A velha briga entre PSDB e PT faz Dilma Rousseff e Aécio Neves resgatarem ideias e frases das eleições passadas no 2º turno

Após um primeiro turno no qual o discurso da terceira via foi derrotado nas urnas, a polarização entre PT e PSDB trouxe de volta à cena política velhos embates e velhas frases, recicladas pela presidente Dilma Rousseff , candidata do PT à reeleição, e pelo tucano Aécio Neves . Cada candidato resgata as sentenças do passado e confirma uma discussão política que já dura 20 anos.

O chamado “discurso do medo” retornou a estas eleições produzindo expressões como “fantasmas do passado”, usada por Dilma para acusar a gestão tucana de produzir inflação e juros altos, arrocho salarial e desemprego.

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“O povo brasileiro acaba de dizer que não quer os fantasmas do passado de volta, como a recessão, o arrocho, o desemprego, e que nós teremos novamente uma disputa com o PSDB que governou apenas para um terço da população abandonamos os que mais precisam”, disse Dilma, logo após o resultado do primeiro turno. Era o aviso para ministros e integrantes de sua campanha de que ela sabia que o adversário era um velho conhecido. Aécio rebateu com a expressão “monstros do presente”, referindo-se a incapacidade de gestão de Dilma e a corrupção.

Mas o discurso é tão antigo quanto a polarização entre os dois partidos. Em 2002, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já reclamava do “terrorismo” dos tucanos. “O que não pode é o governo ficar brincando de fazer terrorismo com a nossa economia, que é frágil”, vaticinou o então candidato Lula, ao falar sobre a crise do dólar.

Veja imagens de Dilma e Aécio na disputa pelo segundo turno:

Lula acabou vencendo Serra na eleição que ficou conhecida pelo slogan “a esperança venceu o medo”, recentemente editado pelo próprio petista para defender Dilma após a presidente ter sido hostilizada na abertura da Copa do Mundo, em junho. “A esperança vai vencer o ódio”, disse Lula à “elite branca”, a quem ele acusa de ter vaiado Dilma no estádio na cerimônia de abertura da Copa do Mundo.

Dilma tem minimizado as previsões mais catastróficas chamando os tucanos de “pessimistas de plantão” ou como pessoas que “pregam a política do quanto pior, melhor”. A atitude se assemelha a de Fernando Henrique Cardoso, que, no último ano do seu primeiro mandato, exatamente na mesma situação da atual presidente, se defendia das previsões de caos na economia. “Os catastrofistas devem pôr as barbas de molho. 1998 será melhor que 1997”, defendia-se FHC. Em agosto passado, Aécio rebateu a presidente: “Somos mais de 75% de pessimistas".

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Ao criticar o “mundo irreal” apresentado na propaganda de Dilma, Aécio tem reciclado o mantra da última eleição, quando o então candidato do PSDB José Serra que não se conformava com o avião presidencial comprado pelo governo de Lula. “O mundo do candidato Lula é virtual, ele anda de ‘aerolula’ e não conhece a realidade”, atacava Serra, ao criticar a situação das estradas brasileiras. Aécio também tem repetido que “quer morar na propaganda de Dilma”, onde tudo é perfeito.

Embate econômico

Aécio retomou a velha premissa de que os tucanos precisam voltar ao poder para que a economia recupere a credibilidade. Nada diferente do que disseram Serra e Alckmin nas duas campanhas tucanas, enfrentando Lula, em 2002 e em 2006.

“O Brasil está deixando de crescer. O PT já teve sua chance e deixou passar”, dizia Alckmin ao enfrentar Lula em 2006. “Hoje estamos na eminência de um apagão por falta de investimento” dizia o governador de São Paulo. “Espero que nossa vitória traga credibilidade à política econômica”, repetia Serra em outubro de 2002, ao enfrentar Lula.

O desempenho da economia sempre foi um campo fértil de embates nas campanhas de petistas e tucanos. Em momentos diferentes, os dois lados lançaram mão do cenário internacional para justificar desequilíbrios internos. FHC, em 1997, jogava a culpa na crise dos países asiáticos e defendia o crescimento pífio.

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“Não somos tigres, não damos saltos felinos, somos uma baleia que se move devagar, mas com firmeza”, defendia-se o ex-presidente.Nada mais atual que a frase dita por FHC para justificar as dificuldades na economia brasileira em seu governo. “Acho que nós brasileiros não entendemos que a política externa é interna. O que o que acontece lá, repercute aqui”, disse FHC, em janeiro de 2001.

Dilma tem também enfrentado críticas pelo baixo crescimento e lança mão da crise internacional para se desculpar da falta de dinamismo. No entanto, a presidente tem procurado destacar que, ao contrário dos tucanos, os governos petistas não têm feito arrocho salarial e tomado medidas que provoquem desemprego.

A falta d´água ameaçou a campanha em São Paulo neste ano, mas o fenômeno climático já foi justificativa usada por FHC para tentar explicar o apagão elétrico ocorrido seu governo entre os anos de 2001 e 2002. “Se não chover o país vai parar”, previa FHC.

Se agora, os petistas se debatem para entender e tentar minimizar o clima “anti-PT”, no passado, FHC também se mostrou ressentido com a potencialização de seu desgaste de sua imagem na frase lançada pelos opositores: “Fora FHC”. “Eu espero que o PSDB não faça o que o PT fez comigo. Mal terminava a eleição, eles diziam fora FHC”, lamentou o ex-presidente em novembro de 2002.

Bordões

Nesta repetição de motes, há momentos na campanha em que os próprios candidatos riem de si mesmos ao repetir bordões cunhados no passado. Ao discursar após o resultado do primeiro turno, Dilma brincou com a claque petista que cumpria o antigo ritual.

A presidente havia lançado mão em seu discurso, da célebre frase da resistência que serviu para embalar os primórdios do PT. “A luta continua”. Imediatamente, a plateia começou a gritar: “O povo unido jamais será vencido”. E a presidente não deixou por menos: “É claro que depois de ‘a luta continua’ tinha que vir ‘o povo, unido, jamais será vencido”, brincou a presidente.

Atenta à saturação do discurso, a campanha de Dilma lançou o slogan, “Governo Novo, Ideias Novas”, frase que vem sendo repetida pela presidente. No entanto, as ideias novas são reciclagens de programas passados como é o caso da proposta para a Saúde, de ampliar o programa Mais Médicos para o atendimento especializado. No caso da educação, Dilma apresenta como ideia nova a aplicação dos royalties de petróleo na Educação, já aprovada pelo Congresso.

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