Aparência de candidato ainda vale pontos na hora do voto

Por Ana Flávia Oliveira - iG São Paulo |

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"Estamos na sociedade da aparência, que é um aspecto crucial e determinante nas relações", diz sociólogo

Terno bem cortado, barba e cabelo bem aparados e aparência bem cuidada. Estes itens, que podem transmitir imagem de confiança e competência, ainda contam na hora da escolha do voto. Segundo estudo do psicólogo Alexander Todorov, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, eleitores formam uma opinião sobre o candidato antes mesmo que ele abra a boca, apenas pela imagem de seu rosto.

Todorov pediu a cerca de mil voluntários que avaliassem fotos de algumas pessoas e julgassem a competência delas. Sem saber que as imagens eram de candidatos ao Senado americano em 2002 e 2004, as respostas coincidiram com os resultados das eleições entre 66% e 73% dos casos.

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A partir desse experimento, Tudorov concluiu que os eleitores escolhem os candidatos baseados em impulsos que são despertados pela aparência, e não apenas competência política ou currículo.

O cenário pesquisado nos Estados Unidos encontra paralelo em terras brasileiras. Marcos Tarcísio Florindo, sociólogo e professor de Política na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, diz que a aparência é um dos elementos mais importantes para a formação do voto no Brasil. Ele vê o papel da TV e a falta de interesse político de uma grande parcela da população como os principais motivos para que a imagem do candidato ganhe um peso maior na hora da escolha na urna.

“No senso comum, a política é vista como vexatória. Cria-se a ideia de que um político é mais ou menos igual ao outro e o eleitor não submete seu voto ao senso crítico. Estamos na sociedade da aparência, que é um aspecto crucial e determinante nas relações sociais”, diz.

Alice Vergueiro / Futura Press
A presidente e candidata Dilma Rousseff (PT)
Alice Vergueiro / Futura Press
Marina Silva, candidata à Presidência pelo PSB

A sociedade da aparência a que Florindo se refere é explicada com didatismo pelo psicólogo especialista em Comportamento e Desenvolvimento humano Aurélio Melo: é o tempo em que as pessoas valorizam a embalagem e não o conteúdo.

Alice Vergueiro / Futura Press
Aécio Neves, candidato do PSDB à Presidência

“A gente se relaciona mais e mais com a imagem das coisas do que com as coisas. As pessoas constroem uma imagem que é como se fosse uma embalagem de um produto que atende a um determinado público. No caso dos políticos, o eleitor”, afirma Melo.

Ele explica que aparência não tem relação necessariamente com o fato de o candidato ser bonito ou feio. “A escolha [do voto] é sempre a partir de persona, que é a imagem construída pelo candidato, não tem a ver com as ligações políticas, o passado e com as coligações. Isso só chega a [influenciar] um público menor. O primeiro impacto para a maior parte é sempre o da aparência, no sentido de algo construído. Não necessariamente do bonito ou feio”.

Além disso, diz o psicólogo, entram na conta da escolha do voto fatores subjetivos, ligados muitas vezes com o emocional de cada eleitor. 

Esses aspectos podem ajudar a explicar o salto de Marina Silva (PSB). Ela, que entrou na disputa após a morte trágica em um acidente aéreo de seu companheiro de chapa Eduardo Campos, tem 33% das intenções de voto e está empatada tecnicamente com a presidente Dilma Rousseff (PT), que tem 37%. Aécio Neves (PSDB) aparece em terceiro, com 15%. Os números são da pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira (3). Campos oscilava entre 6% e 9% antes de morrer.

"As pessoas pensam que ela poderia estar no avião, que escapou tragédia por causa do destino. As pessoas tendem a se identificar com as vítimas", diz o psicólogo Aurélio Melo.

Obviamente não é apenas de aparência que vive o candidato. Histórico de seus trabalhos, alianças políticas e programas de governo contam na decisão do voto.

Pesquisa Ibope: Dilma vai a 37%, Marina a 33% e Aécio cai para 15%

“As pessoas vão analisar a origem do candidato, formação, histórico e confiabilidade para nos conduzir para um projeto de País. A questão da imagem é convincente apenas em um determinado momento”, diz Adolpho Queiroz, professor de Marketing Político da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Ele exemplifica com a história do ex-presidente Fernando Collor de Melo, que teve a candidatura associada à imagem de "caçador de marajás", jovem e esportista, e renunciou após denúncias de corrupção levarem o Congresso a pedir a cassação do seu mandato. "A questão da imagem se mostrou ineficiente para que o Collor concluísse o mandato." 

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