Presidente ainda busca se validar junto ao seu próprio partido como ‘presidente capaz de andar com as próprias pernas’

Famosa pelas frases tortas e broncas memoráveis que costuma distribuir aos auxiliares, a presidente Dilma Rousseff passou os últimos dias esforçando-se para aliviar o clima de tensão ao seu redor. Desde que as pesquisas de intenção de voto começaram a mostrar uma queda acentuada da ex-senadora Marina Silva (PSB), a petista vem se mostrando aliviada e até chegou fazer algumas piadas durante as longas reuniões da coordenação da campanha presidencial petista, realizadas no Palácio da Alvorada. Quem acompanha de perto o dia-a-dia da presidente chega a descrevê-la como “curiosamente bem-humorada e espirituosa” nesta reta final do primeiro turno.

Presidente Dilma, candidata à reeleição, evitou perguntas a Marina em último debate
AP Photo/Felipe Dana
Presidente Dilma, candidata à reeleição, evitou perguntas a Marina em último debate

É uma Dilma diferente de semanas atrás, quando a presidente se mostrava tensa nas reuniões de campanha. Depois de uma largada em que se falava até mesmo na possibilidade de vitória no primeiro turno, a morte do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos jogou a corrida para um cenário inimaginável. Por pelo menos alguns dias, dirigentes petistas chegaram a tratar a derrota para a ex-senadora Marina Silva como uma realidade. Faziam conjecturas sobre como seria a volta do PT para a oposição e o lançamento de uma candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2018.

Marina Silva provocou o que nem mesmo casos graves conseguiram, como as denúncias de corrupção na Petrobras e o escândalo envolvendo o ex-diretor Paulo Roberto Costa, que o adversário Aécio Neves (PSDB) batizou de “novo mensalão” – termo que não pegou na campanha. Passado o susto, porém, a campanha de Dilma reformulou a estratégia para enfrentar a candidata do PSDB e retomou aos poucos o clima de tranquilidade.

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A Dilma que se fez ver nesta semana é também diferente daquela que saiu vitoriosa das urnas em 2010. Mas foram necessários quatro anos de ajustes e acertos na relação com o PT e com sua própria equipe de governo para que ela pudesse ser vista numa mesa rodeada de líderes petistas, encaixando gracinhas e risadas entre análises de pesquisas e exposições do marqueteiro João Santana.

De lá para cá, contam aliados mais próximas, Dilma passou a se sentir mais confortável no papel de chefe de Estado e aprendeu a lidar melhor com as frustrações de não ver as coisas saírem como esperado. Embora ainda esteja longe do “ideal”, segundo os colegas, ela também melhorou na maneira de “fazer política”, principalmente na hora de lidar com outros partidos que integram a base aliada. A petista nunca escondeu a irritação em ter que abrir a agenda para esse tipo de aproximação. Mas, aos poucos, conformou-se com a necessidade de melhorar o diálogo – já prometeu publicamente, inclusive ao iG, que num eventual segundo mandato, esta será uma de suas mudanças pessoais mais significativas.

Veja imagens de Dilma Rousseff durante a campanha:

No círculo próximo à presidente, a votação que começa neste domingo e provavelmente só terminará no próximo dia 26 é tida como uma “prova de fogo”. Isso porque Dilma ainda briga para se validar junto a alguns setores de seu próprio partido, que preferiam vê-la fora da corrida eleitoral deste ano e substituída por Lula. A reeleição, portanto, serviria para firmá-la como uma presidente “capaz de andar com as próprias pernas”.

Dilma teve em Lula um aliado importante para melhorar sua relação com sua equipe de campanha e com o PT como um todo. Desde o início, foi ele quem ditou os rumos da candidatura, mas o fez principalmente nas conversas privadas que mantinha com os principais integrantes da coordenação da campanha – a própria Dilma, o marqueteiro João Santana, o presidente do PT, Rui Falcão, e o ex-ministro Franklin Martins. Foi nessas conversas que Dilma ouviu, e concordou, com a estratégia de ataques a Marina – ou de “dessacralização” - quando a ameaça da candidata do PSB se cristalizou no horizonte.

Nas reuniões formais da coordenação e, principalmente, do conselho político – integrado por todos os partidos da aliança –, quem comandava os trabalhos era a presidente. O ex-presidente Lula participou de algumas reuniões, mas sempre tinha o cuidado de não ofuscar a sucessora. Quatro anos atrás, conta um interlocutor, as coisas eram muito diferentes. Era possível ouvir Dilma dizer que iria consultar o ex-presidente antes de tomar uma decisão. Hoje, ela própria arbitra as discussões, embora comente que sempre ouve com atenção os conselhos do antecessor.

