De gerente a presidente, Dilma adaptou discurso ao cargo e à dinâmica eleitoral

Por Wanderley Preite Sobrinho , iG São Paulo | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Escolhida para permanecer no cargo por mais quatro anos, petista deve exibir no segundo governo mais liberdade de pensamento e ação

Sabatinada em 2007 por um jornal paulista, a preferida do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Esplanada dos Ministérios, Dilma Rousseff, se dizia incapaz de condenar uma mulher que fazia aborto ou um homem que decidisse casar com outro homem. Os anos se passaram, a então burocrata se transformou em presidente da República, atribuição que mudou sua rotina, aparência, relações e declarações públicas. Tudo em nome da “governabilidade”.

A transfiguração de gerente à política não aconteceu de uma hora para outra, nem sem solavancos. A princípio rejeitada e invejada por petistas de longa data, a egressa do PDT torceu o nariz até para João Santana, que foi peça-chave da estratégia que ajudou a reeleger o padrinho político. Não foi difícil convencê-la a mudar de guarda-roupa nem de penteado, e, embora tenha resistido de início, acabou aceitando a ideia de entrar no bisturi.

Veja imagens da vida de Dilma Rousseff

Dilma Vana Rousseff nasceu no dia 14 de dezembro de 1947 em Belo Horizonte, em Minas Gerais. Foto: Facebook/Dilma RousseffDilma é filha do empresário e poeta búlgaro Pétar Russév e da professora Dilma Jane Silva. Foto: Facebook/Dilma RousseffDe família de classe média, Dilma Rousseff estudou no tradicional Colégio Sion e ficou até a juventude em Minas Gerais. Foto: ReproduçãoDilma (segunda à esquerda) ao lado de amigas em baile de debutante, antes de começar a militância na política. Foto: ArquivoEm 1970, Dilma, que era militante desde a juventude, foi presa em São Paulo e torturada. Ela foi condenada a seis anos e um mês, mas foi solta em 1972. Foto: ArquivoDilma começou a militância ainda nos tempos de escola, na década de 60. Chegou a viver na clandestinidade, teve que deixar a faculdade e acabou presa na ditadura. Foto: ReproduçãoDilma começou na carreira política em 1975, na Fundação de Estatística e Economia em Porto Alegre e teve vários cargos no governo gaúcho. Foto: ReproduçãoDilma Rousseff foi nomeada ministra de Minas e Energia no governo do presidente Lula, em 2003. Foto: Agência BrasilDilma nos tempos de ministra da Casa Civil. Petista assumiu a vaga de José Dirceu na pasta no governo de Lula em 2005. Foto: ArquivoDilma no casamento de Paula, sua filha única, da união com Carlos Araújo, em 2008. Lula acompanhou a então ministra na cerimônia. Foto: ReproduçãoDilma, Lula e o ministro Edson Lobão (ao fundo) em plataforma durante extração do 1º óleo da camada pré-sal, que começou a ser explorado na sua gestão. Foto: Agência BrasilMinistra Dilma Rousseff, o presidente do Senado, José Sarney, e o presidente Lula na cerimônia de apresentação do marco regulatório do pré-sal, em 2009. Foto: Agência BrasilAinda na época de ministra, Dilma Roussef assiste ao desfile do bloco de carnaval Galo da Madrugada, no Recife. Foto: Agência BrasilEm 2009, Dilma enfrentou um câncer linfático. Ela teve que usar peruca por alguns meses e foi considerada curada em setembro daquele ano. Foto: Agência BrasilDilma posa com o neto Gabriel. O herdeiro nasceu em setembro de 2010. Foto: DivulgaçãoDilma durante a campanha nas eleições presidenciais de 2010. Ela venceu José Serra no segundo turno. Foto: Roberto Stuckert FilhoLula começou o tratamento contra um câncer na laringe em outubro de 2011 e recebeu a visita de Dilma no hospital. Foto: Instituto LulaAo lado do vice Michel Temer, Dilma Rousseff sobe a rampa do Palácio do Planalto no dia da sua posse como presidente em janeiro de 2011. Foto: Ricardo Stuckert FilhoLula passa a faixa de Presidente da República para Dilma em janeiro de 2011 no Palácio no Planalto. Foto: ArquivoCom Lula, PT realiza convenção que homologou a candidatura de Dilma em junho deste ano. Foto: Ricardo Stuckert/Instituto LulaEleitores se apertam para chegar perto de Dilma Rousseff durante camapnha da petista em 2014. Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13Dilma teve momentos de descontração durante a campanha e até arriscou passos de funk. Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13Lula fez campanha ao lado de Dilma Rousseff em caminhadas e carreatas na eleições 2014. Foto: Ricardo Stuckert/PRNa reta final, Dilma fala da defesa das mulheres e usa faixa 'Diga não a violência contra a mulher'. Foto: Ichiro Guerra/ Dilma 13Bebendo chimarrão, Dilma Rousseff exibe comprovante de votação do segundo turno (26/10). Foto: Felipe Dana/ APDilma Rousseff é reeleita presidente da República e comemora em Brasília (26/10). Foto: ALAN SAMPAIO/iG BRASILIADilma recebe carinho de Lula depois de vitória nas eleições presidenciais 2014 (26/10). Foto: ALAN SAMPAIO/iG BRASILIA

