Com discurso da nova política, candidata do PSB ataca o modelo de coalizão da gestão da atual presidente

A candidata do PSB à Presidência da República, Marina Silva , investe no discurso da “nova política”, que nada mais é que a negação do sistema político instalado no Brasil há mais de 20 anos, definido como governo de coalizão. A presidente Dilma Rousseff , candidata à reeleição pelo PT, tem procurado desconstruir os argumentos de Marina. Dilma defende a manutenção do modelo que sustentou seu mandato e de seus dois antecessores: Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso.

Marina Silva e Dilma Rousseff têm visões diferentes sobre as agremiações políticas no Brasil
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Marina Silva e Dilma Rousseff têm visões diferentes sobre as agremiações políticas no Brasil

Nesse contexto, Marina aposta em uma reforma política com viés de enfraquecimento dos partidos. Para ela, a reforma é uma maneira de inibir o que chama de “toma lá dá cá” na relação entre os poderes Legislativo e Executivo.

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“Sob o pretexto de buscar condições estáveis para a governabilidade e a gestão da máquina pública, desde a redemocratização, o presidencialismo de coalizão esconde uma lógica viciosa de acordos de bastidores e distribuição de cargos e vantagens. Pratica-se o loteamento do Estado em troca de apoio parlamentar e tempo de propaganda eleitoral”, aponta o programa de governo de Marina.

No documento, a ex-senadora listou medidas que ela gostaria de ver aprovadas como a possibilidade de inscrição de “candidaturas avulsas” para cargos proporcionais, ou seja, pessoas não filiadas a nenhuma legenda poderiam se candidatar aos cargos de deputado federal, estadual ou a vereador, “mediante atendimento de requisitos a definir”.

O próprio conceito da proporcionalidade, que determina que o mandato de um deputado federal ou estadual, ou mesmo de um vereador, pertence ao partido, é colocado em cheque pelas propostas de Marina. Para ela, é necessária “a adoção de novos critérios na definição da ordem dos eleitos para cargos proporcionais buscando aproximação da Verdade Eleitoral, conceito segundo o qual os candidatos mais votados são os eleitos”, diz o texto.

Dilma, por sua vez, tem investido no questionamento dos pontos propostos por Marina e a avaliação da campanha é que o embate da presidente com sua adversária tem surtido efeito. Sem a divulgação de um documento detalhado sobre seu programa de governo, em entrevistas ou em inserções na TV, Dilma tem se posicionado fortemente em favor dos partidos.

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“Eu tenho uma visão diferente. Eu não acho que a democracia possa prescindir de partidos. Toda vez que a democracia prescindiu de partidos nós caímos em profunda ditadura”, disse a presidente agora, na campanha, e no ano passado, em meio às manifestações que ganharam as ruas das principais cidades brasileiras. Os protestos foram marcados por forte rejeição ao sistema partidário.

Com propostas como essa, entre outras, é que Marina tem angariado apoio dos insatisfeitos com a política, com os partidos e com os políticos, inclusive de eleitores que participaram das manifestações de junho do ano passado.

Na opinião do cientista político da Fundação Getulio Vargas, Cláudio Gonçalves Couto, Marina captou a simpatia desse público, mas vem perdendo votos na medida em que seu discurso de nova política é mais de “negação” do que “propositivo”. “Ela diz o que não deve ser, mas não diz o que deve ser”, explicou.

Veja imagens dos presidenciáveis em campanha:

Couto ressalta que a candidata do PSB passou a recuar nas pesquisas no momento em que demonstrou “inconsistências”. Um dos problemas apontados por ele no discurso de Marina refere-se ao papel dos Poderes. “Marina esquece que o Legislativo é um poder e é preciso respeitá-lo com o poder que ele tem. Isso realmente é um problema no discurso da nova política. Não adianta ter propostas se há uma maioria no Congresso que vete suas ações”, avaliou.

Couto aponta que Dilma é a candidata da manutenção do modelo. “Este sistema político não é uma característica do governo dela. Ele funcionou com Fernando Henrique Cardoso, com Lula e com Dilma”, ressaltou.

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Marina tem tentado driblar as dificuldades do discurso e a perspectiva de falta de apoio político com a ideia de buscar em todos os demais partidos “os bons” para poder governar. Na opinião de Couto, este discurso também é inconsistente.

“Este não é um discurso crível? Quem são os bons? Quantos bons existem em cada partido?”, questiona.

Com isso, Marina também virou alvo de Dilma neste quesito. “Isso não se sustenta diante da realidade. Quem é que vai governar com os maus? Até porque os critérios de bom e mau são variáveis. Todo mundo quer governar com os bons”, repetiu a presidente em conversas com jornalistas.

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