Votação de Russomanno elege deputado apoiado por ex-líder da Telexfree

Por iG São Paulo - | - Atualizada às

compartilhe

Tamanho do texto

Empresa é acusada de fraude milionária contra consumidores; divulgador premiado com R$ 3 mi pede voto para Fausto Pinato

Reprodução/Facebook - 9.10.14
Ex-líder da Telexfree, Misael Martins (esquerda) pede votos para Fausto Pinato (PRB-SP)

Um dos deputados federais puxados para a Câmara pela votação expressiva do defensor dos consumidores Celso Russomano (PRB-SP) é apoiado por um ex-líder da Telexfree, empresa acusada de fraudar as relações de consumo para criar uma pirâmide financeira e prejudicar mais de 1 milhão de pessoas no País.

Como Russomanno teve mais votos que os 300 mil necessários para conquistar uma vaga por São Paulo (ele conseguiu 1,5 milhão), transferiu parte dos votos sobrantes para Fausto Pinato, um advogado do interior paulista que teve 22,1 mil votos.

Pinato é apoiado por Misael Martins, que em dezembro de 2012 recebeu cheque simbólico no valor de R$ 2,9 milhões da Telexfree por ser um de seus mais destacados divulgadores - como são chamados os que atraíam mais gente para o negócio.

Em abril deste ano, a Telexfree foi multada em R$ 5,6 milhões pela Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) por ofender "princípios básicos do Código de Defesa do Consumidor" e pela "lesão causada a milhares de consumidores em todo o País".

1º lugar: com 1.524.361, Celso Russomanno (PRB) vai para o seu quinto mandato de deputado federal. Foto: Divulgação2º lugar: com 1.016.796 votos, Tiririca (PR) vai para o seu segundo mandato de deputado federal. Foto: Reprodução3º lugar: com 398.087 votos,  Marco Feliciano (PSC) vai para o seu segundo mandato de  deputado federal. Foto: iG Brasília4º colocado: com 352.708 votos, Bruno Covas (PSDB) vai para seu primeiro mandato como deputado federal. Foto: Divilgação5º lugar: com 336.15 votos, Rodrigo Garcia (DEM) vai para o seu segundo mandato como deputado federal. Foto: Divulgação/Rodrigo Garcia

Eleito diz querer regulamentar marketing multinível

Segundo promotores de Justiça do Brasil e dos Estados Unidos, a Telexfree é uma pirâmide financeira disfarçada de marketing multinível - um sistema de varejo legal em que distribuidores autônomos são premiados pelas vendas de outros distribuidores que levam para a rede.

Assim, em vez de lucrar com a venda de pacotes VoIP, a empresa dependia das taxas de adesão pagas por esses divulgadores, em um modelo clássico de pirâmide.

Em junho de 2013, as contas da empresa no Brasil foram bloqueadas - nos EUA isso ocorreu em abril deste ano. O congelamento levou os líderes da Telexfree, como Misael Martins, a buscar novos negócios.

Reprodução
Martins recebe cheque milionário da Telexfree

Martins, agora, apresenta-se como presidente da One Thor, que também praticaria o marketing multinível. Como o iG mostrou, a empresa tem sede em Hong Kong e, para atrair revendedores, promete prêmios de até US$ 1,2 milhão (R$ 2,9 milhões) em 12 meses  de trabalho.

"Hoje estou aqui com Fausto Pinato, uma pessoa que está lutando junto com a gente para que nós possamos ter realmente o marketing legal dentro do Brasil. Uma regulamentação para que essa legislação realmente seja cumprida para todos os marketings", diz Martins em um vídeo publicado na página do candidato no Facebook em setembro.

Em seu site, Pinato se diz membro da "família One Thor", considerada por ele um exemplo de empresa séria.

Ao iG, o deputado eleito disse que não tinha conhecimento da relação de Martins com a Telexfree, e que não defende a empresa, mas que busca uma regulamentação específica para o marketing multinível.

"Não confunda eu estar defendendo o marketing multinível com eu estar defendendo pessoas que deram estelionato no mercado. Agora, o Misael, não sei do passado dele. A One Thor vem entregando os produtos, não vem dando calote", argumenta.

A legislação atual permite a prática de marketing multinível. O bloqueio da Telexfre e de outras empresas acusadas de serem pirâmides financeiras, entretanto, gerou um movimento em favor de uma regulamentação específica. O parlamentar que liderou o movimento é Acelino Freitas, o Popó (PRB-BA), que também fez propaganda junto com outro ex-líder da Telexfree.

Pinato nega ter recebido dinheiro da One Thor ou de outras empresas assemelhadas.

"Renunciei qualquer apoio financeiro porque sabia que ia dar esse tipo de problema. Estou defendendo o meio e o fim [da cadeia do marketing multinível]. Não estou defendendo a cabeça."

A One Thor e Misael Martins não responderam aos contatos da reportagem. Em abril, a empresa informou ser totalmente diferente da Telexfree porque "tem produtos físicos, que são entregues ao consumidor no momento da entrada deste em nossa rede de consumo."

Associação que homenageou líder da Telexfree também dá aval

Reprodução/Facebook - 10.10.14
Regino (à direita) segura logotipo da Arommn com Carlos Costa, diretor da Telexfree

O deputado eleito pela votação expressiva de Russomanno também recebeu apoio da Associação Reguladora das Operadoras de Marketing Multinível (Arommn). Quando a entidade foi lançada, em maio, os responsáveis chamaram Sanderley Rodrigues - considerado pela Telexfree como seu líder mundial - para integrar o conselho.

Na mesma ocasião, o presidente da entidade, Regino Barros, propôs uma homenagem a Rodrigues, que já foi condenado por envolvimento com pirâmide financeira nos EUA e também é investigado no caso Telexfree. O evento aconteceria no Senado, mas foi cancelado.

Leia também: 'Hoje eu sou uma vítima da Telexfree', diz maior divulgador do negócio

Barros nega que Rodrigues tenha sido convidado para o conselho da Arommn e diz que a homenagem foi em razão de ele ter dado atenção às pessoas que atraiu para a Telexfree após o bloqueio da empresa.

"Não, em hipótese alguma, não posso ser leviano e, objetivando regulamentar o setor,  dizer que as atividades [da Telexfree] foram legais, porque não foram. Não vamos contrariar autoridades, o Ministério Público", diz Barros. "[A homenagem a Sanderley Rodrigues] não foi ao promotor do produto Telexfree. Foi à atitude empreendedora de não deixar que as pessoas que confiaram naquilo que ele promoveu pudessem eventualmente deixar de ser respondida, porque o mercado estava muito nebuloso e ninguém aparecida para dar posição a milhares de pessoas."

Pinato diz que esteve com Barros para conhecer a Arommn.

"Mas eu tenho minha ideia formada. Vamos enrijecer [a legislação]? Vamos, para ficar o bom empresário."

A assessoria de Russomanno foi procurada, mas não se manifestou até a conclusão desta reportagem.

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas