Para tucanos, principal fator da derrota foi erro estratégico em Minas Gerais, mas resultado não apequena senador mineiro

Recém-saído de mais uma derrota eleitoral, o PSDB deverá agora se debruçar sobre o futuro. Majoritariamente, correligionários dizem que o senador mineiro Aécio Neves deixa a campanha com um capital político muito maior do que aquele que tinha. Sua derrota é relativizada, sobretudo em função da pequena diferença que o separou da vitória. Faltaram a Aécio 3.458.849 de votos, num universo de 105.536.615 de votos válidos, que representam diferença de 3,28 pontos percentuais. Tornou-se conhecido do eleitorado nacional e rompeu o regionalismo de seu nome. Isso não significa, porém, que Aécio seja a escolha natural do partido para 2018.

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O senador mineiro é frequentemente elogiado, inclusive pelo PSDB paulista, diretório que teve de lidar com mágoas do passado. Seus aliados destacam as qualidades de um candidato que soube contagiar os aliados com entusiasmo e não deixou o moral cair mesmo nos momentos mais difíceis da campanha. Entretanto, Aécio teve sua vez e agora terá de disputar internamente com nomes como Geraldo Alckmin, José Serra e Beto Richa, governador paranaense reeleito no primeiro turno que ganhou força para se colocar como opção em 2018, junto aos nomes já consolidados.

Aécio Neves discursa após derrota
AP
Aécio Neves discursa após derrota

Alckmin é apontado internamente como dono de um capital eleitoral que contará pontos de sobra em 2018. O governador paulista

concorreu em 2006 e não gerou problemas para o partido. Planejou sua trajetória no governo paulista e abriu espaço para que correligionários disputassem em 2010 e 2014. Deverá cobrar a fatura, alegando que a próxima disputa é a sua vez.

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Serra, que tem 72 anos, chegaria a 2018 com 76 anos e poderia usar o argumento de última chance para se colocar como candidato. Poucos duvidam que ele tentará disputar a Presidência pela terceira vez. E Richa tem sido frequentemente citado depois que conseguiu ser reeleito com folga já no primeiro turno para o segundo mandato no Paraná.

Diagnóstico da derrota

A ressaca da derrota está longe de ser assimilada, mas internamente, tucanos reconhecem erros na campanha presidencial e admitem reservadamente a necessidade de mudar a forma de dialogar com os setores mais pobres da sociedade. Apesar disso, a tese do uso abusivo da máquina pública por parte do adversário aliada a uma campanha recheada de acusações também são destacados como causas de mais uma derrota em disputas presidenciais, a quarta seguida, impondo 14 anos desde a última eleição vendida pelo partido.

Veja imagens da campanha de Aécio Neves nas eleições 2014

Tucanos admitem, por exemplo, que Aécio dançou demais a dança de Dilma Rousseff (PT) no debate eleitoral. A avaliação é que o PSDB gastou tempo discutindo o passado e deixou de debater suficientemente o futuro. Aécio procurou puxar o debate para essa direção ao abusar de um de seus mantras durante o segundo turno: “tire os olhos do retrovisor”. Dilma e a campanha petista não tiraram e o senador mineiro acabou entrando na dança, até para defender o legado do principal artífice de sua campanha, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Para tucanos, isso foi uma armadilha para o esforço do PSDB.

Nesse sentido, há também uma visão crítica sobre a forma como o partido lidou com a presença do legado do ex-presidente Lula na disputa. Para alguns correligionários de Aécio, a estratégia deveria ter priorizado os ataques sobre Dilma e seu mandato. Ainda que a estratégia do PT fosse transformar os mandatos de Lula e Dilma numa coisa só, ha quem acredite que isoladamente, a gestão da presidente tinha um imenso telhado de vidro.

Minas Gerais

O fator Minas Gerais também é apontado por tucanos como bastante relevante para a derrota do PSDB. A escolha de Pimenta da Veiga para a disputa local é visto como um descuido de Aécio no seu estado natal. Antes mesmo da votação, tucanos já alertavam para a importância de buscar o resultado em Minas Gerais, que já havia dado uma vitória para Dilma no primeiro turno. Para aliados, Aécio perder em casa teve um simbolismo que foi bem usado pelo PT.

Se por um lado, houve um empenho reconhecidamente grande do PSDB de São Paulo, onde Aécio teve 64,31% dos votos contra 35,69% de Dilma, esse esforço acabou minado pelo desempenho ruim em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país. Dilma abocanhou 5.979.329 votos em Minas, 52,41% do total. Tucanos veem nesse dado o fator mais determinante para a derrota. A vitória do ex-ministro Fernando Pimentel (PT) já no primeiro turno, tirou alguns temas que poderiam favorecer Aécio no debate eleitoral.

O olhar crítico dos tucanos também aborda a dificuldade que o partido tem em dialogar com os setores mais populares do eleitorado. Mais uma vez essa reflexão, que já foi apontada no passado como determinante para derrotas anteriores, retorna para atormentar o partido. Embora tenha criado o embrião do Bolsa Família, o partido não consegue ter sua paternidade reconhecida por causa da falta de habilidade em se comunicar com os setores populares. Criou um núcleo sindical que pouco atuou e que poderia ter contribuído com essa tarefa.

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