Mandato limpo e humor rendem mais de um milhão de votos para Tiririca

Por Ana Flávia Oliveira -iG São Paulo |

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Após ser eleito em 2010 com 1,3 milhão de votos, deputado volta ao Congresso com segunda maior votação do País

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'Que bifões, bicho', diz Tiririca em referência aos comerciais da Friboi

O deputado Francisco Everardo Oliveira Silva, conhecido como Tiririca (PR-SP), transformou seu espaço gratuito de campanha no rádio e na televisão em grandes encenações humorísticas. Não houve propostas, mas imitações de Roberto Carlos e Pelé, entre outras esquetes. Resultado: foi escolhido por 1.016.796 de eleitores para ser um dos representantes de São Paulo no Congresso Nacional.

O número é cerca de 25% menor em relação aos votos obtidos em 2010 (1.353.766), quando foi eleito pela primeira vez com a segunda maior votação da história até aquele momento. 

Se quatro anos atrás o protesto contra a política formal (com o bordão "pior que tá não fica") foi a explicação para a surpreendente votação do palhaço, neste ano o carisma do humorista e a aplicação demonstrada durante os quatro anos em que esteve no Congresso ajudaram a garantir o novo passe.

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Tiririca custa R$ 805 mil e rende R$ 15 milhões ao PR em quatro anos

Como deputado, Tiririca teve uma atuação discreta, quase apagada. Apresentou dez projetos de lei – a maioria propondo benefícios para artistas circenses -, não fez nenhum pronunciamento no plenário, atividade que dá visibilidade ao legislador, e também não conseguiu papel de destaque entre os colegas - como, por exemplo, a presidência de uma comissão. No entanto, Tiririca foi extremamente assíduo e não teve seu nome envolvido em nenhum escândalo de corrupção, em desvio de recurso ou de enriquecimento ilícito.

Segundo o ranking Atlas Político, que avaliou a atuação dos congressistas do País, Tiririca recebeu 2,92 de nota (vai até 5) e ocupa a 68º posição entre os 513 deputados do País. Os critérios representatividade (número de votos recebidos), campanha responsável (gastos), atividade legislativa (projetos apresentados), debate parlamentar (intervenções em plenário) e fidelidade partidária compõem o ranking, sendo 1 a nota máxima para cada item. Os deputados mais bem avaliados, segundo o levantamento, são Chico Alencar (PSOL-RJ), Manuela D'Avila (PC do B-RS) e Fátima Bezerra (PT-RN).

O analista político Antonio Augusto de Queiroz, diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), órgão que fiscaliza a atividade parlamentar, define a atuação de Tiririca como "mediana e discreta".

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Tiririca também aparece fantasiado como o ex-jogador Pelé

"O mandato não foi o vexame que se imaginava. Não houve grandes proposições, mas as pessoas veem como positivo o fato de ele não criar escândalos", diz. Após a eleição de 2010, o Ministério Público moveu processo contra o deputado, que foi acusado de fraudar o registro da candidatura ao declarar que sabia ler e escrever. Ele conseguiu provar que tinha "rudimentares conhecimentos na escrita e leitura" e o processo, que chegou a tramitar até no Supremo Tribunal Federal, foi arquivado no ano passado.

Queiroz afirma ainda que, apesar das piadas vistas durante a campanha, o deputado Tiririca é bem diferente do palhaço Tiririca - inclusive nas roupas. "No mandato ele não é debochado, presta contas de maneira adequada, tem o cuidado para não criar escândalos e não dá margem para ser enquadrado na quebra de decoro. É esperto".

Campanha

Sem apresentar nenhuma proposta no horário eleitoral, Tiririca investiu apenas no humor e em músicas para pedir votos. Ele se fantasiou de Roberto Carlos e fez paródia da canção "O Portão", uma parceria com Erasmo Carlos. A peça rendeu um processo e a proibição de uso no horário eleitoral.

