No Planalto, a reforma é tratada como assunto exclusivo da presidente; "nada tem dono" é uma das frases mais ditas entre interlocutores próximos da presidente

Passada a eleição, os partidos políticos que integram a base apresentaram a fatura à presidente Dilma Rousseff, reeleita por uma coligação de nove legendas. No Planalto, as conversas sobre a recomposição do governo e a reforma ministerial têm sido conduzidas pelo ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante. No entanto, o clima é de suspense, tanto entre membros do governo, quanto entre os representantes dos partidos que têm levados seus pedidos ao ministro.

A presidente Dilma Rousseff: interlocutores próximos dizem que decisões só dependem dela
Reuters
A presidente Dilma Rousseff: interlocutores próximos dizem que decisões só dependem dela

Entre os interlocutores mais próximos da presidente, a frase mais dita é: “Nada tem dono”. Ou seja, tudo depende do que passa na cabeça da presidente, que prometeu anunciar as mudanças em etapas e somente depois de sua volta da viagem à Austrália, onde participou da reunião da cúpula do G-20, grupo que reúne as 20 maiores economias do mundo.

A própria presidente tem contribuído para aumentar as expectativas. Antes de chegar à Austrália, em sua breve visita ao Qatar, Dilma repeliu as cobranças pelo anúncio dos ministros que irão comandar a economia, diante da já anunciada saída do ministro da Fazenda, Guido Mantega. “Não tem reforma ministerial na terça-feira quando eu voltar, nem pensar. Não dá nem tempo”, descartou Dilma. Mesmo assim, as conversas estão em pleno vapor.

Alguns fatores tendem a empurrar para a frente parte das definições do novo governo. Dilma, por exemplo, pretende casar a reforma ministerial às negociações para a eleição das presidências da Câmara e do Senado. Além disso, a presidente ainda deve ter uma conversa nos próximos dias com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar fechar a equação e contemplar os aliados.

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PMDB
O PMDB quer manter o controle das cinco pastas que comandou durante o primeiro mandato, mas quer "porteira fechada". O principal partido aliado de Dilma mantém a antiga queixa de que tem a cabeça das pastas, mas não manda realmente, já que o partido não consegue nomear secretarias executivas e muitos outros cargos auxiliares.

De olho em ampliar os cargos no segundo escalão, entre os peemedebistas é comum a citação dos postos hoje ocupados, por exemplo, por Carlos Gabas, no Ministério da Previdência, e Marcos Zimmermann, na pasta de Minas e Energia, secretários com perfil altamente técnicos, que tocam os principais projetos das respectivas pastas e que são da inteira confiança da presidente.

A fatura do PMDB aponta ainda para a acomodação de caciques do partido que não conseguiram se eleger. Para a Previdência, o nome a ser indicado pelo partido é o de Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), atual presidente da Câmara, e que perdeu a eleição para o governo de seu Estado.

Com a possível ida de Alves para a Previdência, o atual ministro, seu primo, Garibaldi Alves, retorna ao Senado. O partido ainda vê neste retorno uma alternativa, caso o atual presidente, Renan Calheiros (AL), não tenha condições políticas de disputar a Presidência do Senado, devido às denúncias da Operação Lava-Jato, que podem atingi-lo diretamente.

Garibaldi Alves, embora seja um nome palatável aos demais senadores, não tem tanta simpatia do Planalto, por não manter uma postura de submissão.

Além da Previdência, o PMDB ainda comanda a Agricultura, Minas e Energia, Turismo e Aviação Civil. O partido também prevê a troca do ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, que, de acordo com integrantes da legenda, já comunicou sua saída à Casa Civil e à direção do PMDB. A saída de Lobão também tem o objetivo de evitar desgastes com as denúncias investigadas pela Polícia Federal.

Entre os nomes cogitados no Planalto para substitui-lo está o de Giles Azevedo, ex-chefe do gabinete pessoal da presidente e nome que conta inclusive com o apoio da cúpula do PT, que quer dar mais relevância política a sua atuação. Caso o PMDB perca Minas e Energia, quer uma compensação e já pleiteou comandar orçamentos como o de Cidades, ou Transportes.

Transportes tem o maior orçamento entre todas as pastas do governo. Para o próximo ano a previsão é de R$ 13,5 bilhões. Já Cidades tem o quarto maior orçamento com investimentos previstos para 2015 de R$ 7,1 bilhões. Além disso, Cidades comanda um dos principais programas do governo, o Minha Casa, Minha Vida.

O PMDB quer manter na Secretaria de Aviação Civil, o atual ministro Moreira Franco, indicação da cota do vice-presidente Michel Temer.

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Para a Agricultura o nome mais cotado é o da senadora Kátia Abreu, recém-filiada ao partido. Sua indicação, no entanto, não agrada à bancada do partido na Câmara e também não conta com o aval do ex-ministro da pasta Antônio Andrade, eleito vice-governador de Minas Gerais na chapa encabeçada pelo petista Fernando Pimentel.

O PMDB de Minas Gerais quer indicar para a função o deputado federal Mauro Lopes (PMDB-MG). No partido há o entendimento de que a vaga da Agricultura pertence à bancada da Câmara e deve ser indicada pelo PMDB de Minas Gerais, que garantiu apoio a Dilma e a Pimentel no Estado.

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PR
No caso do Ministério dos Transportes, a briga pelo comando será com o PR, que hoje comanda a pasta. O partido, que tem como seu principal liderança o ex-deputado Valdemar da Costa Neto, preso devido ao envolvimento com o esquema do mensalão, quer emplacar na pasta o ex-senador Antônio Carlos Rodrigues, que deixou o Senado na semana passada, quando a petista Marta Suplicy reassumiu sua vaga.

Dilma não teria objeções ao nome de Rodrigues no comando dos Transportes. Ela não abre mão, no entanto, de ter como secretário-executivo o atual ministro Paulo Sérgio Passos, que reassumiu a pasta pela quarta vez em julho deste ano, com a saída do ministro César Borges do cargo, exigida pelo PR.

PSD
Já o Ministério das Cidades, alvo da cobiça do PMDB, é também pleito do PSD e deverá ser chefiado ex-prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que preside o partido. O PSD oficializou seu apoio à Dilma há duas semanas, após um período de aproximação que durou cerca de dois anos.

Além de Kassab, a presidente, segundo interlocutores, deve manter o ministro Guilherme Afif Domingos na Secretaria de Micro e Pequena Empresa.

No caso de o ex-presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, filiado ao PSB, assumir qualquer cargo na economia, o PSD espera que a indicação não seja considerada do partido e sim sugestão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ou ainda uma escolha da presidente para agradar ao mercado.

PROS e PP
A pasta de Cidades atualmente é comandada pelo PP, que pode assumir outra função na Esplanada. O partido pleiteia conduzir o Ministério de Integração Nacional, atualmente nas mãos do PROS.

No entanto, a gratidão de Dilma em relação ao partido tem como endereço os irmãos Cid e Ciro Gomes, que garantiram apoio a ela no Ceará, permaneceram aliados quando o PSB rompeu com seu governo para lançar a candidatura de Eduardo Campos à Presidência da República e ainda conseguiram eleger, para a sucessão de Cid, o petista Camilo Santana para o governo do Ceará.

Embora Cid negue o convite e a intenção do partido em cargos no segundo governo de Dilma, o governador deverá deixar seu mandato para assumir o Ministério da Educação, um dos maiores orçamentos do governo. Para 2015, o orçamento para a Educação é de R$ 12,6 bilhões.

PRB
O partido do candidato derrotado ao governo do Rio de Janeiro, Marcello Crivella, quer continuar no comando da Secretaria da Pesca. A intenção é recolocar Crivella na pasta novamente. No Planalto, o pleito do PRB e considerado justo. Crivella deixou a pasta no início deste ano para se candidatar ao governo de seu Estado.

O governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT: nome certo para integrar o novo governo
Agência Brasil
O governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT: nome certo para integrar o novo governo

PT
Em meio à demanda dos partidos, o PT também aguarda definições de Dilma. No entanto, a sigla adota o discurso de que pretende deixá-la à vontade para fazer as mudanças, mesmo que isso implique na redução do espaço do partido na Esplanada. Entre nomes certos do partido para integrar o novo governo, além de Giles Azevedo, está o do atual governador da Bahia, Jaques Wagner, que poderá assumir o Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, com o objetivo de melhorar a interlocução do governo com as empresas.

Na chamada “cozinha do Planalto”, Mercadante deve permanecer na Casa Civil e Ricardo Berzoini, cotado para o Ministério da Comunicação, pode também permanecer na Secretaria de Relações Institucionais (SRI) e cuidar da relação do governo com o Congresso, que promete ser complicada.

Gilberto Carvalho, já é certo, deixará a Secretaria-Geral da Presidência da República. Cotado para o cargo é o atual ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, sociólogo, nome próximo de Dilma e com grande habilidade na relação com movimentos sociais.

O PT deve também continuar no comando do Ministério da Cultura, com Juca Ferreira. No entanto, a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) é também cotada para o cargo, o que poderia abrir, no Ministério dos Esportes, uma vaga para o PT.

A ministra de Desenvolvimento e Combate à Fome, Tereza Campello, também deve permanecer e continuar no comando do principal programa de distribuição de renda do governo, o Bolsa Família. Dilma também deve manter nas mãos do PT o Ministério da Saúde, sob o comando de Artur Chioro. O ministro da Defesa, Celso Amorim, também deverá deixar a pasta.

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