou.

Mais visibilidade

O prefeito de São Paulo parece não estar apenas em lua de mel com a juventude ao incentivar a implantação de ciclovias ou ao participar de shows musicais empunhando uma guitarra, por exemplo.

Os atritos entre o prefeito e o PT parecem também ter cessado e, segundo as fontes ouvidas, o governo do petista ainda vai produzir mais ações positivas com a aprovação de um projeto na Câmara que revê os indexadores que calculam as dívidas de estados e municípios com a União. Se sancionado pela presidente Dilma Rousseff, o texto dará margem para que a cidade equacione sua dívida com a União até 2030, ampliando consideravelmente os investimentos.

No último dia 11 de novembro, quando o iG passou o dia na Câmara de Vereadores de São Paulo, o vereador Antonio Donato (PT), que fora Secretário de Governo de Haddad, destacou justamente esse ponto em discurso dirigido aos colegas no pequeno expediente da Casa.

“O prefeito Fernando Haddad vem lutando por essa questão [o novo cálculo sobre o cálculo da dívida com a União] desde que assumiu o governo”, exaltou.

Instado a falar sobre o desempenho do governo Haddad, no entanto, Donato preferiu não conversar com a imprensa justamente por ter sido o braço direito do prefeito. Donato caiu depois de denúncia encaminhada ao Ministério Público de que teria enriquecido ilicitamente. O caso tramita no MP desde maio sem qualquer avanço.

O também vereador e presidente municipal do PT na capital paulista Paulo Fiorilo entende que a boa imagem do governo se deve a obras que vem sendo realizadas nas periferias da cidade, bem como as obras de mobilidade. Para ele, dificuldades de comunicação entre o governo e o partido são comuns no começo do governo.

“Você tem no governo Haddad secretários petistas, um núcleo que tem uma relação muito forte com o partido. O que tem, sempre no começo do governo é a dificuldades de interlocução. E acho que isso está superado. Me parece que o governo Haddad vem acertando nas suas políticas. O PT fez no começo desse ano várias plenárias com o Haddad e a gente pôde interagir um pouco entre o governo e o partido, o que também ajudou um pouco nas ações que o governo tem feito ”, avalia Fiorillo.

O presidente municipal do PT afirma ainda que a grande mídia trata de forma diferente petistas e tucanos. No caso da falta d’água no estado, o dirigente petista expõe como exemplo que o caso não é creditado diretamente ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) e sim à Sabesp enquanto que o PT e seus eleitos são tratados como corruptos simplesmente.

Líder do PT na Câmara paulistana, o vereador Alfredinho também destaca que Haddad sempre dialogou com o partido “nos momentos mais difíceis. O que ele já fez e está apresentando para o futuro, vai ser um outro momento muito melhor”.

Presidente da Câmara paulistana e eleito deputado estadual em 2014, o vereador José Américo reconhece que o governo petista em São Paulo teve dificuldades no começo por conta da crise financeira, mas que as ações ganharão vulto.

“As dificuldades financeiras principais foram vencidas com a renegociação da dívida e com reiteração do compromisso por parte da presidente Dilma de honrar os financiamentos do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] que a prefeitura depende para financiar 100 quilômetros de corredores confinados. Além disso, o prefeito Haddad já abriu licitação para dois hospitais na Brasilândia e em Parelheiros, além de ter comprado um terceiro hospital, o Santa Marina na região do Jabaquara. Nós temos então sudeste, sul e noroeste com hospitais, uma velha promessa dos prefeitos de São Paulo, do Serra, do Kassab e que o Haddad está cumprindo”, exaltou.

Ainda no campo de políticas sociais, Américo enfatizou que o plano diretor aprovado na Câmara cria 50 quilômetros quadrados para Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), o que permitirá que o município, juntamente com o governo do estado e a União possam assegurar espaço para a construção de pelo menos 250 mil unidades habitacionais, com subsídio de R$ 107 mil por unidade com recursos dos três entes.

“Haddad está no tempo certo. É difícil divulgar um hospital que só foi lançado o edital”, pondera. “Daqui a pouco começa a obra, e quando começar a obra, certamente o governo vai divulgar. Os corredores a mesma coisa. Mesmo que não tenha grande divulgação isso vai aparecer na cidade”, assegura o presidente da Câmara de Vereadores da capital.

Reeleição

Quando o assunto é a possibilidade de reeleição, as três lideranças petistas consultadas são unânimes de que Fernando Haddad deve ter a preferência na postulação em que pesem os acenos da senadora e ex-prefeita Marta Suplicy em também lançar seu nome. Marta pediu demissão do cargo de Ministra da Cultura no último dia 11 de novembro e voltou ao Senado. A senadora negou que vá deixar o PT.

O líder do governo Haddad na Câmara, vereador Alfredinho acredita que o atual prefeito terá preferência na reeleição. “Naturalmente o Haddad é o candidato, ele é o prefeito. Em sendo o prefeito, ele tem o direito de querer concorrer. Eu acredito que o PT tenha o Haddad como candidato natural”, aponta Alfredinho.

Na mesma linha, os vereadores José Américo e Paulo Fiorillo acenam que o atual mandatário paulistano larga em vantagem para postular a reeleição.


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