Eleitores em Santa Catarina ilustram tradição de 'voto do contra'

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"A gente se sente bem insatisfeito, e agora é importante que entre o Aécio, que haja essa mudança", diz agricultor

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Em 2002 ele votou em Lula, agora espera a vitória de Aécio Neves (PSDB). "O primeiro governo dele (Lula) até que não foi tão ruim, mas o da Dilma foi muito ruim para nós, do campo", diz o agricultor Eugenio Felippi, de Benedito Novo (SC), o município de pouco mais de 11 mil habitantes com a maior proporção de votos do país (77,27%) no candidato tucano no primeiro turno.

Para Felippi, que planta arroz, milho e também vende leite para companhias alimentícias, o motivo principal para a escolha no candidato do PT naquela época e para optar pelo PSDB agora é parecido: um desejo de mudança.

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"A gente se sente bem insatisfeito, e agora é importante que entre o Aécio, que haja essa mudança", diz ele.

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Eugenio Felippi fala em 'desencanto' com governo do PT


Voto catarinense

O histórico de voto do pequeno agricultor ilustra o comportamento do eleitor catarinense nas eleições presidenciais dos últimos anos.

Em 1994, Santa Catarina registrou o segundo menor percentual de votos para Fernando Henrique Cardoso (PSDB), eleito no primeiro turno. Com 33,20% dos votos, FHC só teve votação menor no Rio Grande do Sul, onde obteve 29,57% dos votos. Espiridião Amin (PPR), veterano político catarinense, participava da disputa.

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Já em 2002, os catarinenses deram o maior percentual de votos para Lula (PT) no primeiro turno (56,60%), de todo o país, e um dos maiores no segundo turno (64,14%). Em 2006, a situação se inverte. Geraldo Alckmin (PSDB), ganha no Estado tanto no primeiro turno (com 58,61% dos votos), quanto no segundo turno (com 54,53% dos votos).

O encanto do eleitor catarinense, tradicionalmente conservador, com o PT na primeira eleição de Lula visivelmente se dissipa, e em 2010 a preferência pelo PSDB se repete, com 45,77% dos votos para José Serra (PSDB) no primeiro turno, e 56,61% no segundo turno.

Desencanto e mudança

Descendente de italianos, Eugenio Felippi tem três filhos, e ao longo dos anos pôde pagar o estudo de todos e construiu uma casa para um deles. "Agora, que estou velho, gostaria de reformar a minha casa também, mas não dá", conta.

Ao justificar seu voto, ele lista alguns dos motivos do "desencanto" atual com o PT no governo federal.

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"O preço das commodities está ruim, a gente não ganha quase nada. Os bancos nos facilitaram o crédito, é verdade, mas se já estão todos endividados, de que adianta? Mas o pior, sem dúvida nenhuma, foi o Código Florestal aprovado pela Dilma", indica.

O agricultor refere-se à Lei Federal No 12.651, de 25/5/2012, que no artigo 4o estabelece como Áreas de Preservação Permanentes (APAs) os 30 metros de cada lado dos cursos d’água de menos de dez metros de largura. Para ele, a determinação torna impossível o cultivo.

"Não faz diferença, dez metros ou 30 metros. Eu tenho 20% da minha propriedade como área de preservação, cumpro todas as regras, e mesmo assim fui tratado como criminoso, como agressor ambiental, quando oficiais do Ibama e PMs bateram na minha porta. Isso não é justo, não é correto. Nunca achei que fosse passar por algo assim", conta.

Outro lado

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Reinaldo Odorizzi afirma que cultura local é mais conservadora e cita 'ingratidão' dos eleitores

Mas nem todos os pequenos agricultores de Benedito Novo pensam assim. Apesar da esmagadora vitória de Aécio na pequena comunidade, Dilma ganhou 1.081 votos – um deles do produtor Reinaldo Odorizzi, de 62 anos.

Militante do PT há anos, ele diz que é preciso concordar que os preços das commodities estão realmente desfavoráveis, mas classifica como "ingratidão", os argumentos contrários ao governo Dilma.

"Benedito Novo é um dos municípios mais ingratos do Brasil. O governo Dilma nos mandou uma patrola, retro-escavadeira, caçamba, houve repasses para um posto de saúde, incentivos agrícolas, juros menores. Antigamente você comprava um trator pagava três, hoje não, os financiamentos melhoraram", explica.

Ele também diz que não houve muita verba para campanha.

"É verdade que o diretório estadual não teve muito interesse de fazer campanha aqui. Por isso você não vê muitas placas", diz.

Conservadorismo e mudancismo

Odorizzi diz que o eleitorado local é tradicionalmente conservador, e que não descartaria a influência de preconceitos quanto ao Nordeste e até quanto ao fato de Dilma ser mulher.

"Estamos no Vale Europeu, não se esqueça. A cultura local aqui é bem mais conservadora. Muitos acham que os nordestinos não trabalham, e rejeitam Dilma pelos programas sociais que têm foco naquela região. Além disso, não descarto o fato de não votarem nela por machismo", explica.

Questionado sobre o assunto, Eugenio Filippi nega preconceito. "Eu não sou contra o Bolsa Família nem o Bolsa Escola, claro que não. É seco lá, imagina viver daquela maneira. Eles precisam comer, precisam sobreviver", diz.

Ele acrescenta que grande parte do arroz produzido na região é vendido justamente para os Estados da região Nordeste, e que, indiretamente, os programas sociais beneficiam os agricultores do Sul, já que dão poder de compra aos nordestinos que consomem as commodities enviadas por eles.

Para Jean Castro, doutor em Ciências Políticas pela USP e professor da UFSC há três anos, o catarinense é tradicionalmente conservador, mas é impossível generalizar.

"Até que ponto o eleitor de Santa Catarina é mais ou menos conservador do que o de Alagoas ou de São Paulo? O que fica muito claro e que é possível dizer com certeza, é que há esse perfil mudancista no eleitorado, tanto que os dois candidatos querem se associar à esta ideia", diz.

Ele relembra que o Oeste de Santa Catarina é tradicionalmente petista, com fortes grupos de sindicalistas e presença do MST (Movimento dos Sem Terra), mas que nas regiões Norte, Sul e no litoral o PMDB e o PP tendem a ser as forças tradicionais, mais à direita do espectro político.

"Há uma tendência entre os analistas e cientistas políticos de ligar o comportamento do eleitor necessariamente a um perfil mais ou menos conservador, mas é preciso identificar que há períodos em que, independentemente do perfil ideológico, o eleitorado se deixa levar pela ideia de mudança do poder, de retirar quem está na situação, a qualquer custo", avalia.

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