Entidade recebeu R$ 14,4 milhões de campanhas do PSDB desde 2010; neste ano, presta serviços também ao PSD

Matarazzo diz desconhecer a servidora
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Matarazzo diz desconhecer a servidora

Além de um assessor do secretário de Transportes, a cooperativa Mult Service - que atua na campanha de Geraldo Alckmin (PSDB) à reeleição e recebeu R$ 14,4 milhões de candidaturas do partido desde 2010 - teve entre seus quadros pelo menos mais uma funcionária de um gabinete do governo do tucano.

Leonara Catarna, atual ouvidora do Instituto de Pesos e Medidas do Estado de São Paulo (Ipem-SP), foi nomeada para o cargo comissionado de assistente técnica do gabinete da secretaria de Estado da Cultura em 2011. Na ocasião, a pasta era ocupada por Andrea Matarazzo, hoje vereador do PSDB na capital.

Mais: Cooperativa ligada a membro do governo de SP recebeu R$ 732 mil de Alckmin, Aécio, Serra e Kassab

A ouvidora consta de uma lista de cooperados apresentada pela Mult Service à Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp) em 2011, juntamente com a ata de uma assembleia geral ordinária realizada em 30 março daquele ano. A data indicada na listagem, 30 de março de 2010, parece um erro de digitação, pois não houve assembleia geral ordinária nesse dia.

Ao iG , o vereador disse que não lembra de Leonara e também negou saber que ela tenha atuado na cooperativa. "Nem sei quem é para te ser bem sincero", afirma Matarazzo, ressaltando que não usa o serviço de cooperativas em suas campanhas.

Veja imagens da campanha de Geraldo Alckmin ao governo de SP: 

Segundo Waldir Mathias, presidente da Mult Service, Leonara deixou a cooperativa - ele não soube precisar quando - e disse acreditar que ela não tenha trabalhado concomitantemente no governo e na campanha. Mathias nega também que a presença da funcionária tenha relação com a obtenção de contratos com o PSDB

"As pessoas entram porque elas querem na cooperativa", defende Mathias. A reportagem tentou falar com Leonara, mas o Ipem-SP informou que ela está em licença médica até a próxima quinta-feira (18).

Criada em 2009, a Mult Service teve como um de seus conselheiros administrativos Fernando Maruyama, assistente do atual secretário de Transportes e Logística, Clodoaldo Pelissioni. Ele diz ter deixado entidade em março de 2012.

Como o iG mostrou, a Mult Service tem sido contratada desde 2010 por candidaturas - sobretudo do PSDB - para prestar serviços que incluem atividades descritas como de "militância", como realização de bandeiraços e distribuição de panfletos.

Naquele ano, a cooperativa recebeu R$ 7 milhões. Quase a totalidade veio do PSDB: R$ 4,9 milhões foram pagos por José Serra e R$ 1,5 milhão, por Geraldo Alckmin, candidatos do PSDB à Presidência da República e ao Governo do Estado, respectivamente. Em 2012, Serra pagou R$ 7,5 milhões à cooperativa na candidatura à Prefeitura de São Paulo.

Nesta eleição, a Mult Service recebeu R$ 174,5 mil da campanha de Alckmin à reeleição, R$ 210,4 mil da de Serra ao Senado, R$ 56,1 mil da de Aécio Neves à Presidência e R$ 291 mil da de Gilberto Kassab - vice de Serra na Prefeitura de São Paulo - também ao Senado.

Contratação não é ilegal, mas pode haver irregularidade trabalhista

A contratação de empresas ou cooperativas ligadas a funcionários públicos para atuarem em campanhas não é ilegal, segundo advogados eleitorais ouvidos pela reportagem.

"Não tem impedimento, em se tratando de contas de campanha [ e não de governo ]", diz o advogado João Fábio Silva da Fontoura. "[ Mas ] fica estranho explicar."

Maria Silvia Salata também avalia que, em princípio, a contratação é regular. "Se o serviço prestado estiver dentro do rol do que é permitido, não vejo problemas", avalia a advogada.

O Ministério Público do Trabalho (MPT), por outro lado, vê irregularidade no uso de cooperativas para prestar serviços como os oferecidos pela Mult Service. Para o procurador do Trabalho Charles Lustosa Silvestre, as campanhas deveriam contratar diretamente os funcionários.

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