Mudança no perfil e na imagem política ajudou governador a se firmar como líder tucano no maior colégio eleitoral do País

Reeleito com 57, 31% dos votos válidos, o governador Geraldo Alckmin desembarca do primeiro turno como um dos grandes vitoriosos das eleições de 2014 e dono de espaço confortável no ninho tucano. A consagradora vitória ajuda Alckmin a deixar para trás o apelido de “picolé de chuchu”, que já o persegue há anos, dando a ele a condição de protagonista no PSDB de São Paulo.

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Depois de anunciada a vitória – que disse ter aguardado com “humildade, respeito e serenidade” – prometeu corrigir o que está errado no atual governo e melhorar as políticas públicas que mereçam reparos. Alckmin prometeu ainda que cerrará fileiras, ao lado do agora senador eleito José Serra, para tentar eleger Aécio Neves presidente.

Especialistas ouvidos pelo iG apontam que o desempenho de Alckmin, que contribuiu para alavancar Aécio e Serra na votação de ontem, é resultado, em parte, de uma mudança radical no perfil e na imagem política do governador, que abandonou o estilo insosso para atuar com mais energia.

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“O apelido de picolé de chuchu já não cabe mais no Alckmin. Virado à paulista apimentado é mais apropriado”, diz a jornalista Katia Siai, especialista em marketing eleitoral e professora da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ela, o governador paulista tornou-se mais carismático, se desviou com habilidade de temas que representaram seu Calcanhar de Aquiles e poderiam ter gerado desgaste, demonstrou afabilidade com o eleitor e determinação em momentos cruciais, como no acidente que matou Eduardo Campos cuja ação dos órgãos de segurança comandou pessoalmente no local do desastre.

Antes de iniciar a campanha, com uma boa dose de maldade, Alckmin ordenou sua assessoria de comunicação divulgasse detalhes da operação que flagrou o deputado petista Luiz Moura numa reunião com integrantes da quadrilha, na Zona Leste da capital. Foi o suficiente para calar o candidato do PT, Alexandre Padilha, que tocou de longe na questão prisional e de segurança pública.

O episódio virou um abacaxi para o PT, que negou legenda ao parlamentar, mas perdeu o maior potencial de desgaste a Alckmin, que é a perda de controle, pelo governo, das prisões cuja seara pertence ao Primeiro Comando da Capital (PCC), detentor também da hegemonia sobre o tráfico de drogas e cos crimes contra o patrimônio.

Poucos especialistas acreditavam numa reeleição fácil. Pesava também contra Alckmin a fadiga de 20 anos do PSDB como inquilino do Palácio dos Bandeirantes _ o maior período contínuo de um único grupo político na história estadual. Tido pelos adversários como um político sem brilho, Alckmin revelou-se um competente articulador e, no palanque ou em palestras, transformou-se num contador de histórias em que mesclava personagens como Napoleão Bonaparte a Monteiro Lobato. Num dos encontros, na Câmara Portuguesa, arrancou sonoras gargalhadas ao ensinar a língua pátria com piadas e pitadas de erudição.

O grande mérito de Alckmin foi encarar de frente os temas mais problemáticos de seu governo, sem fugir dos debates, mesmo com larga vantagem nas pesquisas. A crise hídrica, através da qual a oposição esperava “racionar” os votos do tucano, foi tratada com realismo e, diante da incredulidade até de seus assessores técnicos, mostrou números e projetos para sustentar que não faltará água e que nem haverá racionamento – pelo menos até que os votos sejam contados.

As denúncias de formação de cartel e as suspeitas de corrupção que rondam os tucanos nas complicadas relações com as empresas multinacionais – Siemens e Alstom à frente – também não surtiram efeito.

Alckmin firmou-se como líder do tucanato paulista, com um desempenho que foi além de simplesmente vencer a eleição: ele aglutinou as oposições e fez de São Paulo uma trincheira contra Dilma, Marina e Padilha, evitando que este último fosse impulsionado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a ponto de forçar um segundo turno.

Alckmin sai da eleição de 2014 empanturrado de votos, parte conquistada, ironicamente, nos históricos redutos petistas, como a Zona Leste da capital, onde sua campanha serpenteou por um monotrilho de 26 quilômetros, mas com menos de três – apenas duas estações – concluídos.

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