Mas a aspereza dos primeiros encontros evoluiu e a confiança criada superou até sua amizade com Lula ao ponto de, nos corredores, apelidarem o marqueteiro de ministro mais poderoso de Dilma. Antes de falar com Lula, foi a ele que a presidente se aconselhou sobre as manifestações de junho do ano passado.

Vencida essa etapa, era hora de adaptar o discurso. A relativa liberdade dos tempos de ministra havia acabado. O momento era de contrariar algumas ideias pessoais em nome de votos.

Mais: Em campanha mais acirrada da história, Dilma é reeleita presidente da República

O que se viu na corrida de 2010 se repetiu em sua campanha de reeleição: temas como descriminalização do aborto e casamento gay são vistos com bons olhos pela cidadã, mas não pela presidente. Em 2007, em entrevista à revista Marie Claire, a ainda ministra afirmou que “tem de haver descriminalização do aborto” porque “no Brasil é um absurdo que não haja". Já em 2010, a candidata se posicionou "pessoalmente contra”.

Sobre união civil gay, ela se declarou favorável em sabatina da Folha de S.Paulo em 2007. “Sou a favor de que, do ponto de vista das suas relações, as pessoas definam o que elas acham mais adequado. Quem sou eu para julgar qualquer coisa? Depois de uma certa idade, a gente fica mais sábia”. Nas últimas campanhas, preferiu fugir do tema, mas não impediu que o assunto avançasse no Congresso.

Sobre a legalização da maconha, afirma que a “sociedade não está preparada para uma mudança dessa natureza”.

Com o tempo, Dilma pegou o jeito. O perfil durão dos tempos de ministra virou marca registrada na Presidência. Ela chega cedo ao trabalho, sempre às 8h30. Sua disposição para o batente é tamanha que ela praticamente não tem vida social – até por isso não dá sossego aos subordinados. "Eu tenho de resolver problemas e conflitos. Não tenho descanso. Não sou criticada porque sou dura, mas porque sou mulher. Sou uma mulher dura cercada por ministros meigos", disse ela sobre o próprio temperamento, uma tese que fez questão de reforçar pouco antes do primeiro turno desta eleição, na entrevista que concedeu ao iG e à Rede TV.

Seus ministros reclamam não só da quantidade de tarefas que ela demanda, mas principalmente de sua dificuldade em ouvir respostas que contrariem suas expectativas. Quem mais sofre são os titulares da área econômica. Edison Lobão, de Minas e Energia, seria tratado quase como preposto da presidente, ex-ocupante do cargo.

No Banco Central, suas constantes intervenções teriam forçado a queda na taxa de juros nos últimos anos sob o argumento de segurar os níveis de emprego em fase pré-eleitoral, desestabilizando as contas públicas. Também teria saído de seu gabinete a ordem para a Petrobras congelar os preços da gasolina para não pressionar a inflação.

Esse artifício para conter a alta de preços foi um dos mais criticados pelos adversários da presidente nesta campanha, que acusa o desajuste das contas públicas e à "instabilidade institucional" causada por essas intervenções. O índice inflacionário vem beirando o teto da meta anual de 6,5% estipulada pelo próprio governo. O aumento dos preços foi a maior insatisfação do brasileiro em pesquisa CNI-Ibope de março último, que apontou 71% de descontentamento. Para Dilma, é preferível uma inflação um pouco maior ao desaquecimento econômico e consequente aumento do desemprego.

Suas intervenções no BC serviram de munição para os adversários, mas se encaixam ao modelo de gestão do Banco Central defendido por ela. Para Dilma, o presidente da instituição monetária tem de ser indicado pelo chefe do Executivo porque a economia precisa ser dirigida por quem foi eleito. Sua postura é contrária à da ex-candidata Marina Silva (PSB), que no primeiro turno causou polêmica ao defender a independência da instituição. A petista acredita que já há uma “autonomia operacional” do Banco Central.

