Para jovem da periferia de SP, o que importa é qualidade de vida e não ideologia

Por BBC |

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BBC Brasil perguntou aos seus leitores em sua página no Facebook o que eles achavam de política e das eleições 2014

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Como os jovens de hoje veem a política e as eleições? Estão ou não entusiasmados em debater e ir às urnas em outubro?. A BBC Brasil lançou essas perguntas aos seus leitores no Facebook, e diversos jovens responderam. Muitos não se animam com a política tradicional, mas veem importância na participação política. Outros pedem renovação ao mesmo tempo em que opinam e se informam pelas redes sociais. Há ainda aqueles que lamentam os poucos avanços após os protestos de 2013, mas que estão, em geral, otimistas com o futuro.

Um deles é Paulo Carvalho, 18 anos, que mora com a família no Itaim Paulista (bairro no extremo leste de São Paulo). Ele estudou mais do que seus pais: fez um curso técnico no ensino médio e agora estuda Gestão Empresarial na faculdade, enquanto faz estágio. Nossa reportagem conversou com Paulo para entender melhor os anseios dele e dessa nova geração de eleitores:

Arquivo pessoal
Paulo ajuda o pai a se informar sobre política e vê melhoras no país, mas quer muito mais avanços


"O problema é que os políticos são muito individualistas. Ficam defendendo sua ideologia e tentando convencer as pessoas, em vez de trabalharem juntos.

Sigo política na internet – nas redes sociais, em sites e aplicativos de notícias. Também ouço as pessoas mais velhas comentarem. Elas têm mais experiência, viveram o que a gente não viveu, conhecem os muitos partidos e lutaram para que nós tivéssemos direitos.

Mas a gente é a juventude mais bem informada que já teve, graças à internet. Vemos a política de forma diferente. Disseminamos a informação de forma mais prática. O jovem não leva tudo muito a sério, mas compartilha (nas redes sociais).

Meu pai, por exemplo, não sabe mexer no smartphone e sempre me chama. Eu acabo falando: ‘baixa esse aplicativo que é muito legal, vê esse blog’. E eles (adultos) acabam tendo acesso a essa informação de forma diferente também, em vez de só ouvir alguém falando no telejornal.

Meu pai sempre foi petista. E eu rebatia: ‘mas lê esse blog’ (com outros pontos de vista). Ele lia e respondia: ‘Nossa, isso é verdade’. Ele conseguiu muita coisa: uma casa própria, um carro, nossos estudos. Mas não teve escolaridade, nem completou o ensino fundamental.

Em 2012, convenci ele a não votar no (Fernando) Haddad (atual prefeito de São Paulo). Falei para ele que São Paulo era governada pelo PSDB há muito tempo, que o PT ia pegar tudo do zero, que ele não teria apoio dos vereadores, que estava numa coligação estranha com o (Paulo) Maluf. Acabou não mudando muito, porque o Haddad foi eleito.

Acho que isso não aconteceria na geração (do meu pai): ele não tinha internet, a tecnologia era muito cara. Se meu pai é cabeça dura, imagina o pai dele. Na época dele, o importante era trabalhar na roça e só. Devia ser complicado mudar a cabeça de alguém assim.

Só que não acho que os jovens de hoje estejam ligando muito para política. Você vê muita impunidade, principalmente de políticos corruptos. Vejo muitos amigos que não dão a importância que deveriam aos cargos de deputado e senador.

E os políticos pensam que a gente (jovens) está entre o comunismo e o socialismo, entre esquerda e direita. Mas o que importa para mim é qualidade de vida – viver bem. Não ter só saúde e educação, mas melhores salários, saber que você vai fazer uma carreira.

Falta motivação, perspectiva. O jovem do ensino médio da periferia fala: 'para que serve a escola? E quando isso (a escola) acabar, vou fazer o quê? Estou estudando para depois trabalhar em telemarketing?'. Por isso muitos largam (os estudos) para arrumar um emprego no açougue ou na oficina do pai.

(Nos bairros centrais de São Paulo) há mais perspectiva, essa é a grande diferença. Temos muitas aulas, não é que sejam ruins. Mas não temos tanto incentivo.

Se houve melhora? Sim. Se olharmos para trás, avançamos muito. Meu irmão e eu estamos estudando, e meu pai não estudou. A saúde é ruim, mas vai melhorando. A gente teve conhecimento, está lutando e conseguindo avançar, e isso leva mais de uma geração.

Sou sempre otimista. Nós e os nossos filhos vamos escolher melhor. Meu filho vai ter uma vida melhor que a minha."

Depoimento concedido a Paula Adamo Idoeta, da BBC Brasil em São Paulo.

Leia tudo sobre: eleições 2014

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