Tendência é que a corrida deste ano se torne e mais acirrada e mais virulenta das últimas cinco disputas presidenciais no País

Fenômeno visível a olho nu especialmente no segundo turno, ataques pessoais e denuncismo viraram marca registrada das campanhas presidenciais do País desde 1989. Naquele ano, a baixaria chegou a extremos: o então candidato Fernando Collor gravou depoimento de uma ex-namorada do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a enfermeira Mirian Cordeiro, acusando o petista de tê-la forçado a fazer um aborto para evitar o nascimento de uma filha fora do casamento. Descobriu-se depois que as acusações eram fantasiosas e que Mirian recebera para gravar.

A armação produziu efeito avassalador na campanha petista.

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Abalado, Lula foi para o último debate despreparado e não conseguiu reagir aos ataques pessoais de Collor que, usando até linguagem codificada – a famosa frase do “3 em 1” –, chegou a insinuar que o petista havia presenteado uma suposta namorada, em Brasília, com um aparelho de som.

No primeiro turno da mesma campanha, Lula trocaria farpas com outro candidato de esquerda, o ex-governador do Rio, Leonel Brizola. O petista afirmou em entrevista que “para se eleger, Brizola pisaria até no pescoço da mãe”. Brizola devolveu, mais tarde, afirmando que “sempre que tomava umas cachaças” Lula o provocava, mas não levou o assunto a sério.

No segundo turno, o ex-governador disse aos correligionários que teria de “engolir o sapo barbudo”, empenhou-se na campanha e conseguiu transferir para o petista – de quem seria candidato a vice em eleições futuras – quase a totalidade dos votos que recebera no primeiro turno. O PT daria o troco a Collor dois anos depois, encabeçando o processo de impeachment que tirou o ex-presidente do poder.

Na eleição seguinte, Lula seria surpreendido pelo Plano Real, posto a andar pelo ex-presidente Itamar Franco e seu ministro da Economia, Fernando Henrique Cardoso. Para se diferenciar do PSDB, Lula e o comando petista tentaram, sem sucesso, detonar o plano, classificando como medida ineficaz, eleitoreira e casuística.

A posição do PT abriria uma ferida jamais cicatrizada, embora no aniversário de 15 anos do Plano Real, em 2009, o então senador e hoje ministro Chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, tenha feito, da tribuna do Senado, a autocrítica, reconhecendo que a estabilidade mudou para melhor a economia do país.

Em 1998, numa nova disputa do Fernando Henrique Cardoso, o ingrediente de ataque seria o natimorto Dossiê Cayman, um calhamaço de papéis com acusações nunca comprovada apontando que a cúpula tucana tinha contas secretas em paraísos fiscais para abrigar recursos originários de desvios.

Os papéis foram oferecidos pelo deputado Paulo Maluf ao PT, mas Lula, depois de consultar o criminalista que seria seu ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, não autorizou o uso. O advogado alertou que poderia ser um tiro no pé porque não havia provas sobre as supostas contas.

Lula perderia em 1998 no primeiro turno, mas ressurgiria com força em 2002. Iria enfrentar o senador eleito José Serra que, antes mesmo do início da campanha, teria estimulado a operação que resultou no chamado Caso Lunus – a apreensão de R$ 1,3 milhão numa empresa da família da governadora do Maranhão, Roseana Sarney, que acabou desistindo da disputa.

Veja imagens deste segundo turno

Para chegar ao segundo turno, Serra desferiu uma série de ataques a outros dois candidatos, o ex-governador cearense Ciro Gomes e o ex-governador do Rio, Anthony Garotinho. Mas reservaria para Lula, já no segundo turno, os factoides mais venenosos: acusou o petista de ser favorável à bomba atômica e tentou liga-lo às Forças Armadas da Colômbia (Farcs) por suas relações com o MST. Foi inútil: Lula já havia feito as pazes com o mercado ao divulgar a Carta ao Povo Brasileiro, onde sustentava que não mexeria nas bases da economia e nem nos contratos firmados por Fernando Henrique.

Em 2006, o hábito petista de fazer dossiês faria o feitiço virar contra o feiticeiro. Dirigentes e assessores do partido, na tentativa de desgastar José Serra, seriam presos com uma montanha de dinheiro que seria usada na compra de documentos e divulgação do suposto envolvimento dos tucanos com desvios no Ministério da Saúde. Lula, que deixou de ser eleito no primeiro turno por causa do escândalo, apelidou os correligionários de aloprados.

Serra voltaria a enfrentar o PT em 2010. Em meio à campanha, tentou colar na presidente Dilma Rousseff, ex-Chefe da Casa Civil, recém entronizada na política por Lula, denúncias de envolvimento com tráfico de influência de sua sucessora, Erenice Guerra, e o caso de violação de seu sigilo fiscal na Receita Federal – e também de seus familiares.

O então candidato afirmou que se tratava de “trabalho organizado e de uma quadrilha”. Em declarações à imprensa e no horário eleitoral gratuito, Lula saiu em defesa de Dilma e acusou o tucano de produzir mais um factoide: a violação havia ocorrido em setembro de 2009, portanto, longe do período eleitoral, e a campanha de Dilma nada tinha a ver com o assunto, conforme reconheceria o Tribunal Superior Eleitoral.

A disputa deste ano, ainda embolada, deverá ser a mais acirrada das últimas seis. “A eleição de 2014 é mais competitiva que as últimas cinco e, talvez, da história. A tendência é que ela se torne ainda mais acirrada. Se compararmos o nível de acusações, as de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010 foram bem mais tranquilas”, afirma o cientista político Carlos Melo, do Insper.

Sinal dos tempos, o detalhe significativo, segundo ele, é que hoje, diferentemente de 1989, existe o fator rede social, por onde circula a baixaria que os veículos eletrônicos e impressos tradicionais conseguem filtrar. O diagnóstico mais lamentável vem das próprias campanhas: “Nunca na história desse país se produziu tanta baixaria na internet. É uma campanha cheia de calúnias”, apontou o senador Aloysio Nunes Ferreira, candidato a vice-presidente do PSDB, verbalizando, é claro, o que atinge os dois lados da contenda.

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