Agora referendada nas urnas, presidente sai da eleição com mais autonomia para conduzir o governo e com capacidade de enquadrar setores do partido que trabalharam por volta de Lula

A reeleição da presidente Dilma Rousseff é resultado do esforço conjunto da candidata e de seu principal cabo eleitoral, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas traz um dado novo no cenário político que começa a ser desenhado nesta semana: o próximo governo terá mais a cara de Dilma e poderá marcar um lento e gradual descolamento da presidente reeleita de seu fiador político, dos demais partidos que formam a atual base governista - onde cintila a estrela do PT - e dos atuais métodos de governabilidade.

O senador Jorge Viana (PT-AC), um dos parlamentares mais próximos a Lula, deu a senha sobre o novo perfil que Dilma terá ao responder, na metade do segundo turno, porque o ex-presidente não estava se empenhando pela presidente como na campanha de 2010.

Veja imagens da campanha de Dilma Rousseff à reeleição

“Lula elegeu Dilma. Agora não será ele que vai reelegê-la. Dilma se elegeu e governou quatro anos e o julgamento é sobre esses quatro anos. Se ele (Lula) for para a linha de frente agora, já era”, disse Viana, sinalizando que se a presidente candidata teria de andar com as próprias pernas, também teria mais liberdade naquilo que, à época, era apenas a possibilidade de um segundo mandato.

Dilma sai dessa eleição com ressentimento escancarado contra os adversários que teve de enfrentar e que por pouco não interferiram na escolha do eleitor. Mas há mágoa represada, também, contra setores do PT paulista que, pouco antes da definição de seu nome como candidata, insistiram no movimento “Volta, Lula”, ao ponto de forçá-la a exigir uma posição pública de Lula.

Havia no “Volta, Lula” um preconceito enrustido pelo fato de a presidente, uma neófita em disputas eleitorais até 2010 - ou o “poste” que Lula iluminou - não pertencer ao chamado PT autêntico. Originária do brizolismo gaúcho, Dilma militou no PDT até 2000, quando um racha no partido a levou, junto com o ex-marido e companheiro de luta armada, o advogado Carlos Araújo, ao PT nas eleições municipais daquele ano em Porto Alegre.

Uma técnica com perfil de gerente, Dilma desviou-se de um conflito político interno, cobrou - e obteve - a solidariedade de Lula, mas não esqueceu o boicote comandado por um forte setor petista. Agora ganha musculatura para se distanciar de correligionários inconvenientes.

A vitória conta os petistas do movimento que queria o ex-presidente e a disputa acirrada com o senador Aécio Neves - o tucano que deu mais trabalho nas últimas quatro eleições presidenciais - vitaminaram Dilma e deram a ela régua e compasso para desenhar um novo governo mais próximo de seu perfil.

Também deixam a presidente a vontade para colocar o novo governo a serviço das mudanças reivindicadas pela jornada de manifestações de 2013 e que só serão viáveis diante de um novo pacto político que envolva a oposição.

No discurso da vitória, meia hora depois de proclamado o resultado, Dilma afirmou que fará as reformas que a sociedade está exigindo, o que significa, em linhas gerais, que terá de ter um papel proativo para moralizar a política, dinamizar a economia e radicalizar a democracia.

A reforma política prometida pela presidente reeleita não será uma tarefa fácil. Está parada no Congresso há mais de duas décadas porque seu principal efeito é cortar na própria carne, ou seja, alcança o caixa dois de campanhas alimentado pelas doações privadas e estimula a promiscuidade entre partidos da base e os negócios de Estado.

Dilma garantiu, no entanto, que vai estimular uma consulta popular para fazer a reforma política em parceria com o novo Congresso, exatamente onde se concentra a resistência às mudanças. O período de transição, sem solavancos, dará o tom e a cor do futuro do novo governo e mostrará se ele será de mudanças ou mera continuidade dos últimos 12 anos. A partir de 2015 a permanência (ou não) do PT no poder pode estar mais nas mãos de Dilma do que de Lula, mesmo que este deseje sair candidato a um terceiro mandato.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.