Partido deverá ter papel relevante em um governo da ex-senadora mesmo sem apoiá-la na eleição

Aécio Neves durante entrevista ao iG e à RedeTV! (12/09/2014)
Vitor Sorano/iG
Aécio Neves durante entrevista ao iG e à RedeTV! (12/09/2014)

A promessa de Aécio Neves  de que o PSDB , caso derrotado na eleição presidencial, será oposição a um eventual mandato de Marina Silva (PSB) - feita durante entrevista ao iG e à Rede TV! - é apenas jogo de cena eleitoral temporário, que talvez sequer sobreviva no segundo turno, avaliam cientistas políticos.

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Primeiro porque, na oposição, o PSDB seria eclipsado pelo PT . Além disso, os tucanos não podem perder a oportunidade de participar do governo do qual estão distantes há 12 anos, sobretudo se alguém com ideias parecidas assumir o comando.

“A declaração [ de Aécio ] é tão verdadeira quanto uma nota de R$ 3. Aécio não pode deixar de dizer que se opõe tanto a Dilma quanto a Marina”, diz Adriano Nervo Codato, professor de ciência política da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

A demarcação de território é necessária para evitar a imagem de que o tucano, que tem 15% das intenções de voto ante 33% de Marina e 36% de Dilma Rouseff (PT) , segundo o Datafolha, já assumiu a derrota. Isso levaria à desmobilização da militância e poderia comprometer o desempenho do PSDB nas disputas estaduais, avalia Marco Antonio Carvalho Teixeira, professor de ciência política e de políticas públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV).

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Teixeira lembra inclusive que, embora seja o atual presidente do PSDB, Aécio não terá autoridade para definir os rumos do partido em 2015 se fracassar na disputa pela Presidência e não vencer nem em Minas Gerais, seu Estado natal, onde com 22% dos votos está tecnicamente empatado com Marina, que tem 27% (Dilma lidera com 35%).

“Qual é a força que Aécio vai ter?”, questiona Teixeira. “Esse declaração [ de que não irá apoiar Marina ] está no bojo de quem quer mostrar que está no páreo e não vai jogar a toalha. O que se fala agora só tem sentido agora”, afirma o pesquisador. “O Michel Temer [ presidente do PMDB e vice-presidente da República ] também diz que vai para oposição. Você vê o PMDB na oposição?”

Para Maria do Socorro Braga, professora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e integrante da diretoria da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), Aécio pode desdizer a tese de oposição a Marina assim que o segundo turno entre ela e Dilma se mostrar inevitável. Ou seja, logo após o fechamento das urnas em 5 de outubro.

"Fazer isso [ reconhecer apoio a Marina ] no primeiro turno é entregar o jogo para as duas. Ele só fará isso na boca de urna do primeiro turno que aponte que ele está fora do segundo", diz.

Força eleitoral do PSDB e proximidade com Marina estimulam aliança

Num eventual governo Marina, o papel de oposição será naturalmente do PT - que terá sido apeado do poder após 12 anos. Já o papel de situação poderá - e deverá - ser partilhado pela candidata do PSB com outros partidos, em troca de apoio político.

O PSDB, uma das grandes siglas do País - domina 8,5% da Câmara dos Deputados, 13,6% do Senado, oito governos estaduais e mais de 700 prefeituras, segundo Codato, da UFPR -, é, também naturalmente, candidato ao posto.

“Marina precisará do PSDB, assim como do PMDB e de uma fileira de partidos nem um pouco virtuosos, para constituir uma maioria no Congresso, sem a qual não governa”, diz Codato, da UFPR. “Além do mais, os projetos de governo de Aécio e Marina são suficientemente parecidos a ponto de, uma vez a candidata do PSB vitoriosa, os dois poderem, no dia seguinte, simular uma ‘aproximação programática’, uma ‘convergência de ideias’, esse teatro todo.”

O cientista político lembra ainda que, para além do número de cargos executivos e parlamentares que ocupa, o PSDB possui uma forte base eleitoral, composta não apenas de antipetistas ou da alta classe média.

“E o PSDB tem programa político e econômico claros. Representa interesses reais e valores ideológicos específicos da sociedade brasileira. Ou seja, além de força política é uma força social. Nesse contexto, nem mesmo Marina Silva, com toda a sua pureza de intenções, pode abrir mão de um ator político como esse.”

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Também professor da UFSCar, o cientista político Pedro José Floriano Ribeiro avalia que Marina pode até mesmo decidir manter distância do PSDB durante o segundo turno, já que nem seria necessária uma aliança para convencer os eleitores tucanos a não votar em Dilma.  Mas isso não significaria que os tucanos vão ser mantidos longe de um eventual governo.

"Ter o PSDB ao lado no segundo turno seria tudo o que o PT gostaria. Ela [Marina] pode mais perder do que ganhar [ com uma aliança formal ]", afirma Ribero. "Num eventual governo, as conversas seriam iniciadas."

Participação no governo tucano poderia fortalecer legenda

O apoio parlamentar do PSDB a um eventual governo Marina resultará, forçosamente, no controle de ministérios, o que dará ao PSDB a possibilidade - que o partido não tem há 12 anos - de decidir “sobre coisas de fato grandes”, diz o professor da UFPR. A questão será não se, mas quanto poder os tucanos terão. A medida será dada pela relevância das pastas que vierem a ocupar, lembra Teixeira, da FGV.

Para Maria do Socorro, da UFSCar, o PSDB - ainda que saia mais fraco desta eleição - terá cacife para exigir participação em ministérios relevantes, como o do Planejamento ou da Fazenda, e não apenas em acessórios.

"O PSDB vai se manter como terceiro maior partido do País, ou mesmo pode vir a se tornar o segundo. Ele vai ter papel, sim, e vai querer assumir um papel preponderante. O PSDB ficaria como o PMDB é hoje para o PT", afirma.

A derrota em outubro, assim, estaria longe de significar um “tsunami político”, diz Codato, para o PSDB. E a participação no governo Marina pode ser um passo no sentido de um dia voltar ao governo federal. Teixeira lembra como a legenda exerceu, com ex-presidente Itamar Franco - que assumiu após a queda de Fernando Collor (hoje no PTB/AL) - um papel relevante na transição pós-impeachment, espécie de prelúdio para os oito anos de governo tucano (1994-2002).

“Ninguém imaginava que o Fernando Henrique Cardoso (FHC) [ ministro da Fazenda de Itamar ] pudesse vir a ser presidente do Brasil”, lembra o cientista político.

Nota da Redação: uma versão anterior desta reportagem informou incorretamente o nome da ABCP. O nome correto é Associação Brasileira de Ciência Política

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