"A estratégia não é só atrair voto, mas tirar voto do outro lado", analisa especialista sobre o confronto Dilma x Aécio na TV

BBC

Se o debate entre os candidatos Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) no último domingo foi mais “ameno” do que os encontros anteriores, o clima entre as campanhas e entre os eleitores que apoiam o tucano e a petista está longe de ser tranquilo.

Além das trocas de acusações e do bate-boca que caracterizaram os dois primeiros debates televisionados, confrontos entre “aecistas” e “dilmistas” são frequentes nas redes sociais e relatos publicados pela imprensa e por internautas dão conta inclusive de agressões verbais e físicas entre partidários das duas candidaturas.

Debate da Record: Dilma e Aécio trocam agressividade por guerra de números

Debate da Record teve clima mais amenos que os anteriores
Nacho Doce/ Reuters
Debate da Record teve clima mais amenos que os anteriores

O ambiente inflamado das campanhas também levou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspender, na última semana, propagandas de Aécio e Dilma que traziam ataques e acusações. Como justificativa para uma das suspensões, o ministro Tarcísio Vieira, do TSE, afirmou que as propagandas deveriam se focar em “ideias” e não em “pirotecnias”.

Mas por que o ambiente da disputa eleitoral está tão polarizado? Este é um fenômeno apenas brasileiro?

Na opinião de Felipe Nunes dos Santos, professor de Ciência Política na Universidade da Califórnia em San Diego (EUA) e estudioso de instituições políticas na América Latina, parte do clima de “Fla x Flu” deve-se ao fato de que um ponto crucial nesta eleição não é o apelo da presidente ou de seu opositor, mas, sim, qual dos dois terá a menor rejeição.

"A estratégia não é só atrair voto, mas tirar voto do outro lado", diz Santos.

Brasil Econômico: Com tom ameno, Dilma e Aécio evitaram afastar eleitor indeciso 

Além disso, de acordo com o pesquisador, o fato de o segundo turno limitar as opções dos eleitores a apenas dois candidatos incentiva ainda mais a polarização.

"Vemos isso na internet, nas conversas, nos grupos de pesquisa de opinião: com os resultados da votação sendo mais apertados, as pessoas vão cada vez mais aos polos (do espectro político) para se diferenciar (do outro polo), sem querer dialogar com ele."

Disputa

Na visão de Helcimara Telles, que lidera um grupo de estudos de opinião pública na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essa polarização deriva do fato de PT e PSDB estarem se enfrentando pela Presidência pela sexta vez consecutiva.

"O que orienta a escolha é a ideologia, mas também o voto contra."

O fato de as eleições estarem tão competitivas – algo que não parecia provável meses atrás, quando Dilma estava na dianteira – também contribui para a polarização, diz Harold Trinkunas, analista de América Latina do Instituto Brookings (EUA).

Veja fotos dos presidenciáveis na campanha do segundo turno:


"Essa competitividade gera uma resposta emocional maior", afirma. "E trata-se também do reflexo do momento do país: vocês estão chegando em um ponto em que um modelo de inclusão social está chegando a seus limites naturais. O crescimento econômico será mais difícil. As pessoas respondem a isso."

Outros países

Ainda que muitos acreditem que a "baixaria" nos embates políticos seja um fenômeno brasileiro, segundo especialistas, o cenário não é diferente em outros países onde há uma característica de bipartidarismo.

"Nos Estados Unidos, os candidatos usam muito mais ataques do que aqui, porque muitos eleitores já têm seu voto consolidado em um dos dois partidos (Republicano ou Democrata) e menos desses votantes são voláteis", explica Telles. "Daí, o desafio não é convencer os eleitores a deixar sua ideologia, mas, sim, a duvidar da capacidade de um candidato específico de governar o país."

Países europeus como Reino Unido e Espanha também têm uma polarização bipartidária que oscilou ao longo da história.

No Reino Unido, debates semanais no Parlamento entre o premiê e o líder da oposição, além de encontros frequentes entre secretários e oposicionistas, ajudam a criar no país uma cultura de discussões políticas. Mas, mesmo lá, os eleitores têm dificuldade em discutir detalhes de cada plataforma, explica Anthony Pereira, diretor do Brazil Institute no King's College, em Londres.

"Acho que (o debate no Brasil) decaiu um pouco para caricaturas. Seria bom se houvesse mais detalhamento de programas para que as pessoas pudessem analisá-los", aponta. "Mas mesmo quando partidos publicam plataformas bastante detalhadas, como no sistema britânico, as pessoas não olham a fundo e tendem a se deter em superficialidades nos debates."

Show

A divisão estilo "Fla x Flu" também é vista claramente em vários países latino-americanos, ainda que com outras características, afirma Santos.

"Em muitos deles, a dualidade do debate é mais centrado em pessoas – Hugo Chávez na Venezuela, Perón na Argentina e Evo Morales na Bolívia – do que em partidos", diz ele. "Já no Chile e no Uruguai temos uma polarização de esquerda e direita mais clara, em que as pessoas votam no partido."

"É preciso entender que o debate de campanha às vezes é um grande show, no qual o candidato tem que saber chegar a públicos muito diferentes", disse à BBC Brasil Leticia Ruiz, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Complutense de Madri, que estuda política latino-americana.

"Há os públicos que votam em você por suas propostas, pelo seu partido, pelo seu carisma ou porque você parece melhor que o outro - por eliminação, não tanto por escolha."

Mas para Trinkunas, do Brookings, a polarização no Brasil não tem implicações tão graves quanto em outros países. "O país tem hoje instituições sólidas. Não é algo tão difícil de lidar quanto na Venezuela, onde a polarização é grande e as instituições são mais fracas para lidar com ela."

Avançamos?

Mas será que o debate eleitoral evoluiu juntamente com a melhora dos indicadores socioeconômicos do Brasil?

"Em parte sim, em parte não", opina Telles. "Nas eleições de 1989, não tínhamos como comparar os partidos, e a experiência que temos agora nos dá mais informação."

Por outro lado, diz a professora da UFMG, os candidatos continuam martelando acusações mútuas de corrupção, sem que o país até agora tenha tomado alguma medida que tenha eliminado de vez o problema.

"A corrupção acaba sendo tratada pelos candidatos como uma questão moral, em vez de institucional", diz a especialista . "(Na ausência de mudanças institucionais), os candidatos continuarão a levantar bandeiras anticorrupção em vez de discutir propostas e políticas públicas."

Para Felipe Nunes dos Santos, "o debate melhorou, mas talvez de forma diferente do que esperávamos”.

“A maioria das pessoas não está discutindo temas técnicos sobre educação e saúde, mas está prestando mais atenção e assumindo seus lados na política. E esse debate mais técnico tampouco acontece em países da Europa ou nos EUA".

Para os Santos e Helcimara Telles, no entanto, há muito espaço para aumentar a qualidade do debate eleitoral do Brasil – e isso passaria por uma reforma política que ampliasse as formas institucionais de combater a corrupção, debatesse o financiamento público de campanha e facilitasse o entendimento das coligações e do voto legislativo pelo eleitor.

"Não é ruim que os eleitores tenham posições firmes (sobre seus candidatos), o ruim é que o processo eleitoral dificulte o entendimento de como funcionam os partidos", diz Santos.

"(Uma reforma) permitiria que falássemos de ideias partidárias maiores do que a mera diferenciação dos candidatos por sua imagem pessoal."

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