Neca Setubal relembra como conheceu Marina Silva e diz que há “preconceito” contra bancos no Brasil

Foi só depois de quase uma hora de espera no comitê eleitoral do PSB, em São Paulo, que Maria Alice Setubal (63), a Neca Setubal, recebeu a reportagem do iG para um entrevista. A educadora e coordenadora do programa de governo da presidenciável Marina Silva (PSB) dispensava uma jornalista que apareceu sem marcar hora enquanto sua assessora tentava demover a reportagem de fazer perguntas sobre o banco Itaú, do qual a entrevistada é herdeira.

Neca Setúbal, no centro:
Arquivo pessoal
Neca Setúbal, no centro: "impactada" ao conhecer Marina Silva

O pedido surpreendeu não só a reportagem, mas a própria Neca, que esboçou espanto. Serena, falou sobre tudo: disse que o mercado financeiro não é convidado nem para suas festas de aniversário, uma vez que, segundo ela, jamais participou das decisões do Itaú. “Sou acionista, mas minha carreira é com educação”, diz Neca, que usou sua experiência para contribuir com o programa eleitoral de Fernando Haddad, do PT, partido que hoje relaciona Neca à decisão de Marina Silva de apoiar a independência do Banco Central. “Lamento que as pessoas tenham essa visão. Os educadores têm postado manifestações de apoio no meu Facebook.”

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Neca, que conheceu Marina em uma palestra em 2009, não entende porque os bancos foram tão criticados durante as manifestações. “Talvez tenha um preconceito em relação a eles.”

Leia abaixo a entrevista completa:

iG – Como é ter sido a única filha em uma família tão tradicional?

Neca Setubal – Não me enquadro em uma família tradicional. Meu pai (Olavo Setubal) foi uma pessoa aberta, de diálogo. Ele sempre respeitou diferenças e nunca me senti cerceada em termos de posições políticas ou caminhos tomados na vida. Minha mãe era ligada às artes. Ela morreu muito jovem, aos 52 anos, quando eu tinha 26. Ela era ligada à música, pintava, desenhava. Adorava contar na mesa do almoço sobre o que tinha acabado de ler. Fui estudar em uma escola experimental de freiras. Elas eram jovens, modernas, que seguiam a teologia da libertação. Tive uma educação muito mais aberta do que a maioria das pessoas tem.

iG - A senhora foi militante do MDB nos anos 70, quando seu pai era prefeito de São Paulo indicado pela ditadura. Isso não trouxe dificuldade na relação?

Neca -  Não era um problema. Ele era uma pessoa liberal no conceito político do termo, e respeitava as diferentes posições. Enquanto esteve bem de saúde, convidava políticos de vários partidos, inclusive do PT, para almoçar com ele no banco Itaú, onde debatia ideias.

iG – Qual é a participação da senhora nas decisões do Itaú?

Neca – Sou acionista e pertenço a uma das famílias controladoras do banco. Nunca exerci nenhum cargo ao longo da minha vida, nunca participei do conselho executivo, só do conselho consultivo do Itaú Social. Nunca respondi pelo banco em nenhum momento, nem tenho esse mandato. Não me vejo dentro dos rótulos que tentam me colocar. Sou muito serena nisso. Tenho uma trajetória que está aí. É só dar um Google e ver que não participo das decisões do Itaú, não participo das reuniões, não frequento o mercado financeiro. Não vai encontrar uma reunião na minha casa que tenha tido o mercado financeiro, no máximo a minha família, a família Vilela, que é acionista também e temos uma relação próxima de parentesco, inclusive. Não é que eu tenha alguma coisa contra o mercado financeiro. É que simplesmente a minha trajetória é outra. Fiz um almoço no meu aniversário este ano, eram 60, 80 pessoas, e não havia ninguém do mercado financeiro, a não ser meus irmãos. Não preciso esconder nada. Essa é a minha vida. Tenho vários prêmios, livros publicados na área da educação, nunca fiquei alardeando isso porque não preciso.

iG – Por que os bancos se transformaram no vilão do capitalismo?

Neca – Não sei, talvez tenha um preconceito em relação aos bancos, um certo estigma em relação aos bancos que ocorre ao longo dos anos. Tinha de perguntar para quem faz isso.

iG – A senhora tem uma opinião formada a respeito da autonomia do Banco Central?

Neca – Junto com Maurício Rands, sou a responsável pela coordenação do programa de governo, que não reflete a minha opinião ou a do Maurício. Ele é fruto de uma participação intensa da sociedade e de uma coligação de partidos. Não sou especialista em economia. Nesse capítulo sobre economia, não tive nenhuma participação a não ser na leitura final para arredondar o texto.

iG – A campanha adversária vem dizendo que a senhora é a ligação da Marina Silva com os banqueiros. Como a senhora se sente estando no meio de uma guerra entre dois candidatos a presidente?