Veja como foi a campanha de Tiririca para o Congresso Nacional:

Tiririca em propaganda na qual parodia Roberto Carlos: Justiça proibiu divulgação. Foto: ReproduçãoApós questionamentos na Justiça, Tiririca lançou nova propaganda, em que diz conhecer Brasília. Foto: ReproduçãoEm outro programa eleitoral, o humorista candidato aparece dançando com duas dançarinas . Foto: ReproduçãoTiririca também aparece fantasiado como o ex-jogador Pelé . Foto: ReproduçãoSucesso de Tiririca gerou cópia: em goiás, candidato concorre com mesmo visual e nome do humorista. Foto: Arquivo pessoalO humorista Tiririca na eleição de 2010, faz campanha em São Paulo. Foto: ReproduçãoPropaganda eleitoral de Tiririca na TV: "Pior que tá não fica". Foto: ReproduçãoTiririca acena ao chegar ao Congresso Nacional em Brasília, em 2011. Foto: ReutersTiririca com os deputados Paulo Freire e Heleno Silva, nos seus primeiros dias no Congresso. Foto: Agência O GloboSenador Eduardo Suplicy (PT-SP) e deputado federal Tiririca (PR-SP) cantaram Blowin' in the wind, de Bob Dylan. Foto: ReproduçãoO deputado federal Tiririca. Foto: Alan Sampaio / iG BrasíliaRegistro de candidatura de Tiririca: o deputado disputará reeleição. Foto: ReproduçãoTiririca. Foto: Agência Brasil

Como resposta, Tiririca imitou o ex-jogador Pelé e recitou a mesma paródia criada para música de Roberto Carlos. “Eu estou recitando para ninguém te processar”, diz o falso Pelé. Na mesma inserção, Tiririca canta uma paródia da música “ABC”, que ficou famosa na voz de Pelé para afirmar que sabe ler e escrever. Em outra peça, o deputado dançou um funk ao lado de dançarinas seminuas.

Leia mais: Erasmo Carlos e Roberto Carlos entram com processo contra Tiririca

"Deputado trabalha muito e faz pouco", diz Tiririca em uma propaganda ao lado de um veículo Brasília, usado para "explicar" a atividade parlamentar aos eleitores. O vídeo é uma referência à propaganda de 2010, quando ele afirmava não saber o que um deputado fazia, mas prometia contar ao eleitor, caso fosse eleito. Até mesmo o Darth Vader, clássico personagem da série "Guerra nas Estrelas", o deputado encarnou. 

“A propaganda dele é lúdica, ele brinca. Isso atrai certa parte do eleitorado, que é mais critico à atuação dos deputados. É um eleitor que está mais indignado com denúncias de corrupção”, diz Maria do Socorro Sousa Braga, cientista política da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). “A eleição dele mostra que talvez o eleitor esteja buscando demonstrar essa insatisfação com o desempenho da classe política tradicional”, completa. Outra razão apontada por Maria do Socorro para a expressiva votação de Tiririca em 2014 é o desinteresse político por parte do eleitorado.  

Pedro Fassoni Arruda, cientista político e professor da PUC-SP, diz que as pessoas identificam no Tiririca um "homem do povo". "O fato de ele se apresentar como cidadão comum, identificado com trabalhador, sem o paletó e a gravata, sem a fala empolada, é positiva porque as pessoas veem o terno e gravata como disfarce para caráter duvidoso. Ele se apresenta como 'diferente de tudo que está ai'", afirma.

Queiroz, do Diap, concorda: "É um sentimento difuso de que as pessoas mais humildes devem ter oportunidade de atuar. Muita gente vota pelo exemplo que ter alguém humilde no Congresso, mesmo que esse alguém não dê contribuição política."

Voto de protesto

O bordão "Pior que tá não fica", de 2010, atraiu votos de descontentes com a forma de atuar dos congressistas. Quase quatro anos se passaram e para, os analistas, a motivação para apertar o número do deputado na urna ainda é a mesma para parte do eleitorado. "A votação dele é uma forma de protesto, mas um protesto inócuo, que não surte nenhum efeito prático", avalia Arruda, da PUC-SP, referindo-se aos poucos projetos e à baixa atividade legislativa do deputado.

"A continuidade das práticas ilícitas, como denúncias de corrupção e compra de votos, leva certo cansaço ao eleitorado. Talvez o eleitor tenha buscado demonstrar essa insatisfação com o desempenho da classe política tradicional e vota em candidatos que também estão tentando entrar no processo por outras formas", diz Maria do Socorro, da Ufscar.

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