Líderes políticos em Hortolândia, Ângelo e Ana Perugini ajudaram o PT a vencer na cidade na eleição estadual e federal

Geraldo Alckmin (PSDB) poderia sair dessa eleição como unanimidade no Estado de São Paulo, se não fosse uma pequena fortaleza petista no interior. O governador reeleito foi o vencedor em 644 cidades paulistas, não conseguindo conquistar apenas Hortolândia, município de 212 mil habitantes, situado a 109 km da capital, na região metropolitana de Campinas.

Alexandre Padilha, candidato petista ao governo do Estado, obteve 39% votos, contra 35% do governador na cidade. Cenário bem diferente consolidado geral da eleição no Estado, no qual o tucano foi eleito com 57% dos votos, contra 18% de Padilha, que ficou em terceiro, abaixo de Paulo Skaf (PMDB), que teve 22% dos votos.

Na corrida para o Senado, o candidato petista derrotado na busca pela reeleição, Eduardo Suplicy, também fez maioria dos votos em Hortolândia. Quem ficou com a vaga foi o tucano José Serra. Da mesma forma, a disputa presidencial foi vencida no município pela presidente Dilma Rousseff (PT), que perdeu o pleito no Estado.

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Ângelo Perugini, ex-prefeito, e Ana Perugini, deputada federal eleita, atrapalharam a possibilidade de Geraldo Alckmin (PSDB) vencer em todos os municípios de São Paulo
Divulgação/Alesp
Ângelo Perugini, ex-prefeito, e Ana Perugini, deputada federal eleita, atrapalharam a possibilidade de Geraldo Alckmin (PSDB) vencer em todos os municípios de São Paulo


Os motivos para essa muralha vermelha que impediu o acesso total do governador têm nome e sobrenome: Ângelo e Ana Perugini. Ele foi prefeito por dois mandatos, entre 2005 e 2012, e fez de Antônio Meira, seu sucessor. Já Ana fez sua carreira política em cargos no legislativo, sendo eleita vereadora da cidade também em 2005 e dois anos depois sendo eleita para assembleia estadual, de onde se despede no final do ano após dois mandatos. Nestas eleições, ela foi eleita deputada federal, com 121.681, sendo que 48.555 (50,2%) foram recebidos somente em Hortolândia.

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Fora da prefeitura desde 2012, Perugini (59 anos), que é professor de português e inglês da rede municipal, também se candidatou neste ano à vaga que será deixada pela sua mulher na Assembleia Legislativa. A Justiça eleitoral, no entanto, rejeitou as contas do ex-prefeito e barrou sua candidatura. O candidato recorreu da decisão. Segundo sua assessoria de imprensa, Perugini recebeu 94.174 votos.

Segundo Wagner Melo Romão, professor de Ciência Política da Unicamp, o que aconteceu em Hortolândia foi um movimento inverso ao comum em que candidatos mais conhecidos, concorrentes a cargos majoritários, transferem votos aos candidatos legislativos.

“O debate presidencial é o que mobiliza mais, é por ali que o eleitor acaba se situando. Em Hortolândia foi diferente. Ela [Ana Perugini] teve uma votação muito expressiva. Eles são um fenômeno na cidade. Tem uma relação evidente de uma cidade que podem ter impulsionado o Padilha, que é relativamente desconhecido, mesmo após a campanha”, analisa Romão.

Afinados, o casal credita a vitória petista ao crescimento da cidade, favorecido pelos sucessivos governos petistas e investimento do governo federal.

“Sempre fizemos uma boa gestão. Fizemos uma revolução com a ajuda do governo federal, principalmente na saúde. Em 10 anos, foram criadas 17 unidades de saúde. Até a gente assumir tinha três, agora são 20. Era a cidade mais violenta do Estado, não tinha asfalto. Nós mudamos isso”, enumera o ex-prefeito.

“Mudou tudo. A cidade cresceu muito. Tínhamos poças até nas calçadas. Conquistamos esgotos, novas empresas e, acima de tudo, conquistamos o respeito da população”, completa Ana, que tem 51 anos.

Geraldo Alckmin venceu em 644 cidades paulistas, perdendo apenas em Hortolândia
Divulgação/PSDB
Geraldo Alckmin venceu em 644 cidades paulistas, perdendo apenas em Hortolândia


Casamento

Casados desde 1988, o casal se conheceu na igreja, sete anos antes, enquanto Perugini, ex-seminarista, tocava violão e auxiliava o padre de uma paróquia da região.

Natural de Jacutinga, em Minas Gerais, Perugini diz que antes de ser ordenado como padre, fisgado pela teologia da libertação - corrente da Igreja Católica que prega libertação de injustas condições econômicas, políticas ou sociais - pediu autorização para uma viagem de dois anos ao interior do Ceará, onde ajudou a fundar sindicatos e catequizar moradores.

“Sai do conforto de um seminário e me confrontei com a miséria do Nordeste. Decidi que não seria mais padre. Mas sempre respeitei os preceitos da Igreja. Com 26 anos, nunca tinha segurando na mão de uma mulher. Quando vim para Hortolândia, me permiti paquerar uma mulher”, conta Perugini.

Juntos, foram militantes do movimento Sem-Teto e ajudaram a fundar acampamentos pelo interior do Estado. Ele chegou a ser vereador de Sumaré, antes da fundação de Hortolândia.

“A minha militância política começou nas Cebs [Comunidades Eclesiais de Base]. A militância partidária veio depois. Eu era catequista e tínhamos uma organização popular muito forte contra a falta de água. Na década de 80, houve também um êxodo rural muito grande e eu ingressei no Movimento do Sem Terra. Me tornei advogada por conta dessa luta pela terra”, relata Ana.

Os dois tiveram duas filhas naturais, de 25 e 15 anos, e uma adotada, que tem 7 anos. A mais velha já começou a militância política, contrariando as pretensões do pai. “Fiz de tudo para que minha mais velha não entrasse para política. Ela foi vice e presidente do PT de Hortolândia. Está muito envolvida”, diz Ângelo. 

Conquista da prefeitura

Perugini foi o terceiro prefeito da história de Hortolândia. Recém-saída da “adolescência”, a cidade tem apenas 23 anos. Até 1991, era um distrito de Sumaré. O primeiro prefeito da cidade, Antônio Dias Gonçalves, era do PMDB. Antes de ser eleito, Perugini concorreu duas vezes a prefeitura e chegou a ser vice em uma chapa vencedora com o PSDB, em 1996, mas saiu do governo um ano depois de eleito. Hoje, ele alega não concordar com a forma de governar do tucano reeleito.

Perugini conquistou a prefeitura em 2004. “Eu fui eleito quando o Lula era presidente (2002-2010). Nós conseguimos construir casas com a ajuda do governo federal, acabamos com as favelas. Se fosse com FHC, não conseguiríamos fazer tanta coisa”, argumenta. Segundo o político, a parceria com o governo federal petista foi frutífera e rendeu melhor qualidade de vida aos moradores da cidade.

“Nos meus oito anos, o governo federal investiu entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões, o governo de Geraldo Alckmin vai terminar uma obra começada pelo Serra muito importante para a cidade: o corredor metropolitano, com investimento de 120 milhões e mais uns R$ 100 para terminar”, compara.

O que diz a oposição

A oposição, no entanto, diz que os investimentos do governo estadual são maiores. “Nos últimos dois anos, o governo estadual investiu e vai investir R$ 390 milhões em mobilidade urbana. Tem participação de R$ 16 milhões no projeto Casa Paulista. Nós não temos problemas de falta de água e só no ano passado, 13 mil residências receberam ligação de esgoto”, contrapõe o vereador Ananias José Barbosa, líder do PSDB na Câmara.

Enquanto, os Peruginis dizem que a vida do hortolandense melhorou com as seguidas vitórias petistas, justificando a expressiva votação do partido no município, Barbosa aponta o perfil sócio-econônimo com “características da população do Nordeste”.

“O eleitor não é partidário, é dependente dos programas sociais que chegam para ele. A cidade é predominantemente pobre e tem cerca de 8.000 mil famílias cadastradas no Bolsa-Família. Isso é uma tendência na hora de trazer o voto”, defende Barbosa.

Infográfico: Conheça o mapa eleitoral brasileiro

De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Social, são 7.427 famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família, ou seja, 11,78 % da população do município. Em 2013, foram repassados R$ 13 milhões para os beneficiários da cidade. No Estado de São Paulo, são 1.266.081 famílias beneficiárias – cerca de 9,75% da população.

Outro fator apontado por Perugini para a melhora de vida da população é a instalação de industrias como IBM, Dell, Comsat (serviços em telecomunicações), entre outras, com insenções fiscais. Graças a elas, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a renda per capita (por habitante) passou de R$ 576,16 em 2000 para R$ 1.156,53 em 2010, e o PIB do município também passou de R$ 1,12 bilhão em 1999 para R$ 6,7 bilhões em 2011.

Além das empresas, o município também tem em seu território o complexo penitenciário – apontado por Ana Perugini com um dos entraves para a diminuição da criminalidade no município. Em 2013, a cidade tinha 16,69 homicídios para cada 100 mil habitantes. Na vizinha Campinas, que tem mais de um milhão de habitantes, a taxa é de 12,23 assassinatos para cada 100 mil habitantes.

“São seis unidades, que têm 10.431 pessoas . Um dos problemas graves é que não há diálogo com prefeito, com a população e com vereadores para instalação do presídio. A Polícia Militar tem que fazer o deslocamento de presos e deixa de fazer o policiamento ostensivo. A cidade fica a mercê”, reclama Ana, autora de um projeto que pede compensações financeiras para cidades onde há unidades prisionais.

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