Cacareco, macaco Tião e prefeito mosquito: voto de protesto na cédula de papel

Por iG São Paulo |

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Bem antes das urnas eletrônicas, Brasil viu um rinoceronte conquistar 100 mil votos e um chimpanzé chegar aos 400 mil

Além dos inúmeros relatos de fraudes, as cédulas eleitorais de papel protagonizaram os maiores micos da política brasileira e deram espaço aos insatisfeitos para eleger candidatos bizarros. Nasceu assim, em 1959, o voto de protesto, que colocou o Rinoceronte Cacareco como vereador de São Paulo. Anos depois, em 1988, o macaco Tião ficou em terceiro na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Infográfico: Conheça o mapa eleitoral brasileiro

Relembre momentos eleitorais com cédulas de papel:

Modelo de cédula eleitoral utilizada nas eleições presidenciais de 1994, que elegeu Fernando Henrique Cardoso. Foto: Divulgação/TRE-SPNo mesmo pleito, o eleitor ainda precisava escrever os nomes dos candidatos a deputado federal e estadual. Espaço foi utilizado para votos de protestos. Foto: Divulgação/TRE-SPEscrutinador durante contagem das cédulas nas eleições de 1962; apuração poderia levar até dez dias. Foto: Divulgação/TRE-SPSeção eleitoral do bairro do Belém, em São Paulo, na eleição municipal de 14 de outubro de 1951. Foto: Divulgação/TRE-SPPanorama de uma seção eleitoral na eleição de 2 de dezembro de 1945. Foto: Divulgação/TRE-SPReprodução do Folha da Manhã (1959) sobre a candidatura de Cacareco. Foto: Reprodução/Folha da ManhãMacaco Tião virou celebridade no Brasil e estava presente nas páginas dos jornais. Foto: Reprodução/O GloboO Museu do Voto em Brasília exibe modelo de urnas já usadas na história eleitoral do Brasil, como este modelo de 1950. Foto:  Museu do Voto/TSEUrna de madeira usada no ano de 1893 para receber os votos dos eleitores . Foto: Museu do Voto/TSEA urna eletrônica foi implantada em 1996 nas capitais e municípios com mais de 200 mil eleitores. Foto: Divulgação/Nelson Jr./ ASICS/TSENo dia 5 de outubro deste ano, 21,6 milhões de eleitores votarão nas urnas biométricas. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil


Rinoceronte Cacareco

O rinoceronte Cacareco foi destaque na imprensa após ser emprestado por seis meses pelo Rio de Janeiro para a inauguração do Zoológico de São Paulo, em 1959. Segundo os jornais da época, o sentimento de insatisfação com políticos e candidatos a vereadores da capital paulista dominava a população.

Reprodução/Folha da Manhã
Reprodução do jornal Folha da Manhã sobre a candidatura de Cacareco, em 1959

Como uma brincadeira, o jornalista Itaboraí Martins do jornal "O Estado de São Paulo" lançou a candidatura do rinoceronte, que era fêmea, apesar do nome masculino. Milhares de cédulas eleitorais foram impressas em gráficas com o nome do bicho como parte da intervenção. E o resultado foi estrondoso. Cacareco conquistou quase 100 mil votos nas eleições.

Um fato interessante é que o rinoceronte não conseguiu comemorar a vitória nas urnas porque dois dias antes da eleição foi devolvido às pressas ao Rio. A curiosa eleição foi parar nas páginas da revista norte-americana "Time", que deu ênfase para as aspas de um eleitor: "É melhor eleger um rinoceronte do que um asno."

Macaco Tião

Anos depois, em 1988, o jornal "O Planeta Diário" e a revista "Casseta Popular" lançaram no Zoológico do Rio de Janeiro, na zona norte, a candidatura do chimpanzé Tião à Prefeitura da cidade. Os profissionais promoveram uma grande festa para libertar "o último preso político". Cantores da MPB, como Ed Motta, fizeram até um show de lançamento da candidatura do macaco como protesto já que o Brasil enfrentava um importante período de transição democrática pós-ditadura.

Reprodução/O Globo
Macaco Tião virou celebridade no Brasil e estava presente nas páginas dos jornais

Antes mesmo da candidatura inusitada, Tião ganhou fama pelo seu temperamento ruim. Chamado de mal-humorado, ele foi parar nas páginas dos jornais após atirar fezes e lama nos visitantes do zoológico - até o ex-prefeito Marcello Alencar foi alvo do animal.

Estima-se que o Macaco Tião tenha recebido naquele pleito mais de 400 mil dos votos dos eleitores, alcançando o que seria equivalente ao terceiro lugar entre 12 candidatos. Com 1,52 de altura e 70 kg, ele virou uma celebridade no Brasil. E o feito foi parar no "Guinness World Records" como o chimpanzé a receber mais votos no mundo.

Tião morreu de diabetes em 23 de dezembro de 1996, aos 34 anos. Foi decretado luto oficial de três dias no município do Rio de Janeiro.

Prefeito mosquito

No final dos anos 80, a cidade de Vila Velha (ES) enfrentou uma invasão de Aedes Aegypti, o mosquito transmissor da dengue. Com as eleições municipais chegando, moradores encontraram uma oportunidade para protestar contra a ineficiência do poder público, que não conseguiu evitar o aumento dos focos de mosquito na cidade.

O dia 14 de dezembro de 1987 ficaria marcado então como um dos maiores micos da política pela bem sucedida candidatura do "mosquito" à Prefeitura de Vila Velha. Ao todo, o nome do candidato inusitado foi escrito por 29.668 eleitores nas cédulas eleitorais depositadas nas urnas. Os outros candidatos, Magno Pires da Silva e Luiz César Maretto Coura, conquistaram 26.633 e 19.609 votos, respectivamente.

Apesar do favoritismo, "mosquito" teve todos os votos anulados pela Justiça Eleitoral do Espírito Santo, que proclamou o segundo colocado como prefeito de Vila Velha. Silva tomou posse no dia 18 de dezembro do mesmo ano e mostrou que entendeu o recado das urnas, promovendo ações de combate à doença. O caso foi divulgado pela imprensa como a mais surpreendente manifestação política do Estado.

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