Para a campanha, presidente cresce na adversidade e seu temperamento forte é uma qualidade na condução do País

Depois de passar boa parte de seu primeiro governo sendo criticada pelo jeito autoritário e por não economizar nas broncas aos auxiliares, a presidente Dilma Rousseff aproveitou a campanha de primeiro turno para usar a seu favor o traço forte de seu temperamento. No decorrer da disputa, Dilma assumiu sem culpa a fama de durona. Procurou enaltecer a ideia de que presidir o país não é coisa para “coitadinhos”, adjetivo que usou contra sua adversária Marina Silva (PSB). A ex-senadora derrotada nas urnas neste domingo deu à petista o contraponto que o PT queria. Acabou sendo e acabou sendo mostrada pela campanha petista como uma figura frágil, que se coloca como vítima diante das adversidades.

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A presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff
Paulo Whitaker/Reuters
A presidente e candidata à reeleição, Dilma Rousseff

Dilma, sempre se queixou do que considera uma dose de machismo na crítica a sua personalidade. Durante a corrida do primeiro turno, aproveitou a entrevista que concedeu ao iG para ironizar mais uma vez o fato de ser tratada como uma “mulher dura no meio de muitos homens meigos”. “Tem um viés um pouco machista, mais do que machista, é discriminatório, no seguinte sentido: tem certas características num homem que são consideradas normais; tem certas características na mulher que são consideradas normais. Eu tinha que ser doce, eu tinha que aceitar bastante tudo o que me dissessem, aceitando opiniões”, justificou.

Se, na eleição passada, a pouca habilidade da presidente com o discurso político acabou superada pelo prestígio emprestado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, neste ano, a presidente tem se mostrado bem mais à vontade em público e na relação com a imprensa. A desenvoltura, dizem aliados, é fruto da proximidade que Dilma construiu com o marqueteiro João Santana, que tem orientado suas falas. Para assessores próximos, Santana encontrou uma fórmula de canalizar a “fúria” da presidente.

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O marqueteiro, dizem, já entendeu que Dilma costuma se recolher quando está tudo bem, mas sempre “cresce na adversidade”. A comunicação de Dilma tem explorado ao máximo essa característica. Em meio aos ataques dos adversários, o trabalho em torno da petista tem sido no sentido de modular a facilidade de “colocar os pingos nos is”, como a própria presidente costuma dizer quando fala de si mesma.

Essa característica, na visão da equipe de campanha, se faz evidente desde que Dilma ainda era ministra-chefe da Casa Civil e precisou dar explicações no Senado sobre o uso de cartões corporativos. Ao ser acusada de mentirosa pelo presidente do DEM, senador Agripino Maia (RN), que na época era líder de seu partido, Dilma retrucou afirmando que, nos anos de ditadura, os dois estavam em lados opostos. E, na época, disse a presidente, quem mentia tinha caráter.

Ironia

A ironia, por exemplo, virou uma das marcas da nova imagem construída para Dilma. Nesta campanha, ao primeiro ataque de Marina Silva, a petista reagiu de forma incisiva. Disse que “não era sustentada por banqueiros” quando Marina a acusou de manter os juros altos e uma “bolsa banqueiros” em seu governo.

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Marina não foi a única a ser alvo de falas fortes da presidente. Antes de a ex-senadora disparar nas pesquisas, a presidente mirava o tucano Aécio Neves . Ao rebater o tucano, que acusou seu governo de ineficiência na área de infraestrutura, Dilma disse que tinha feito alguns aeroportos, mas nunca tinha ficado com a chave de nenhum. Ela se referia ao aeroporto construído durante o governo do tucano, na cidade mineira de Cláudio. A obra foi feita em terras que pertenceram à família de Aécio e as chaves ficavam em poder de seu tio.

Famosa pelas broncas públicas que já distribuiu a seus auxiliares, Dilma chegou a surpreender alguns integrantes pela tranquilidade que demonstrou em algumas situações difíceis vividas nos últimos meses. Um desses momentos tensos, dizem interlocutores, ocorreu na Copa das Confederações, em junho de 2013. As manifestações tomaram as ruas das principais cidades brasileiras, misturadas a atos de vandalismo. E Dilma se viu foi obrigada a dar respostas rápidas às demandas por serviços públicos de maior qualidade.

O mesmo, relata um alto petista, ocorreu na época em que Marina disparou nas pesquisas. Dilma, naquele momento, reconhecia nas conversas privadas que a situação era preocupante. Numa atitude descrita como “inesperada” por alguns auxiliares, Dilma não só convidou os principais quadros do governo e do PT para reuniões sobre a estratégia eleitoral, como ouviu as opiniões de todos nesses encontros.

Tensões

Ainda assim, desde que chegou ao governo, Dilma manteve uma relação com Lula e com os emissários do ex-presidente marcada por uma tensão velada em determinados momentos. Quando a presidente declarou que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, não conduziria a economia em seu eventual segundo mandato, alguns petistas próximos a Lula se esmeraram nos bastidores para definir o novo nome. Chegaram a dar sugestões para a vaga, como o nome de Otaviano Canuto, economista com carreira na Unicamp, que trabalhou com Antonio Palocci na pasta, em 2003. Dilma, no entanto, não deu prosseguimento ao assunto de acordo com petistas.

Outro ponto que acirra o clima de tensão é a irritação da presidente com declarações de ministros, fora do script definido pela comunicação do Planalto. Na Copa do Mundo deste ano, por exemplo, quando a presidente se viu alvo de vaias e xingamentos nos estádios, as declarações do ministro Gilberto Carvalho, criticando a postura de atribuir os insultos à “elite branca” deixaram a presidente irritada. Carvalho é considerado o olhar de Lula no governo e foi chamado pela presidente para uma conversa na qual ela demonstrou sua contrariedade.

Durante a campanha, entretanto, a presidente mostrou-se mais flexível, segundo interlocutores. Adotou inclusive uma política mais aberta em relação à imprensa, repassada para todo o governo. Auxiliares foram autorizados a melhorar o diálogo com jornalistas, para expor realizações da gestão.

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