‘Criador e criatura’

Lula permaneceu nos bastidores mesmo após o acidente que matou o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos e marcou uma virada inesperada na corrida presidencial. O ex-presidente acompanhou de perto toda a reorganização da estratégia para enfrentar a substituta de Campos, Marina Silva, mas sempre procurou deixar Dilma na linha de frente das conversas. Mas nem por isso ele deixou de chamar a atenção em alguns momentos da disputa. “É perfeitamente possível criador e criatura viverem em harmonia”, afirmou, de cima do palanque, durante a convenção nacional do PT, que formalizou a candidatura de Dilma à reeleição. Na campanha, teve gente que descreveu a frase como uma “escorregada”. A própria presidente, segundo um aliado, não deu muita bola.

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Dilma desta vez comandou mais de um comício sem a presença do antecessor. Qualquer petista diz não ter a ilusão de que ela possa empolgar a militância como faz o ex-presidente. Mas muitos reconhecem que seu discurso melhorou. Em 2010 e nos meses seguintes à posse da petista, era Lula quem dominava os microfones. A presidente recém-empossada mostrava-se nervosa com frequência, enrolava-se com frases sem sentido, nos palanques e nas entrevistas coletivas.

As trapalhadas até deram origem ao verbo “dilmar” nas piadas de corredor contadas pelos assessores. Na relação com a imprensa, as “dilmadas” vieram na forma de piadas infames e ditados populares para lá de batidos. Um dos que Dilma repetiu à exaustão durante a campanha foi “Chegou a hora de a onça beber água”, usado recorrentemente para exaltar anúncios de programas estratégicos do governo. Ao avisar que não flexibilizaria as leis trabalhistas, Dilma engatou mais um: “Nem que a vaca tussa”. Mas a presidente nem sempre consegue segurar a irritação com perguntas indesejadas que, quase sempre, provocam repostas precedidas de um “minha querida” ou “meu querido”.

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Mesmo “dilmando” de tempos em tempos, a presidente surpreendeu auxiliares pela maneira como abraçou o discurso duro idealizado pelo marqueteiro João Santana nesta reta final do primeiro turno. Eles avaliaram que ela saiu bem no embate e soube atacar sem sobressaltos a imagem de fragilidade da ex-senadora Marina Silva. Sobrou também para o tucano Aécio Neves, que recebeu mais de uma disparada irônica por causa do episódio da construção de um aeroporto em Cláudio (MG), em terras que pertenceram a seus familiares. O tom da disputa nas últimas semanas também alimentou as piadas de corredor. “Ok, simpatia pode não ser o forte ali. Mas, se é para bater, aí é com ela”, riu um assessor da presidente nos corredores do debate realizado pelo SBT, um dos primeiros em que ela subiu drasticamente o tom contra os adversários.

Agora, passado o primeiro mandato, Dilma terá o desafio de vencer resistências em setores estratégicos, como empresariado e sua própria base aliada. O PMDB, com quem divide a chapa presidencial, fala em endurecer a relação e em lançar candidato próprio em 2018. A presidente, que já viu Lula lhe chamar a atenção mais de uma vez pela falta de diálogo com políticos e empresários, vem prometendo: vai se abrir mais e ouvir mais.

Trajetória

Dilma, na visão de líderes petistas, tem agora a chance de consolidar a descrição de “presidente da República” em seu currículo de “gestora”. Economista por formação, ela foi lançada por Lula como sucessora em 2010, sem nunca ter disputado uma eleição. Até então, sua biografia tinha como destaques os cargos de ministra de Minas e Energia e, após a saída do então ministro José Dirceu com o escândalo do mensalão, de chefe Casa Civil.

Sua entrada na corrida presidencial se deu como um desdobramento dos sucessivos escândalos que derrubaram os nomes que o PT tinha para preencher a vaga que se abriria com o fim do segundo mandato de Lula. Além de Dirceu, o partido viu o ex-ministro Antonio Palocci deixar o cargo sob suspeitas de enriquecimento ilícito, depois de já ter protagonizado o episódio da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa.

A base de sua candidatura presidencial foi construída em pleno tratamento contra o câncer linfático, diagnosticado durante exames de rotina. Já anunciada sucessora de Lula, Dilma tornou a doença públicano dia 25 de abril de 2009 e deu início às sessões de quimioterapia. Mais de um ano depois, ela obteve 55,43% dos votos válidos no segundo turno, contra o candidato do PSDB, José Serra, que teve 44,57% dos votos. Já o primeiro ano de seu governo foi marcado pela demissão de sete ministros, numa sucessão de crises que o governo buscou tratar como um sinal de intolerância com a corrupção.

Mineira, nascida em Belo Horizonte, Dilma é a mais velha de três filhos e estudou no tradicional Colégio Sion, comandado por freiras. A juventude foi marcada pela militância no movimento estudantil, período no qual foi presa e torturada. Esse histórico de militante foi resgatado pelo PT durante a campanha deste ano, como forma de responder às vaias que a presidente recebeu durante a realização da Copa do Mundo. E a presidente trouxe o histórico para dentro do discurso. “Na minha vida, enfrentei situações que chegaram ao limite físico. Eu suportei não foram agressões verbais, foram agressões físicas”, disse a presidente, após ser xingada na abertura dos jogos.

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