Em artigo, analista comenta luta livre virtual das eleições 2014, fenômeno que assustou e cansou usuários das redes sociais

As eleições presidenciais, como não podia deixar de ser, invadiram as redes sociais nas últimas semanas. A minha, a sua e de todo mundo. E da forma menos polida, para dizer o mínimo. Esta luta livre virtual virou o tema da própria rede. Parte dos usuários ficou assustada – e cansada – com a virulência dos comentários, outra parte entrou no jogo defendendo seu ponto de vista muitas vezes de forma exagerada. Isso é bom – o confronto de ideias é saudável. Isso é ruim – o chute abaixo da linha da cintura é desagregador. O velho Marx dizia que a quantidade gera qualidade. Mas nem sempre a dialética funciona, como todo usuário de Facebook, Google+ e Twitter deve ter notado. Predomina o tiroteio virtual. Por isso que eu digo que a rede social não me representa nestas eleições.

Críticas a Dilma: Após polêmica nas redes sociais, Aécio faz aceno ao eleitor nordestino

A rede social não me representa nestas eleições, não porque o meu ponto de vista está mais ou menos representado na rede – a ferramenta PollZtat que compara o que os meus amigos do Facebook gostam, mostra que 55% curtem o candidato do PSDB, Aécio Neves , e 45% a candidata do PT, Dilma Rousseff –, mas por aquilo que ela tem de mais característico: o nivelamento da informação por baixo. É pela atitude de aceitar e compartilhar aquela fonte suspeita de informação sem avaliar sua procedência. Você conhece: são blogs raivosos e fanpages falsas – à esquerda e à direita –, que em vez de jogar luz sobre um tema simplesmente destilam ódio ou vomitam fórmulas prontas a favor dos argumentos tucanos ou petistas em forma de textos, memes e vídeos.

Veja imagens da campanha presidencial no segundo turno: 

A rede social não me representa por compartilhar à exaustão os “polemistas profissionais” (o ópio da web) que se julgam iluminados e interpretam para mim e para você a notícias publicadas na mídia à luz de seus interesses, mas raramente produzem um conteúdo próprio, geram informação ou fazem um trabalho de reportagem.

Tucano na frente: Eleitores de Aécio são 23% mais engajados na web, revela consultoria

A rede social não me representa também quando replica conteúdos apócrifos, de linchamento público ou comentários preconceituosos, sugerindo que retrocedemos décadas no calendário das conquistas humanitárias e sociais.

A rede social não me representa nestas eleições pois não consigo reduzir o pensamento dos meus amigos, e achar que todo amigo eleitor da Dilma apoia o regime de Cuba ou o controle de mídia, ou quem vota no Aécio automaticamente se alinha às teses conservadoras e moralistas de certa vertente evangélica ou é um representante do retrocesso.

Mas vale lembrar que a rede é uma conversa, e uma conversa ampliada pelo número de amigos e seguidores que cada um tem. Na vida real, quando uma conversa não agrada numa festa, por exemplo, você tenta mudar de assunto. Quando os apelos à razão não funcionam, basta mudar de ambiente, e largar o xiita, digital ou analógico, falando sozinho. Para todo excesso existe um filtro. Para todo chato, uma solução.

Assista: Os candidatos estão usando bem as redes sociais?

Esta campanha eleitoral foi didática também ao desvendar ao grande público alguns truques da rede social – insisto, usado tanto de um lado como de outro da disputa eleitoral: a criação dos perfis falsos, o uso indiscriminado de robôs que dão a falsa impressão de uma discussão real, e a desconstrução combinada entre alguns “formadores de opinião”. Também escancarou os profissionais que criam páginas que permanecem no limbo durante anos, apenas criando relevância nos buscadores, para serem alugadas como ferramenta de distribuição de agressões, achincalhes e peças de humor no período eleitoral. Este povo, definitivamente, não me representa nas redes sociais.

A diversidade de opiniões da rede social é no fundo positiva para quem souber se apropriar dela e conviver com o contraditório, pois têm amigos de todas as matizes ideológicas. Por isso mesmo a rede social tem de ser vista também com um olhar crítico. O mesmo olhar crítico necessário que hoje os usuários têm com as mídias tradicionais. Um bom exemplo é a ferramenta criada na UERJ, o Manchetômetro – que avaliou o tratamento dado aos candidatos à presidência pelos jornalões Folha de S.Paulo, Estado de S. Paulo, O Globo e Jornal Nacional durante a cobertura eleitoral. A análise das manchetes diárias mostra uma tendência maior de manchetes negativas para a candidata do PT do que para o candidato do PSDB. Mas mesmo esse tipo de iniciativa careceu do seu contraditório, de uma avaliação de outros sites e fontes de informação que trataram os mesmos personagens em suas páginas, mas carregando as tintas mais para outro lado.

Mas mesmo não me representando pelo que tem de negativo, a rede social, claro, é uma importante e independente ferramenta de participação do jogo democrático. O momento é propício mesmo para o debate mais acirrado, para a discussão política. Se não for agora, vai ser quando? O enfrentamento de escolhas políticas sempre rolou na rede, o que muda é a dimensão que assume neste período eleitoral. E alguns temas polêmicos, bem ou mal, entraram em pauta, como maioridade penal e a homofobia. A divisão criada na rede – o tom acima que incomoda – apenas reflete a cisão criada no país entre a escolha do candidato A ou B.

Humor: Reveja os 50 memes mais divertidos da corrida presidencial

As eleições terminam neste domingo, dia 26. Um rescaldo do embate deve tomar a rede por uma semana, no máximo. E, talvez, as mesmas pessoas que hoje reclamam do excesso de posts militantes sobre as eleições presidenciais – e não aguentam mais a turma do #13rasilTodoComDilma e #Aecio45PeloBrasil “invadindo sua time line” com baixaria e proselitismo – são aquelas que vão reclamar da volta dos bichos fofos, das celebridades bizarras e dos vídeos de autoajuda após o período eleitoral. O futebol, talvez, volte a ocupar o posto de tema preferido dos embates de baixo extrato. Afinal, como dizia o escritor e filósofo Jean-Paul Sartre, “o inferno são os outros”, e olhe que nem de longe Sartre podia prever o fenômeno das redes sociais e suas consequências em nossas vidas.

* É jornalista e trabalha com mídias digitais desde o ano 2000

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.