Neca – Sou uma pessoa que está ao lado de uma candidata com chances de chegar à Presidência da República. É natural que tenha de prestar contas. Sou uma pessoa mais discreta, mais na minha. Lamento que as pessoas tenham essa visão, mas também sou reconhecida pelos educadores que me conhecem e que têm postado manifestações de apoio no Facebook. Lamento porque não faz sentido eu ser o alvo da campanha do PT. É desproporcional ele buscar atacar Marina com a minha pessoa.

iG – Qual a sua trajetória profissional?

Neca – Me formei na USP em Ciências Sociais, fiz mestrado em Ciência Política e um tempo depois fiz um doutorado em psicologia da Educação na PUC. E fui dar aula. Fui professora da Universidade Mackenzie, depois no colégio Santa Cruz. Dei vários cursos pequenos na PUC e em outras instituições. Quando estava com filhos pequenos, criei uma pré-escola e assumi uma classe de alfabetização porque estava muito fascinada pelas teorias construtivistas. Em 1987, criei o Cenpec (Centro de Pesquisa em Educação e Cultura), uma ONG que trabalha com projetos encomendados por várias instituições, como Ministério da Educação, secretarias estaduais, municipais, fundações empresariais e órgãos internacionais, como o Unicef.

iG – Foi por isso que a senhora foi chamada a ajudar na campanha a prefeito de Fernando Haddad (PT)?

Neca – Sim. Gosto muito do Fernando Haddad, o admiro. Hoje em dia não consigo acompanhar sua gestão à frente da Prefeitura, mas destaco o plano diretor que ele fez para a cidade. Um plano avançado, que pela primeira vez tem um olhar de futuro levando em conta as questões contemporâneas.

iG – Por que não aceitou o convite para ser sua secretária de Educação?

Neca – Fiquei muito honrada com o convite, mas estava em um momento de vida que não podia aceitar. Admiro muito o Fernando pela gestão dele no Ministério da Educação. O Cenpec tem muitos contatos com o Ministério.

iG - Como a senhora conheceu Marina Silva?

Neca – A conheci em 2009 em uma palestra no Sesc Vila Nova (em São Paulo). Até aquele dia, a conhecia por jornal, revista. Naquele dia, estava sentada no auditório. Fiquei impactada com a visão que ela passou. Pouco depois, ela fez outra palestra que também me impressionou. Então comecei a participar de um movimento chamado Brasil Sustentável, que deu origem à candidatura da Marina em 2010. Fazia parte o Ricardo Young e o Guilherme Leal, que eu conheço desde os 18 anos. Ele me chamou para colaborar com o programa de educação. Então me aproximei dela.

iG – O que lhe chamou a atenção na Marina?

Neca – A forma como ela discursa. Ela começa muito mansa, baixinho. De repente, quando você se dá conta, aquela figura magra e pequena cresce tanto que a plateia fica completamente hipnotizada. Às vezes não é o conteúdo, é aquele carisma que envolve quem está ouvindo.

iG – A senhora fez doação para a campanha dela?

Neca – O que acontece é que o Estadão colocou em uma manchete que eu doei para “Marina e os aliados da Rede”. Não doei para Marina. Doei para o CNPJ da campanha do Eduardo Campos. Isso lá atrás, no começo da campanha. E doei para os candidatos da Rede.

iG – Dizem que a Marina é pouco objetiva em suas respostas. Isso não a aproxima da velha política, que raramente tem uma posição clara sobre assuntos polêmicos?

Neca – Não tem absolutamente nenhuma relação. Ela tem uma forma muito conceitual de apresentar suas propostas e acho que muitas vezes é objetiva. Depende do nível de pergunta. Mas ela tem uma objetividade de mostrar propostas concretas. O presidente da República tem de ter a capacidade de escolher bons gestores. Esses sim têm a responsabilidade de responder com números e detalhes.

iG – Não foi uma falha o programa de governo não citar o pré-sal?

Neca – Ele é citado em energia e nos royalties do petróleo para a educação. O que acontece é que o programa não foca apenas em pré-sal e petróleo. O foco está em buscar a diversidade da matriz energética do Brasil, um País com toda essa riqueza de recursos naturais, de água, sol, vento, cana de açúcar. Na verdade é uma forma de o PT descontextualizar o programa e dizer que a Marina é contra o pré-sal, o que não é verdade.

iG – Se a Marina vencer, a senhora será ministra da Educação?

Neca – Nunca discutimos cargos, nem no círculo mais próximo de Marina. Se passarmos para o segundo turno e a Marina for eleita, vou estar onde ela achar melhor.

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*Com Vitor Sorano

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