"As ruas claramente demonstraram uma crise de representatividade", afirma cientista político

Passado mais de um ano dos protestos de junho de 2013, a reta final do primeiro turno das eleições mostra que, entre os principais postulantes à Presidência - Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB) e Aécio Neves (PSDB) - há poucos ecos das ruas em suas propostas de governo.

Presidenciáveis não apresentaram propostas factíveis sobre demandas de junho
Montagem/iG
Presidenciáveis não apresentaram propostas factíveis sobre demandas de junho

Única do grupo a registrar um programa de governo junto à Justiça Eleitoral, Marina apoia-se nos conceitos de sustentabilidade – não apenas ambiental – para recuperar a credibilidade do País a partir da refundação do Estado brasileiro.

Tema relevante de junho de 2013, a reforma política proposta por Marina Silva visa, primeiramente, unificar o calendário geral das eleições, com o fim da reeleição e a adoção do mandato de cinco anos. A seguir, a coligação propõe novos critérios para as eleições de cargos proporcionais.

Veja imagens dos presidenciáveis durante a campanha:

Outra proposta permite que candidaturas avulsas disputem as eleições proporcionais, com pré-requisitos a serem regulamentados.

A campanha de Marina também propõe novos critérios na distribuição do horário eleitoral gratuito, mas não explica como se daria essa mudança.

No caso de Dilma Rousseff, um dos focos principais da reforma política é a chamada de um plebiscito sobre o tema. Recente coleta de assinaturas encabeçada por centrais sindicais reuniu sete milhões de assinaturas em favor da iniciativa.

Já Aécio Neves tornou-se um defensor do voto distrital misto, proposta encampada pelo hoje candidato ao Senado por São Paulo, o ex-governador paulista José Serra. Promete apresentar, se eleito, um modelo de reforma política na primeira semana de governo.

Um dos pontos já definidos é o fim da reeleição, mandato de cinco anos para o Executivo e o Legislativo e cláusula de barreira contra legendas de aluguel.

Mobilidade

Pegando carona na pauta do Movimento do Passe Livre, Marina Silva tem como proposta a implantação gradual do benefício. A prioridade inicial é acolher os alunos de baixa renda não atendidos pelo transporte escolar gratuito e matriculados em escolas públicas de Educação Básica ou em cursos superiores via Prouni ou Fies. “A gratuidade será provida com programa de apoio financeiro a estados e municípios”, explica a campanha de Marina Silva.

Aécio Neves promete instituir o que chama de Política Nacional de Mobilidade Urbana criando centros integrados de logística nos Estados e Municípios.

Enquanto isso, Dilma promete a manutenção de investimentos em mobilidade urbana a partir do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Análise

Para o cientista político Carlos Melo, do Insper, nenhum dos três principais candidatos à Presidência da República trouxe para suas propostas de governo, de maneira clara, quais demandas de junho de 2013 serão efetivamente levadas a cabo em um futuro governo.

“Primeiro porque só a Marina Silva apresentou proposta. E, ainda assim, algo muito genérico sobre reforma política, por exemplo. As ruas claramente demonstraram uma crise de representatividade e Marina reconheceu isso, mas não explica como vai fazer a reforma política”, aponta.

Melo lembra também que, no capítulo do combate à corrupção, outra exigência colocada nos protestos do ano passado, o governo Dilma Rousseff tentou se exaltar dizendo que o Ministério Público e a Polícia Federal hoje têm plenas condições de investigar, o que não acontecia no passado, em especial em governos do PSDB. “Vale dizer que nem Ministério Público nem Polícia Federal são aparelhos de partido e sim aparelhos de Estado”, enfatizou.

Voltando a Marina Silva, Carlos Melo afirma que a socialista se aproxima “palidamente” da demanda por eficiência de serviços públicos apresentada nas grandes manifestações de junho, mais uma vez cometendo o pecado de não explicar como implementará suas propostas.

Para o cientista do Insper, a crise de representatividade tende a se manter mesmo após as eleições de outubro porque as manifestações de junho foram encampadas por uma parte da sociedade brasileira e não por um todo. “As manifestações de junho não são obra da sociedade brasileira e sim de uma parte dela apenas”, minimiza. “Basta ver como a disputa se dá em alguns governos estaduais como no Rio de Janeiro, com [Fernando] Pezão (PMDB) e [Anthony] Garotinho (PR)”.

O programa Desafio, da TViG, reuniu o deputado federal Candido Vaccarezza e o voluntário do GAPP (Grupo de Apoio ao Protesto Popular) Alexandre Morgado, que debateram as influências das manifestações de junho. Veja:




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