Governo e Estado

Desenvolvimentista, Dilma acredita que o Estado deve regular as instituições públicas e o crescimento da economia. Assim como Lula, ampliou a presença do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para financiar juros para pessoas físicas e políticas públicas nas áreas de moradia, agricultura familiar e agronegócio. Já o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teve papel forte nos financiamentos para empresas.

Eleita pela primeira vez sob o título de “mãe do PAC”, o governo Dilma apostou em grandes obras de infraestrutura para criar emprego e aquecer a economia. São exemplos a transposição do Rio São Francisco, a Usina de Belo Monte e as obras do Minha Casa Minha Vida, que, em seu mandato, construiu 2,3 milhões de moradias populares.

Esse perfil lhe custou críticas de ambientalistas, para quem ela teria aberto mão de cuidados ambientais em nome das grandes obras. Além de o Brasil sustentar o título de campeão mundial em desmatamento, segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), a descoberta do pré-sal eclipsou o incentivo ao etanol em favor de combustíveis fósseis.

Seu governo também foi criticado pela lentidão com que lidou com a reforma agrária. Em 2012, o Incra, responsável pelos assentamentos, foi acusado pelo Ministério Público de ser o maior desmatador da Amazônia.

De origem trabalhista, Dilma é vista com desconfiança por petistas mais ortodoxos, contrários às privatizações. No ano passado, o expediente foi utilizado por sua equipe econômica para atingir a meta do superávit primário, os juros para pagamento da dívida pública.

Deixada em segundo plano em toda a campanha, a política externa de Dilma é frontalmente oposta à de Aécio Neves, defensor de acordos bilateriais com Estados Unidos e Europa. Sob o PT, o Brasil apostou na integração com os países da América do Sul e nações em desenvolvimento, como Índia, África do Sul e China, atualmente o maior parceiro comercial do Brasil.

Na diplomacia, Dilma privilegia os discursos de paz, como sua polêmica defesa de diálogo com o Estado Islâmico. A política de tolerância também é defendida pela presidente em território nacional.

Ao contrario de seu adversário no segundo turno, Dilma é contrária à redução da maioridade penal. Seu ministro-chefe da Secretária-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, declarou no início do ano que "temos de atacar a causa, que é uma questão histórica de exclusão, falta de oportunidades e discriminação da juventude negra".

Articulação

Ao contrário da adaptação de discurso e de visual, a falta de tato político atribuída a Dilma ainda dá sinais. No primeiro mandato, as dificuldades enfrentadas pela petista para controlar a base aliada lhe renderam forte desgaste. A então ministra da Secretaria de Relações Instituições, Ideli Salvatti, custou a acertar a relação com Câmara e Senado e acabou sendo substituída pelo ex-presidente do PT Ricardo Berzoini.

Para quem trabalha no governo, o sossego só chega aos finais de semana, quando Dilma se tranca no Palácio da Alvorada, onde vive com a mãe, Dilma Jane, e a tia, Arilda, e onde recebe as frequentes visitas da filha, a procuradora do Trabalho Paula Rousseff, e do neto, Gabriel, nascido na reta final da campanha de 2010. É na companhia deles que a presidente viaja quando decide descansar na Base Naval de Aratu, em Salvador.

A mineira Dilma também visita a filha e o neto em Porto Alegre (RS), cidade que adotou depois da luta armada. No final do ano passado, ela foi flagrada saindo de um carro com Gabriel no colo. Fotografada, pediu desculpas no Twitter. "Estive hoje na casa da minha filha [...] Meu neto foi abraçado comigo no banco de trás. Foi um erro. A legislação de trânsito é clara: criança tem de andar na cadeirinha."

Espera-se agora se que Dilma use sua experiência do primeiro mandato para tomar medidas mais impopulares e se expresse mais livremente, já que inevitavelmente deixará o Planalto em 2018. Uma promessa repetida à exaustão é que ela se empenhará em entregar a faixa presidencial com a reforma política concluída, ou, pelo menos, parte dela, com o avanço em pontos como o fim das coligações e o voto em lista.

A única coisa de que não se tem dúvida é que ela terá mais trabalho para governar, uma vez que sua vitória não impediu que o Brasil saísse das urnas divido. Restará à presidente reeleita se valer da experiência adquirida no primeiro mandato e ouvir os conselhos da parcela crítica que votou nela no segundo turno.

Leia tudo sobre: eleições 2014dilma rousseff

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas