Guerra entre candidatos nanicos deu vida à campanha no primeiro turno

Por Vasconcelo Quadros - iG São Paulo |

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Temas como homofobia, religião, família, aborto e drogas entraram no debate com força graças aos pequenos partidos

Diferente das últimas seis eleições presidenciais, em 2014 os pequenos partidos fizeram a diferença, quebrando a monotonia da campanha ao introduzir com força temas que seriam desprezados por PT, PSB e PSDB. Aborto, descriminalização das drogas, família, religião e homofobia entraram nos debates com intensidade jamais vista nos 29 anos de democracia. O debate, graças a alguns nanicos, quebrou tabus e ajudou a esclarecer o eleitor sobre quem é quem nos partidos e na galeria de candidatos.

Alice Vergueiro / Futura Press
Os candidatos à Presidência da República Eduardo Jorge e Luciana Genro

Cientista político, especialista em marketing eleitoral e autora de um livro sobre o tema, lançado em meio à campanha deste ano - "Campanhas Presidenciais – mídia e eleições na América Latina, da Editora Medianiz"-, a jornalista Katia Saisi, professora da Universidade de São Paulo (USP) destaca a presença feminina em 2014 (além da presidente Dilma Rousseff, do PT, e de Marina Silva, do PSB, a campanha teve ainda a marcante presença de Luciana Genro do PSOL), mas afirma que o grande papel dos pequenos foi “tirar do armário” o tema da homofobia que, camuflado em outras eleições, acabou sendo escancarado agora.

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A introdução desse tema no debate, primeiro na TV Record, com intensidade, e depois na TV Globo, um pouco mais leve, deve-se a um confronto entre nanicos. Foi Luciana Genro quem arrancou o homofóbico que dormia no peito de outro nanico, Levy Fidelix, do PRTB. No embate, que gerou polêmica nas redes sociais, Fidelix condenou o casamento gay, deu à opção/orientação sexual um conceito de doença e, se dependesse dele, tornaria proscrito o movimento LGBT.

“Por mais condenáveis, as posições Fidelix, ajudaram a esclarecer o eleitor e a despertar para uma temática que está na sociedade, mas nunca havia sido tratado com o espaço adequado em campanhas eleitorais”, observa Saisi. Os presidenciáveis, segundo ela, foram obrigados a mostrar a cara, embora tenha sido lamentável que nenhum presidenciável tenha reagido no momento em que o candidato do PRTB agrediu os gays.

Veja a fala de Fidelix no debate da TV Record:

A especialista diz que todos os candidatos de pequenos partidos que, com representação no Congresso, conseguiram participar dos debates, deixaram contribuição relevante para a melhoria do nível das campanhas. Luciana, segundo ela, demonstrando bom nível de politização, também questionou a política econômica do PT e demonstrou a incerteza da opção pelo “continuísmo” representado pelos três candidatos mais bem colocados.

O Pastor Everaldo Pereira, do PSC (que tem uma bancada com 15 deputados na Câmara e escapa da definição de nanico), embora tenha visto minguar seu eleitorado evangélico com a morte de Eduardo Campos (os eleitores migraram para Marina, que também é evangélica), ajudou a esclarecer temas como aborto, família e religião, arrancando posições dos três grandes candidatos. Ganhou o eleitor, que recebeu informações para se posicionar na hora do voto.

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A descriminalização das drogas, demanda da qual Marina, Dilma e Aécio se desviaram estrategicamente, segundo Katia Saisi, foi puxada por Eduardo Jorge, do PV. Numa pergunta a Aécio, com presença de espírito e diante de uma resposta genérica, Jorge lembrou que uma das maiores autoridades políticas do país, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, principal conselheiro do candidato tucano, é favorável a políticas públicas que substituam a equivocada repressão por uma decisão mais sensata em relação ao uso num país que ocupa o topo do consumo de maconha, cocaína e seus derivados.

“Os candidatos dos partidos pequenos deram força aos temas mais polêmicos, o que é incomum numa democracia de massas. Acho que os pontos mais fortes foram o aborto e o casamento gay”, diz a professora de ciências políticas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR), Maria do Socorro Braga.

Ela crê que ao tratar o homossexualismo como doença, Levy Fidelix foi além do direito de expressar livremente e do limite civilizado e faltou com o respeito, mas avalia que o embate entre o candidato do PRTB e Luciana Genro foi o ponto alto.

“Democracia é aceitar os pontos de vista do outro, mas Fidelix ultrapassou os limites da civilidade democrática. Foi desrespeitoso. Por outro lado, ajudou a esclarecer o eleitor, que certamente fará um filtro sobre tudo o que foi dito”, diz Braga.

“A Luciana fez bonito nesta campanha. Bateu na concentração de renda, nos banqueiros, empreiteiros e, aproveitando o último debate, ao vivo, até na própria Globo. Isso foi ótimo. Ela sai com musculatura suficiente para ajudar a eleger mais deputados pelo PSOL nos estados. Ocupou uma faixa da juventude que pertencia a Marina”, aponta Maria do Socorro Braga.

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“Os pequenos partidos saem dessa eleição com capital político e força para cobrar de quem for eleito as questões colocadas em 2014”, afirma Katia Saisi. Segundo ela, esses partidos amplificaram as questões temáticas e ajudaram a politizar o debate, quebrando um “monopólio” que pertenceu historicamente ao PT e PSDB.

Outro componente interessante, que segundo Saisi não esteve presente nas últimas seis eleições, foi a afirmação da mulher na política, seja pela presença da Luciana Genro ou pela mudança de postura de Dilma. A presidente, na avaliação de Saisi, abandonou a postura de “mãe”, um contraponto ao “pai” Lula em 2010, para assumir o comando de sua campanha com firmeza e influência mais acentuada. Ao se comportar com altivez e determinação, segundo a especialista, Luciana fortaleceu o papel da mulher na política.

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As duas especialistas ouvidas pelo iG afirmam que entre os pequenos com representação no Congresso, como é o caso do PSOL, PSC, PV e PRTB, é mais claro o rumo que os candidatos tomarão no segundo turno. Luciana Genro deve ficar neutra, liberando o eleitorado; Eduardo Jorge, embora tenha sintonia com Marina na defesa de crescimento com sustentabilidade, pode cair nos braços de Dilma; Levy Fidelix ficaria com os tucanos e o pastor Everaldo Pereira com Aécio ou Marina.

Maria do Socorro Braga chama a atenção para um detalhe contraditório na trajetória de candidato do PSC nessa campanha. Everaldo Pereira começou mais afinado com Marina que, como ele, é evangélica, mas nos debates demonstrou proximidade com Aécio Neves, o que pode ter incluído um dado novo na eletrizante e inédita disputa entre o tucano e Maria pela segunda colocação neste domingo.

“Se Aécio chegar ao segundo turno ele ficará devendo parte da vitória ao pastor Everaldo que, nos debates, atuou em dobradinha com ele e pode ter levado ao tucano fatia significativa do eleitorado evangélico”, diz Braga.

Entre os outros nanicos, à exceção de Eymael (PSDC), Zé Maria (PSTU), Rui Pimenta (PCO), Mauro Iasi (PCB) devem se aliar ao PT.

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