Advogado do PT levará à Justiça o grupo "Dignidade Médica" e diz que rival Aécio Neves "deveria aplaudir" a ação do partido

As postagens com discurso de ódio contra nordestinos deixaram as redes sociais e viraram tema de embate entre as campanhas de Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição, e Aécio Neves, do PSDB, no segundo turno. O jurídico do PT confirmou nesta quinta-feira (9) que levará a comunidade “Dignidade Médica” à Justiça e citou ainda que questão vai além de uma briga partidária. Para o tucano, no entanto, sua candidatura tem sido alvo de todo tipo de ataques dos “adversários políticos” que querem desmoralizá-lo.

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Na última terça-feira (7), o iG revelou que o grupo de quase 100 mil usuários, que se declaram médicos, pregou o holocausto e a castração química aos nordestinos e eleitores do PT . O caso será tema da representação judicial que o coordenador jurídico do PT, Marco Aurélio Carvalho, entregará ao Ministério Público Federal (MPF) nas próximas horas. O documento contará com centenas de reproduções de conversas entre os usuários, que declaram "morte a presidente Dilma" e entregam um "diploma de jumento" para quem votar na petista. 

Leia os comentários da página "Dignidade Médica" no Facebook:

"Pedimos que sítio eletrônico não veicule mais esse tipo de informação e que seja apurada a conduta dos moderadores e eventuais responsáveis pela opinião expressada, mas deixando claro que queremos preservar as liberdades democráticas, crenças e opiniões políticas", explica o advogado.

Carvalho acredita que o discurso do ódio na web vai além de uma questão partidária e criticou Aécio por considerar o fato como um ataque do PT à sua candidatura. “Gostaria que Aécio aplaudisse a nossa iniciativa de perseguir esse tipo de eleitor dele, que tem uma visão distorcida da realidade. Gostaria de receber o apoio solidário dele porque isso vai além da questão partidária.”

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Procurada pela reportagem, a campanha de Aécio Neves se recusou a comentar o assunto “por razões estratégicas”. Porém, há informações de que nos bastidores tucanos o tema é prioridade e considerado um “caso delicado”. Advogados do partido estão investigando comunidades com conteúdo xenofóbico e perfis falsos, apurando ainda a possibilidade de alguma medida judicial.

Entenda o caso

A vitória de Dilma no primeiro turno da eleição presidencial mais uma vez gerou um surto de mensagens preconceituosas contra nordestinos, nortistas, negros e beneficiários dos programas sociais do governo federal. O fenômeno já havia sido observado em 2010, quando Dilma foi eleita pela primeira vez. Neste ano, as páginas "Esses Nordestinos" e "Médicos Indelicados" reuniram as postagens agressivas e denunciaram o preconceito. 

A última somou comentários da comunidade "Dignidade Médica", com quase 100 mil usuários que se declaram profissionais da classe médica. A página se tornou palco de uma guerra de classes no entorno da disputa pela Presidência. Usuários pregaram "castrações químicas" contra nordestinos, profissionais com menor nível hierárquico, como recepcionistas e enfermeiras, e citavam um "holocausto" entre os eleitores da petista.

Após reportagem do iG, administradores trocaram foto de capa da comunidade 'Dignidade Médica'
Reprodução
Após reportagem do iG, administradores trocaram foto de capa da comunidade 'Dignidade Médica'

O discurso de ódio conta com frases de "nível de conversa que pobre entende" e ameaças de expulsão do grupo caso o usuário se manifeste contra os ideais da página. Um usuário protesta: "70% de votos para Dilma no Nordeste! Médicos do Nordeste causem um holocausto por aí! Temos que mudar essa realidade!".

Uma das administradoras da comunidade "Dignidade Médica" afirmou à reportagem que o grupo é um espaço reservado aos médicos para "desabafos". Patricia Sicchar, que se declara médica da Secretaria Municipal de Saúde de Manaus em perfil da rede social, diz que houve uma interpretação errada para o termo “holocausto” – que nada teria de violência física, mas indicaria uma mudança de postura política. "Holocausto é uma revolução do agir. Nada do que vocês [jornalistas] entendem."

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