Bastos leva para o túmulo segredos do poder

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo | - Atualizada às

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O ex-ministro da Justiça foi um dos sustentáculos do poder nos últimos 12 anos e principal conselheiro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT

Profissional, polido, dono de invejável estofo jurídico e de rara sensibilidade política, o jurista e ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos foi um dos sustentáculos do poder nos últimos 12 anos e principal conselheiro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do PT. Sai de cena no momento mais agudo de uma crise que se avizinha e que possivelmente leve o governo a se ver obrigado a cortar na própria carne, como na era em que ele, como chefe hierárquico, deu carta branca para que fossem arrebentados os cadeados da “caixa preta” em que se transformara a Polícia Federal (PF).

Após dois dias internado, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos morreu, nesta quinta-feira (20), em São Paulo. Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/ABrThomaz Bastos foi um dos mais renomados advogados criminalistas do País; ele morreu aos 79 anos. Foto: Nelson Jr./SCO/STFThomaz Bastos foi ministro da Justiça do governo Lula entre 2003 e 2007. Foto: Ivone PerezApós deixar o ministério, atuou em casos de grande repercussão nacional, sendo muitas vezes criticado por suas escolhas. Foto: Nelson Jr./SCO/STFDefendeu, entre outros, o ex-médico Roger Abdelmassih, condenado por estupro de pacientes, preso em agosto. Foto: Ivone PerezTambém defendeu o bicheiro Carlinhos Cachoeira, suspeito de participar de esquema de jogos ilegais. Foto: Futura PressDilma Rousseff: o País perdeu um grande homem, o Direito brasileiro perdeu um renomado advogado e eu perdi um grande amigo. Foto: Fotos PúblicasMorreu o melhor advogado de todos os tempos do Brasil, uma das melhores cabeças que o Brasil tinha, disse o advogado Celso Sanchez Vilardi. Foto: Dida Sampaio/AEcachoeira. Foto: André Dusek/AEMarcio Thomaz Bastos foi ministro da Justiça no governo Lula. Foto: Agência BrasilMarcio Thomaz Bastos. Foto: Agência BrasilMarcio Thomaz Bastos, advogado do ex-diretor do banco rural José Roberto Salgado. Foto: Alan Sampaio / iG Brasília

Em décadas como apêndice do regime militar e, mais tarde, sob o comando de grupos que travaram longa guerra intestinal interna pelo poder – mas fechavam os olhos para a corrupção endêmica infiltrada no poder –, a metamorfose porque passou a PF é, seguramente, um dos grandes feitos do ex-ministro.

Para resolver uma demanda que conhecia bem como advogado dos mais poderosos criminosos do colarinho branco, Bastos chamou o delegado Paulo Lacerda, que considerava servidor público exemplar. A primeira ação de Lacerda foi dar um mergulho nos dilemas internos da PF e, através da Operação Anaconda, separar o joio do trigo, tirando da corporação a banda habituada, havia décadas, com malfeitos. A faxina daria a polícia musculatura para avançar em direção aos poderosos com cerrada ofensiva de combate a corrupção, o que assombrou boa parte do poder e, por essa razão, acabou sendo interrompida.

O aval de Bastos foi a garantia às operações de impacto, que deram popularidade a PF e, num curto período do primeiro governo Lula, tornou ricos e delinquentes comuns iguais na lei. As reações da elite política, que alardeava a alegação de vazamentos e espetacularização das operações, derrubariam Lacerda – não por acaso quando Bastos já havia deixado o Ministério da Justiça – e interromperiam uma estratégia de ação que agora, quando a corrupção ameaça corroer os alicerces do poder, poderia ter ajudado o governo a fazer a faxina necessária de forma preventiva.

Leia também: Corpo do ex-ministro Márcio Thomaz Bastos chega à Assembleia 

Bastos deixou o Ministério da Justiça no fim do governo Lula, mas continuou sendo o mais importante conselheiro do poder na área jurídica. Na pasta, ajudou a evitar uma série de desastres – como a pretendida expulsão do jornalista Larry Rohter, correspondente do "The New York Times" no Brasil, e pelas teses jurídicas que restringiram os efeitos do mensalão a cúpula do PT, partido que assessorou, formal e informalmente, desde o nascimento. Nas questões jurídicas com repercussão política, firmou-se até o final da existência como o interlocutor privilegiado de Lula e, em alguns momentos – como agora com a crise da Petrobras – também do governo da presidente Dilma Rousseff. Contra a indicação dos médicos, teria feito a última reunião com advogados que atuam no caso horas antes de morrer, no Hospital Sírio Libanês.

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