'Queremos gente linda': o novo (e triste) meme das eleições 2014

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Eleitores de Aécio Neves citam beleza de Letícia Weber como justificativa de voto. "Chega de feiura no poder!", diz meme

As eleições dominaram as redes sociais e os chamados memes, que ganharam fama pelas inteligentes sátiras com o dia a dia e trejeitos dos candidatos, viraram plataformas para o discurso do ódio no entorno da disputa presidencial. A última e triste campanha de milhares na internet defende o voto por "gente linda no poder", usando o casal Aécio Neves, candidato do PSDB, e a possível primeira-dama e ex-modelo Letícia Weber como acessório de beleza ao Palácio do Planalto.

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"Chega de feiura! Queremos gente linda no Planalto", defende a postagem de Handel Araujo, que exibe em seu perfil do Facebook centenas de memes do tipo. Publicada no dia 3 de outubro, dois dias antes do primeiro turno das eleições, o post recebeu 3.327 compartilhamentos e ganhou aplausos de outros eleitores, que comemoravam "uma primeira-dama à altura do Brasil". A postagem atacava diretamente as duas rivais do tucano nas urnas, Dilma Rousseff (PT) e Marina Silva (PSB), que não estariam no mesmo padrão de beleza de Letícia, defendem os internautas.

Meme 'Chega de feiura' teve mais de 3 mil compartilhamentos no Facebook. Foto: ReproduçãoPostagens perguntavam qual primeira-dama seria ideal para o País, questionando a sexualidade de Dilma, que aparece ao lado de Graça Foster. Foto: ReproduçãoPara milhares de eleitores a beleza de Letícia Weber, mulher de Aécio Neves, justificaria voto em tucano. Foto: ReproduçãoPostagens perguntavam qual primeira-dama seria ideal para o País, questionando a sexualidade de Dilma, que aparece ao lado da ex-ministra Eurenice Guerra. Foto: ReproduçãoPostagens perguntavam qual primeira-dama seria ideal para o País, questionando a sexualidade de Dilma, que aparece ao lado da ex-ministra Eurenice Guerra. Foto: ReproduçãoA justificativa de 'voto em quem transa' também aparece em diversas publicações nas redes sociais. Foto: ReproduçãoA justificativa de 'voto em quem transa' também aparece em diversas publicações nas redes sociais. Foto: ReproduçãoA justificativa de 'voto em quem transa' também aparece em diversas publicações nas redes sociais. Foto: ReproduçãoA justificativa de 'voto em quem transa' também aparece em diversas publicações nas redes sociais. Foto: ReproduçãoPostagens perguntavam qual primeira-dama seria ideal para o País, questionando a sexualidade de Dilma, que aparece ao lado da ex-ministra Eurenice Guerra. Foto: ReproduçãoA justificativa de 'voto em quem transa' também aparece em diversas publicações nas redes sociais. Foto: ReproduçãoHistórico amoroso de Aécio Neves virou 'orgulho nacional', defende internauta; político já namorou atrizes globais e modelos. Foto: Reprodução

Os cabelos loiros e olhos azuis da gaúcha Letícia estampam a maioria dos protestos na redes, muitas vezes com tom machista e homofóbico, provocando uma comparação estética com Dilma e até questionando a sexualidade da atual presidente, que segue na disputa pela sua reeleição neste segundo turno. "Este casal me representa, este casal não" mostra uma montagem com Aécio e Letícia à esquerda em oposição a uma foto antiga de Dilma e Eurenice Guerra, que trabalharam juntas como ministras do governo Lula.

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Em outras situações, eleitores exaltam ainda o lado "conquistador" de Aécio, chamado de "herói nacional" pelo seu histórico de relacionamentos amorosos com belas mulheres da televisão brasileira, como a atriz Ana Paula Arósio, a modelo Gisele Bündchen e a ex-miss Brasil Natália Guimarães. "Se a nossa presidente é feia que dá até pena, o provável rival dela nas eleições deste ano já passou o rodo em dez beldades de dar inveja até em artistas globais", defende o usuário como argumento de voto. Muitos encerram suas discussões nas redes apostando em eleger o candidato que teria uma vida sexual ativa, pois "quem transa governa melhor".

Reprodução
Letícia Weber é citada nas redes como uma perfeita primeira-dama apenas por ser bonita

A intolerância nas redes

As eleições 2014 ficaram marcadas pelas participações das redes sociais, que muitas vezes chocaram pelo seu conteúdo de ódio, provocando até possíveis processos na Justiça contra crime de xenofobia e racismo. É o caso da onda de manifestações contra nordestinos e eleitores do PT, classificados como "pobres menos informados" pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso logo após os resultados do primeiro turno, que definiu a disputa pela Presidência entre Aécio e Dilma.

O comentário aumentou a disputa partidária dentro do País, criou um cenário "nós contra eles" e incentivou o ódio ao PT, gerando um surto de mensagens preconceituosas contra nordestinos, nortistas, negros e beneficiários dos programas sociais do governo federal. Uma das manifestações mais polêmicas foi a comunidade “Dignidade Médica”, hospedada no Facebook, que pregou um “holocausto contra nordestinos”. O grupo foi revelado pelo iG e reúne quase 100 mil usuários que se declaram da classe médica brasileira.

Entenda: Ministério Público abre frente para combater preconceito contra nordestinos

PGR teve 85 denúncias de preconceito contra nordestinos após eleição do 1º turno

Na mesma semana, a Procuradoria Geral da República (PGR) abriu uma frente de investigação e recebeu 85 denúncias de atos de preconceito contra nordestinos pela internet. As acusações são analisadas pela Procuradoria da República do Distrito Federal (PRDF), que pode instaurar um procedimento investigatório. Autores de posts discriminatórios estão passíveis de responder pelo crime de racismo. O delito é previsto no art. 20 da Lei 7.716/89 e pode render a pena de dois a cinco anos, mais multa. Além do racismo, internautas podem ser autuados em crimes de incitação pública à prática de ato criminoso, com pena de prisão de 3 a 6 meses, mais multa.

“Preconceito está entranhado na sociedade”

Em entrevista ao iG, a psicóloga Luciana Ruffo, especialista do Núcleo de Pesquisas e Psicologia em Informática da PUC-SP, avaliou o comportamento do brasileiro nas redes sociais após os ataques aos nordestinos. Para ela, a interação online encoraja e valida opiniões como uma espécie de palanque na internet. A fantasia do anonimato, a desinformação de que poderá responder criminalmente pelo conteúdo com o rastreio do IP (endereço eletrônico) e a certeza de impunidade estimulam o compartilhamento de opiniões preconceituosas e racistas. “As pessoas se sentem mais corajosas para falar grandes absurdos”, disse na ocasião.

Luciana aponta ainda que os preconceitos diários estão longe de ser exclusivos das redes sociais ou mesmo do período eleitoral. “Comentários preconceituosos ocorrem diariamente, é algo entranhado na sociedade e acontece em grupos de pessoas que compartilham a mesma ideia. Mas quando cai na web, outros tomam consciência e gera uma repercussão enorme”, analisa a psicóloga, que classifica as denúncias como consequência positiva da convivência entre diferentes classes sociais.

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