Visto com um misto de ânimo e desconfiança, ideia de trazer de volta o ex-presidente pode dar lugar à construção de uma nova candidatura petista ao Palácio do Planalto

Quem convive de perto com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva resume em uma frase a ideia de um projeto eleitoral em 2018: “Se me encherem o saco, eu volto”. A declaração, feita por Lula meses atrás, levou muito petista ao delírio. Na época, o que não faltava no partido era gente defendendo que ele disputasse a Presidência da República no lugar de Dilma Rousseff. Os meses se passaram, o ex-presidente empenhou-se pessoalmente em abafar o “Volta, Lula”, deu sustentação à reeleição da sucessora e mandou mais um recado à militância petista: pediu a interlocutores que repetissem para quem quisesse ouvir que é pré-candidato à Presidência na próxima eleição.

A mensagem foi recebida com um misto de entusiasmo e desconfiança no PT. Em tese, ninguém duvida que Lula gostaria de colocar novamente os pés no Palácio do Planalto. “Ele se morde toda vez que ela faz alguma coisa da qual ele discorda”, brinca um ministro que já circulou muito ao lado do ex-presidente, ao falar sobre a “dificuldade” que ele tem de lidar com a “autonomia” cada vez maior demonstrada por Dilma. Mas quem é próximo de Lula sabe uma candidatura não está tão consolidada assim.

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Lula em Minas Gerais, dias antes do segundo turno de 2014
Ricardo Stuckert/ Instituto Lula
Lula em Minas Gerais, dias antes do segundo turno de 2014

Em 2018, o ex-presidente contará 73 anos e terá passado oito anos longe da cadeira de presidente. Na prática, sua entrada na disputa só deve de fato se concretizar se o cenário político e a realidade eleitoral do momento forem favoráveis. O próprio Lula repete com frequência aos amigos que não tem a menor intenção de se transformar numa espécie de “Michael Schumacher”. Ou seja, não quer saber de voltar se não tiver a certeza de que será “pole position”.

A ideia de deixar correr solta a notícia da candidatura teve um objetivo claro nos últimos meses: motivar a militância petista a trabalhar pela reeleição de Dilma. A tese difundida no partido era a de que a recondução da presidente seria o caminho mais curto para ter Lula de volta no Planalto num futuro não tão distante. Essa premissa foi repetida à exaustão justamente quando a ex-senadora Marina Silva (PSB) disparava nas pesquisas de opinião, na esteira da comoção provocada pelo acidente aéreo que matou o ex-governador de Pernambuco e então candidato do PSB ao Planalto, Eduardo Campos.

Veja imagens da campanha de Dilma Rousseff pela reeleição

Agora com Dilma reeleita , o motivo para colocar Lula como candidato é outro, de acordo com líderes da legenda: conter a disputa interna entre possíveis interessados na vaga e criar as condições para que a indicação de um sucessor se dê no momento certo. “Por tudo o que ele já fez, é uma segurança ter no Lula esse fator de continuidade. Mas é também um elemento de estabilidade, garantindo que não haja uma disputa dentro do próprio governo entre os demais cotados. E aí, no momento devido, o PT vai se sentar e discutir a sucessão da presidente Dilma Rousseff”, diz o presidente nacional do partido, Rui Falcão, que coordenou a campanha presidencial petista.

Um exemplo do que o PT tenta evitar é a briga que se formou lá atrás entre o então ministro da Casa Civil, José Dirceu, e o titular da Fazenda na época, Antonio Palocci. Muito antes de se verem envolvidos em escândalos de corrupção, os dois encabeçavam a lista de potenciais sucessores de Lula. Dirceu acabou abatido pelo escândalo do mensalão, enquanto Palocci deixou o cargo em meio ao episódio da quebra de sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa. Palocci virou chefe da Casa Civil no governo Dilma, mas caiu mais uma vez, em meio a suspeitas de enriquecimento ilícito.

Com as alternativas óbvias fora do cenário, restou a Lula a opção de construir uma nova candidatura presidencial para sucedê-lo em 2010. Mas o PT custa a acreditar que Dilma e Lula tenham condições de repetir o feito que levou a então ministra da Casa Civil ao Palácio do Planalto, sem nunca ter disputado uma eleição sequer. Na época, Lula era presidente e ostentava um recorde de popularidade ao fim de seu segundo mandato. Sem contar que, nos próximos anos, o que se espera no PT é um aumento da pressão na base aliada e uma tensão maior na esfera econômica.

Vitrine

Com a disputa interna sob controle, a ideia é alocar os potenciais candidatos do PT à Presidência no primeiro escalão deste segundo governo. Ministérios considerados estratégicos devem ser transformados em vitrines de projetos que possam embalar os discursos de campanha no futuro.

Um que aparece com frequência na lista de potenciais candidatos é Aloizio Mercadante. O chefe da Casa Civil, que já sonhou com o Ministério da Fazenda, hoje sinaliza aos mais próximos que prefere mesmo é ficar onde está. Nas palavras de um interlocutor, “vitrine melhor do que esta não há”. Afinal, diz o aliado, é ali que fica concentrada a execução de todos os maiores projetos do governo. Sem contar que a Casa Civil o coloca na condição de braço direito da presidente, explica o aliado.

Mercadante, entretanto, já enfrentou e ainda enfrenta muita resistência dentro do PT. Perto dele, há quem diga que o perfil do ministro nunca agradou muito ao próprio Lula quando o assunto é sucessão presidencial. Afinal, sua relação com o ex-presidente vem de longa data. Ainda assim, Lula optou por lançar Dilma como sucessora em 2010. Mas, desta vez, joga a seu favor a relação construída com a presidente nos últimos anos. Aos poucos, Mercadante foi subindo degraus na Esplanada, até se tornar um dos homens da confiança de Dilma. E petistas concordam que ela terá voz na escolha de seu sucessor.

Mas a presidente também tem outros fiéis escudeiros na lista. Um deles é o governador da Bahia, Jaques Wagner, que encerra neste ano seu segundo mandato e é tido como nome certo na Esplanada em 2015. Parte do PT afirma que, justamente por se tratar de uma aposta para 2018, Wagner tende a ser alocado numa pasta importante, com expressão política e econômica.

A lista de opções inclui pelo menos um nome do chamado “novo PT”: o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad. Mesmo enfrentando a resistência de vários setores do partido e abalado pela avaliação ruim que marcou o início de sua gestão, ele continua sendo visto como uma aposta pessoal de Lula. O destino de Haddad, segundo líderes petistas, dependerá muito da evolução da administração municipal. Se for mantida a tendência de recuperação da imagem do governo e se o prefeito se reeleger com bom desempenho, seu nome automaticamente sobe na lista de cotados ao Planalto.

Embora não demonstrem hoje a mesma força na disputa interna do PT, alguns nomes cogitados no passado como possíveis candidatos à Presidência podem voltar a ocupar um lugar na lista. É o caso de Tarso Genro, governador do Rio Grande do Sul, que saiu derrotado das urnas neste domingo. Hoje, entretanto, líderes petistas dizem ter dúvidas sobre a capacidade do ex-ministro e ex-presidente do PT de se fortalecer internamente a ponto de disputar a indicação.

Alternância

O PT torce o nariz para a ideia, mas deve ser cobrado nos próximos anos pelo apoio que recebeu de outros partidos para eleger Lula e Dilma. O ex-presidente sempre alimentou – ao menos da porta para fora – o discurso de que seu partido deveria abrir a cabeça de chapa para um partido aliado no futuro, aceitando o posto de vice. Esse foi, por exemplo, o tom que embalou muitas das conversas entre o ex-presidente e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, morto num acidente aéreo durante a corrida presidencial deste ano. Campos não comprou a ideia e optou por deixar a base e lançar a candidatura própria.

Detentor do título de aliado preferencial, o PMDB já começou a cobrar essa fatura. Embora líderes do partido reconheçam que se trata muito mais de pressionar o atual governo do que de desenhar de fato uma candidatura própria, até o vice-presidente Michel Temer dá a linha que deve pautar o discurso peemedebista nos próximos anos. Em entrevista ao iG, o vice-presidente mandou o recado. Disse que o PMDB vai sim trabalhar para lançar um nome na corrida presidencial. E não descarta convidar o PT para ocupar o posto de número dois na chapa.

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