Chamado de "God" no meio jurídico, Thomaz Bastos era tietado pelos colegas

Por Wilson Lima - iG Brasília | - Atualizada às

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Ex-ministro foi o primeiro a se levantar contra abusos do ex-presidente do STF Joaquim Barbosa no mensalão, em 2012

O ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, morto na manhã desta quinta-feira em São Paulo, era descrito pelos colegas de profissão como um homem simples. Simples, mas respeitado. Tanto é que entre os demais juristas era chamado de “God” (Deus, em tradução livre). Em vários julgamentos dos quais ele participava, quando havia um grande número de advogados também envolvidos no caso, Bastos era sempre aquela voz da experiência que balizava as ações dos demais e tinha como frase célebre: “Um caso tinha que dar pão ou dar glória. Se der os dois, melhor”.

Morre em São Paulo o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos

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Ex-ministro Márcio Thomaz Bastos é internado em hospital em São Paulo

Alan Sampaio / iG Brasília
Marcio Thomaz Bastos, advogado do ex-diretor do banco rural José Roberto Salgado


Um exemplo foi durante o julgamento do mensalão, em 2012. Algumas das estratégias levantadas por Bastos foram utilizadas pelos demais advogados, como a tentativa de se atrasar ao máximo o julgamento para evitar que o ex-ministro Cézar Peluso participasse do processo (Peluzo aposentou-se cerca dois meses após o início do julgamento do mensalão) ou de se evitar levantar questões polêmicas (se os réus eram inocentes ou culpados) e focar as defesas especificamente nas questões técnicas, buscando-se, assim, reduções de penas substanciais em casos de eventuais condenações.

Bastos era um homem de fino trato com os colegas. Respeitava desde os advogados mais novos, até os mais experientes. O respeito do meio jurídico era visto claramente pela tietagem de outros advogados. Em qualquer que seja o julgamento no Supremo, Bastos sempre era chamado para tirar uma “selfie” com colegas de outros Estados. “Fico até constrangido com isso”, confessou uma vez a jornalistas.

O ex-ministro era um homem de risos fáceis e de grandes parcerias jurídicas. Dizia que não tinha sócios, mas parceiros de causas. Ele foi patrono e parceiro de nomes famosos da advocacia brasileira como Luiz Fernando Pacheco (advogado do ex-presidente do PT José Genoino); Arnando Malheiros (advogado do ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares) e de Alberto Zacharias Toron, hoje defensor da construtora UTC, envolvida na Operação Lava Jato. Antes de morrer, Bastos trabalhava no corpo jurídico da Camargo Corrêa.

Nos bastidores, Bastos dizia que não “corria” de casos impossíveis e sempre falou que a “defesa é o maior bem do homem”. Foi assim que ele respondeu à críticas quando assumiu a defesa do ex-diretor do Banco Rural José Roberto Salgado, um dos 38 réus do mensalão, e do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

A todos os clientes, Bastos era sincero. Sabia das chances de cada um e normalmente acertava. Errou na análise prévia do mensalão, quando imaginava que a maioria dos réus seria inocentada. Tanto é que Bastos foi o primeiro advogado que levantou contra Joaquim Barbosa, nos bastidores, na fase inicial do julgamento. Internamente, condenou o “fatiamento” do processo e considerou parte das decisões como “esdrúxulas”.

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Após dois dias internado, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos morreu, nesta quinta-feira (20), em São Paulo. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABrThomaz Bastos foi um dos mais renomados advogados criminalistas do País; ele morreu aos 79 anos. Foto: Nelson Jr./SCO/STFThomaz Bastos foi ministro da Justiça do governo Lula entre 2003 e 2007. Foto: Ivone PerezApós deixar o ministério, atuou em casos de grande repercussão nacional, sendo muitas vezes criticado por suas escolhas. Foto: Nelson Jr./SCO/STFDefendeu, entre outros, o ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por estupro de pacientes, preso em agosto. Foto: Ivone PerezTambém defendeu o bicheiro Carlinhos Cachoeira, suspeito de participar de esquema de jogos ilegais. Foto: Futura PressDilma Rousseff: o País perdeu um grande homem, o Direito brasileiro perdeu um renomado advogado e eu perdi um grande amigo. Foto: Fotos PúblicasMorreu o melhor advogado de todos os tempos do Brasil, uma das melhores cabeças que o Brasil tinha, disse o advogado Celso Sanchez Vilardi. Foto: Dida Sampaio/AEcachoeira. Foto: André Dusek/AEMarcio Thomaz Bastos foi ministro da Justiça no governo Lula. Foto: Agência BrasilMarcio Thomaz Bastos. Foto: Agência BrasilMarcio Thomaz Bastos, advogado do ex-diretor do banco rural José Roberto Salgado. Foto: Alan Sampaio / iG Brasília

Curiosamente, foi Bastos que indicou Barbosa como ministro do Supremo em 2003. Apesar de não conhecer Barbosa de forma íntima, ele sabia do trabalho feito pelo ex-presidente do STF no Ministério Público e achava que o Brasil precisava quebrar a barreira do preconceito e alçar um negro a mais alta corte do país.

Amigo do atual presidente do Supremo, Ricardo Lewandowski, Bastos nunca negou sua ligação com o PT e com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula, inclusive, o chamava por “Marcito”. Bastos sempre foi o conselheiro jurídico do ex-presidente e o ajudou a se defender politicamente no início das denúncias do mensalão. Lula dizia ter em Bastos um grande amigo. Assim como os demais, também se referia a ele como “God”.

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