Eleitores lotam bares para assistir aos debates

Por Luciana Lima - iG Brasília |

compartilhe

Tamanho do texto

Com direito a aplausos, vaias, discussão e resmungos, frequentadores lotam bares para torcer por seus candidatos

Nem só de futebol sobrevivem os botecos em tempos de eleições. Os debates têm lotado os bares considerados pontos das torcidas de futebol. Três meses depois da Copa do Mundo, os torcedores deram lugar a militância dos partidos ou mesmo àqueles que não tem filiação alguma, mas estão envolvidos na disputa eleitoral ao ponto de trazer o assunto para a mesa do bar.

“É a primeira eleição que vejo isso ocorrer. Há algum tempo atrás isso não existia”, diz o funcionário público Adalberto Carvalho (42), que saiu do trabalho com dois colegas direto para o bar, com o objetivo de assistir ao debate.

Debate atraiu eleitores para bar em Brasília . Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaAdalberto Carvalho, funcionário público de 42 anos, assista ao debate. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaAdalberto Carvalho observa postura dos candidatos em debate. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaO garçom José Ronaldo dos Santos, de 43 anos, não abre seu voto. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaA professora universitária Ana Santa Cruz, de 64 anos, torce e vota em Dilma. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaA professora universitária protesta: "aqui não tem petralha". Foto: Alan Sampaio / iG Brasília


“Acho que é um comportamento que favorece o crescimento da Democracia”, teoriza. “Com o tempo, as pessoas vão incorporando cada vez mais a política em suas vidas”, disse Adalberto, que se declara eleitor da presidente Dilma Rousseff.

Entre uma cerveja ou um petisco, alternam-se momentos de silêncio para ouvir minimamente as argumentações de cada um e de euforia após cada ataque bem encaixado dos candidatos.

Em debate, Aécio ataca Petrobras e mensalão e Dilma cita Cláudio e nepotismo

Ainda no início do debate, enquanto o enfrentamento ainda se esboçava, um garçom decretou: “Ela não fez nada no governo dela”. Eleitor não declarado de Aécio, o garçom ainda provocava quando o tucano fazia suas perguntas. “Olha a cara dela! Olha a cara dela!”.

Quando Dilma perguntou sobre as leis de trânsito, em referência ao episódio no qual seu adversário, Aécio Neves, teria se recusado a soprar o bafômetro, a torcida petista vibrou como um gol.

Em outra mesa, bem no centro do bar, um arsenal de adesivos de Dilma disputava lugar com as garrafas. A cada intervalo, as militantes se revezavam distribuindo os adesivos, de forma simpática.

Na mesa do bar, o comportamento da imprensa é milimétricamente julgado. “A imprensa tem que cobrir as campanhas e não fazer campanha”, criticou Adalberto.

PT vai usar crise da água em São Paulo na disputa presidencial

A professora de sociologia Ana Santa Cruz (64) aproveitou o clima para uma catarse política. “Vim aqui para torcer pela Dilma e para mostrar que quem está aqui não é uma ‘petralha’, mas sim uma trabalhadora”, disse a professora, que é uma das fundadoras do PT e que estava com a família no bar. “Só vivo do meu salário, nem um tostão a mais”, disse.

Na mesa ao lado, mesmo após o final do debate, um eleitor de Aécio rebate. “Isso está acontecendo dentro do partido dela e ela não sabe?”, questionou, referindo-se aos esquemas de corrupção envolvendo a Petrobras.

“Esse é o meu motivo de não votar na Dilma”, justificava um eleitor para as pessoas que compartilhavam com ele a cerveja.

Enquanto saboreava uma picanha, o eleitor tucano reclamava aos amigos. “Sabe quem é o filho do Lula? Sabe quem é o filho do Lula? É o dono da Friboi”, argumentou.

Noutra mesa, mais afastada das televisões, amigos antigos de trabalho tentavam ficar alheios à política, esforço que acabou não dando muito certo. “Viemos para beber cerveja, falar de pescaria e mal da Dilma”, disse o engenheiro florestal aposentado, Manoel Olímpio Vasconcelos (69).

Seu colega, Geoge Simon, se arrisca na análise sobre a situação econômica do país e justifica que, na eleição passada, votou na presidente. “Meus amigos empresários, naquela época, diziam que a coisa estava boa, mas não é mais assim. Outro amigo empresário me disse que tem 600 empregados e precisa demitir 300, mas até para demitir sai muito caro”, analisou, apresentando seus motivos para não votar em Dilma.

Um deles ainda ataca: “Além desta corrupção toda, a presidente é uma mulher arrogante, se expressa mal. Aliás, nem a vejo como uma mulher”, diz um dos amigos.

Imediatamente é alertado pelo colega: "Não fala assim não. Isso é homofobia”.

Outro eleitor tucano da mesa, o administrador Luiz Balduino Gonçalves (34), se disse descrente das pesquisas. “Um debate desses não tem muito efeito de mudar o voto, só dos indecisos. No entanto, eu não acredito que eles estão praticamente empatados. Aécio deve estar com sete a 10 pontos de frente”.

Único petista da mesa, o engenheiro florestal José Nilmar Francelino, mantinha a amizade e o humor. “Assim eu vou me sentir discriminado”, disse Francelino, que defendeu voltar para o assunto da pescaria.

Independentemente de sua opção política, a caixa do bar, localizado na Asa Norte, em Brasília, comemorou: “Não se compara à Copa do Mundo, mas os debates tem feito o bar lotar em dias que são tradicionalmente fracos”, disse Fabiana Pires (37).

Leia tudo sobre: Eleições 2014DebateDilma RousseffAécio NevesbaresiG Brasília

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas