O tucano defende a paternidade da estabilidade econômica e o petista propaga os programas sociais nascidos em seu governo

Arrastado para o olho do furacão da campanha depois de ficar praticamente no ostracismo durante três eleições, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso travará, neste segundo turno, uma disputa paralela com o também ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Será uma guerra para eleger seus afilhados, mas também por legados.

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O tucano, na defesa da paternidade da estabilidade econômica posta em curso há duas décadas – e que seu candidato a presidência pelo PSDB, o senador Aécio Neves, está usando para alavancar sua proposta de crescimento –, e o petista pelos programas sociais cuja continuidade integra o programa de governo de sua afilhada, a presidente Dilma Rousseff.

Lula coloca chapéu em Dilma durante comício no Recife (4/9)
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Lula coloca chapéu em Dilma durante comício no Recife (4/9)

Lula e FHC, pela natureza de ambos, terão papéis diferentes. O petista desenvolve uma campanha paralela e, desde que deixou o governo, em 2011, depois de eleger sua sucessora, dá a impressão de que nunca desceu do palanque. Lula não é apenas a iminência parda do governo ou o conselheiro de todas as horas: como principal cabo eleitoral de Dilma, é ele quem dá todas as ordens, fiscaliza e distribui cobranças, como fez esta semana ao dar um pito em público no presidente estadual do PT, Emídio de Souza.

“Quem e onde procurar o material de campanha? Tem que ter um local central”, disse Lula, interrompendo a leitura da programação de atividades que Emídio lia, num microfone, para informar a militância sobre a programação da campanha de Dilma em São Paulo. “É por isso que ele é presidente, né?”, resignou-se o presidente petista.

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Lula não conseguiu eleger o ex-ministro Alexandre Padilha em São Paulo – o terceiro “poste” que tentou, sem sucesso, iluminar –, mas até os adversários reconhecem que o empenho e o apetite com que sobe em palanques e usa o gogó do “animal político” faz a diferença. No primeiro turno, o assédio por imagens e gravações a favor de correligionários foi tão intenso que ele acabou baixando a guarda justamente no maior colégio eleitoral do País, berço do PT e do sindicalismo do qual ainda é o líder de honra.

Duas propostas

Padilha tem o apoio de Lula em caminhada em São Bernardo do Campo, em são Paulo, na véspera da eleição (4/10)
Ricardo Stuckert/Instituto Lula
Padilha tem o apoio de Lula em caminhada em São Bernardo do Campo, em são Paulo, na véspera da eleição (4/10)

“Há algo errado quando, no Estado mais operário do país, um presidente da Fiesp (Paulo Skaf, presidente licenciado da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, candidato derrotado do PMDB) tem mais votos que o candidato do PT. Há erros no nosso discurso. Estamos em falta com o Padilha”, reconheceu, no discurso à militância, na última quinta-feira, na quadra do Sindicato dos Bancários, região central da capital, ao lado do candidato derrotado e das principais lideranças paulistas do PT.

A abordagem sincera, sem expressões rebuscadas, é o jeito direto de Lula se comunicar. O sotaque nordestino, a voz rouca – que as vezes quase some – empolga a militância petista. No primeiro ato do segundo turno, foi ele quem chamou FHC para a briga ao afirmar, sob o aplauso de um ginásio lotado que, mais que a disputa entre Dilma e Aécio, o segundo turno “será a campanha entre duas propostas de país e de sociedade”.

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Chamando FHC de sociólogo, disse que a eleição do pupilo do tucano seria um retrocesso, a volta do Fundo Monetário Internacional (FMI) ditando as regras da economia, do desemprego e do preconceito. Num claro estímulo à luta de classes, Lula disse que o governo de seu antecessor não cuidou dos pobres e nem gerou oportunidades aos jovens porque isso faz parte da cultura da era Fernando Henrique Cardoso, a quem, para diferenciar-se, tratou como um filósofo que não se preocupou com os pobres e acha que quem votou no PT “é burro”.

Juntos e misturados

“Nós não estudamos filosofia. Estudamos a alma do nosso povo. Eles é que gostam de filosofar”, cutucou, como se no PT não existisse intelectual. Uma das mais respeitadas filósofas do país, Marilena Chauí é uma das figuras mais ouvidas por Lula. Seu discurso tem apenas o objetivo de alfinetar FHC e marcar a diferença na linha da luta de classes que o ex-presidente transformou em fio condutor de sua retórica. O fato, no entanto, é que na boca de Lula empolga multidões.

Entre amigos, ex-presidente FHC é conhecido como 'príncipe dos sociólogos'
Reprodução
Entre amigos, ex-presidente FHC é conhecido como 'príncipe dos sociólogos'

Lula e Fernando Henrique, para quem não lembra, já estiveram juntos na política e, por muito pouco, não partilharam da fundação do PT, no início dos anos de 1980. Quando ainda era operário metalúrgico, Lula andou com FHC a tiracolo de fábrica em fábrica na região do ABC para elegê-lo senador. Quando decidiu criar o PT – embalado pela fama como o líder que ajudou a desgastar o regime militar com a onda de greves –, Fernando Henrique se afastou. Afinal, como a história mostraria, o espaço no PT seria pequeno para os dois.

O operário e o sociólogo estiveram no mesmo palanque até o fim da ditadura. Mal as eleições diretas presidenciais foram restabelecidas e os dois estavam em campos opostos, mas só se enfrentariam nas urnas em meados dos anos de 1990. Montado no Plano Real, FHC deu duas surras em Lula, uma em 1994 e a outra, em 1998, em ambas vencendo no primeiro turno – feitos jamais repetidos em eleições presidenciais.

Intelectual de estofo, recatado, discreto, mas vaidoso até a medula, o “príncipe dos sociólogos – como gostam de chamar amigos e adversários –, Fernando Henrique é dono de um estilo oposto ao de Lula. Nunca se escala para participar de campanha, o que passou a impressão que nas eleições de 2002, quando Lula derrotou o senador eleito José Serra que, por uma questão de simbologia, preferia passar a faixa presidencial a um metalúrgico e não ao correligionário – provável razão de ter sido colocado “no banco” nas eleições seguintes.

Fim da invencibilidade

Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Convenção do PSDB
Futura Press
Aécio Neves e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso em Convenção do PSDB

Nas eleições de 2014, Aécio Neves retirou FHC do limbo e o transformou em um de seus principais conselheiros. A influência do ex-presidente pode ser vista no último debate do primeiro turno, na TV Globo, quando o candidato tucano aproveitou a abertura do programa e, ao vivo e em cores, pediu aplausos ao ex-presidente, mesmo sabendo que ouviria um pito do mediador, William Bonner.

Nos dias seguintes, após Aécio surpreender com a expressiva votação que o levou ao segundo turno, FHC voltou a campo para convencer Marina Silva e o PSB a aderirem a campanha tucana.

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“A relação pessoal e política dele com Marina é boa. Vem da época de dona Ruth na Comunidade Solidária. Que ele ajudou, ajudou”, diz Francisco Graziano, assessor do ex-presidente do Instituto FHC e que já foi secretário particular e ministro na gestão tucana.

Graziano diz que FHC só entrou na campanha de Aécio porque foi chamado a participar, mas mostrou a diferença ao assumir a articulação que levou os tucanos a sonhar com o retorno ao Palácio do Planalto depois de 12 anos. “O embate do primeiro turno foi entre o articulador discreto contra o garoto propaganda”, alfineta Graziano. “O Lula só sabe fazer política e comícios. FHC tem vida fora da política”, afirma.

Secretário Geral da Presidência no governo tucano, o economista Eduardo Jorge Caldas Pereira, presidente do PSDB do Distrito Federal, diz que no segundo turno FHC fará o que Aécio pedir, mas sem se expor como Lula por Dilma.

“Fernando Henrique é um negociador, formulador e grande conselheiro. Mas não se oferece. O Aécio vai usá-lo com sabedoria”, diz Eduardo Jorge. 

A abertura das urnas, daqui a duas semanas, é que mostrará qual dos titãs – o operário ou o sociólogo – sairá vitorioso na disputa presidencial que promete ser a mais acirrada da era democrática.


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