Para não perder votos, PT e PSDB estimularam rivalidade ideológica para abafar a semelhança de projetos

Depois de um primeiro turno marcado por propostas polêmicas, como a legalização das drogas e o casamento gay, as três semanas do segundo turno das eleições presidenciais se transformaram em um campo de guerra com pouco espaço para propostas, substituídas por agressões mútuas entre tucanos e petistas.

Com mais semelhanças nos projetos para o social e mais divergências no campo econômico, os partidos que polarizam a campanha pela sexta eleição seguida apostaram no acirramento da rivalidade para ganhar o voto indeciso, deixando em segundo plano assuntos como reformas política e tributária, modelo de desenvolvimento, crise ambiental, ampliação de direitos, segurança pública, investimentos em infraestrutura e soluções para o Brasil voltar a crescer.

Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) disputam o segundo turno das eleições presidenciais
Divulgação
Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) disputam o segundo turno das eleições presidenciais

Aborto, casamento igualitário e legalização das drogas dominaram boa parte das discussões do primeiro turno em razão da insistência dos candidatos nanicos Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL). A tese da “nova política” pregada por Marina Silva (PSB) também estimulou discussões sobre a reforma política, apoiada pela maioria dos candidatos. Cientes de que a polarização no segundo turno se transformaria em uma disputa apaixonada, os caciques de PT e PSDB decidiram estimular a estigmatização e a desconstrução do adversário.

Dilma e Aécio notaram cedo que a divisão do eleitorado seria o assunto do segundo turno. "O que eles fizeram foi estimular essa divisão para aumentar a rejeição do oponente. É o que chamamos de 'soma zero': no segundo turno, o voto ganho por um é perdido pelo outro", avalia o cientista político da
Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Waldir Campinelli. "O PT poupou Aécio no primeiro turno, mas com as taxas de rejeição agora equilibradas, o debate virou embate."

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O professor faz parte do grupo que acha que tucanos e petistas são parecidos no campo econômico, “o que inviabiliza discussões sobre investimento em infraestrutura e crescimento econômico, por exemplo”. Para ele, “os dois partidos seguem a receita neoliberal inaugurada por Fernando Henrique Cardoso e continuada por Luiz Inácio Lula da Silva. Mesmo assim, o PT conseguiu pregar um selo de ‘neoliberal’ no PSDB, um partido que causaria desemprego se chegasse ao poder. "Já o PSDB conseguiu colar no PT a marca de partido corrupto."

Veja imagens da corrida presidencial no segundo turno:

A tese da convergência econômica entre os dois partidos e as duas candidaturas, no entanto, não chega a ser consensual entre analistas. Principalmente na gestão do PT na economia a partir da crise internacional de 2008, quando o governo Lula saiu da cartilha, pondo o pé no acelerador do crédito, no intervencionismo estatal e no estímulo ao mercado interno. Essa estratégia econômica a partir do segundo mandato de Lula e continuado na gestão de Dilma Rousseff recebe elogios e críticas, conforme a linha teórica do economista que se pronuncie.

Para Leda Paulani, economista da USP, temos neste ano dois projetos diferentes não apenas em relação à condução da política econômica, mas também na visão de como entender a economia, seu funcionamento e sua dinâmica. Outra linha – defendida por economistas como Bernardo Guimarães, da FGV-SP, acha que mais intervencionismo não deu, nem dará, certo.

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