Com caixa apertado, candidatos fazem campanha até no boteco

Por Marcel Frota - iG Brasília |

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Falta de recursos e oportunidade de aproximação num ambiente descontraído e cordial leva postulantes a diversos cargos a buscar votos em áreas boemias

O biólogo Erico Grassi (PSB-DF), 34 anos, conversava na companhia de duas pessoas num bar da Asa Norte, em Brasília. Sobre a mesa, alguns papeis e o inseparável carimbo de campanha. Acabou surpreendido por um desajeitado cliente que esbarrou em sua mesa chamando a atenção dos três. Antes mesmo que o sujeito se afastasse pedindo desculpas, Grassi se apressou a dizer em tom cordial que desculpava, desde que o rapaz aceitasse um panfleto. Os bares têm sido cada vez mais usados durante as campanhas eleitorais como palco da busca por votos. Os benefícios são o baixo custo da operação, eleitores relaxados e a oportunidade de conversar sobre suas propostas de forma personalizada.

Grassi é candidato a deputado distrital e com criatividade e uma dose saudável de oportunismo tem revertido a dificuldade de fazer campanha com poucos recursos. Além de usar o verso de papeis já usados por empresas para fazer seus panfletos, utiliza um carimbo personalizado para transformar material que iriam para o lixo em seus santinhos de campanha. Com esse marketing, procura convencer os eleitores de que seu discurso de sustentabilidade é para valer. E é no bar que Grassi encontrou a oportunidade de se aproximar dos eleitores.

Candidato Erico Grassi no balcão do bar. Foto: DivulgaçãoCandidato e o seu carimbo de campanha, que permite transformar material que iriam para o lixo em seus santinhos . Foto: DivulgaçãoCandidato afirma que a campanha em botecos vai até a meia noite. Foto: DivulgaçãoNeymar cover faz campanha nos bares da vila Madalena, em São Paulo. Foto: DivulgaçãoSósia do jogador Neymar que também é jogador de futebol, diz que decidiu entrar para a política depois de sofrer nas mãos de alguns clubes . Foto: Divulgação

“É um lugar em que consigo dialogar bem”, resume ele. O candidato revela que usa a explicação sobre o panfleto incomum para quebrar o gelo com as pessoas. Grassi diz que gasta de 3h a 4h horas por dias fazendo campanha em bares do Plano Piloto, em Brasília. Ele diz que sua permanência em determinado bar depende muito da receptividade das pessoas. “Há bares em que passo uma hora conversando. Em outros, quando sinto que não tem o perfil adequando para essa abordagem, fico rápido”, conta o candidato.

Até meia-noite
Mas um ambiente descontraído, informal e regado a eventuais doses de bebidas alcoólicas pode ser potencialmente perigoso para aspirantes a deputado. Grassi diz que já foi hostilizado em suas andanças pelos bares de Brasília. “Já aconteceu. Os caras olham e dizem: ‘quero ver se depois de eleito você vai continuar a ser assim humilde. Já teve gente que pegou meu panfleto e amassou e jogou no chão, na minha frente. Em função da imagem dos políticos, me surpreende até quando sou bem tratado”, afirma ele. Grassi diz que a abordagem é o momento mais delicado. Ao revelar suas intenções eleitorais, muitas vezes paga o preço do descrédito da classe política e acaba tendo de lidar com essas saias justas.

Apesar disso, assegura que consegue reverter boa parte dos casos de antipatia com sua presença depois de uma boa conversa à mesa. Garante que alguns entram num clima de descontração e brincam com seu carimbo, aplicando a tinta pelo corpo. Perto da meia-noite, entretanto, Grassi encerra a panfletagem. Ele prefere cautela diante do crescimento do nível alcoólico do público. “Bêbado pode ser legal, engraçado, ou uma coisa ruim. Então tem aqueles que te pegam, ficam conversando, nem te deixam ir embora, é divertido até. Mas também tem aqueles que ficam agressivos. Faço campanha sozinho, porque é melhor em função da mobilidade. Por outro lado, estou sempre sozinho e se algo acontece…”, explica ele.

Outro que recorreu aos bares em busca de voto foi Sergio Maiden, candidato a deputado federal pelo PSOL. Andando com um microfone e uma caixa de som acoplada à cintura, ele diz que esta foi a forma encontrada para compensar o caixa apertado. "Eu vendi minha moto por R$ 4 mil e este é todo o dinheiro que tenho para fazer minha campanha", explica, repetindo que seu partido não aceita doações de empresas privadas e, por isso, não consegue ajudá-lo com recursos.

Maiden estava na última sexta-feira em um bar da Asa Sul, em Brasília, entregando santinhos de mesa em mesa. Segundo ele, o clima descontraído dos bares ajuda na abordagem dos eleitores.

Neymar Cover

Danilo Pereira Nicanor (PV-SP), 21 anos, virou uma referência no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, durante os jogos da Copa do Mundo. Sósia do jogador Neymar, Nicanor, que também é jogador de futebol, diz que decidiu entrar para a política depois de sofrer nas mãos de alguns clubes e até ficar sem receber. “Quero tentar mudar essa realidade do esporte”, conta o candidato. Diante de sua popularidade no bairro durante os jogos da Copa, nada mais natural do que voltar ao mesmo lugar para conquistar as pessoas de outra foram, agora como político.

Em suas passagens pelos bares da região, atrai olhares e é frequentemente requisitado para fotos. Tira várias fotos. Ele revela, porém, que usar a imagem de Neymar e se apresentar como sósia gera cobranças das pessoas. “As pessoas estão meio receosas com a classe política. Então às vezes me me falam: ‘Ah, Neymar? Me diz o que que o Neymar vai fazer pela gente’”, declara ele, revelando que nem tudo é descontração nessa jornada pela boemia em busca de votos.

Por outro lado, Nicanor diz que a figura de Neymar também gera simpatia e muitos clientes se empolgam com sua chegada. “Nos bares, muitos apoiam, dizem que vão votar no Neymar. Nunca fui hostilizado, nunca passei por isso. A maioria das vezes sou bem recebido. Basicamente quem gosta, se aproxima e quem não gosta nem chega perto”, afirma ele. O candidato diz que, às vezes, vira alvo também dos clientes mais empolgados. “Tem brincadeiras, essas coisas, mas sempre levo na esportiva”, diz Nicanor, que também destaca os benefícios da estratégia para aqueles que não tem muito dinheiro para fazer campanha.

Mais experientes

Não são somente os mais jovens candidatos que optam por uma abordagem descontraída com os eleitores em ambientes menos ortodoxos. Políticos experientes também optam por essa estratégia. Um deles, já famoso por suas panfletagens em lugares variados é o deputado Reguffe (PDT-DF). “Faço campanha em todos os lugares. Isso desde minha primeira campanha. Parada de ônibus, entrada de escola, de faculdade, restaurante e bares”, diz Reguffe, que disputa uma vaga no Senado.

Ele diz que a opção pela panfletagem em locais como bares e restaurantes é a campanha que considera correta. “É o que acho correto. A pessoa fazer seu panfleto, com suas ideias, escrever o que pensa e ir para a rua conversar”, diz Reguffe. Ele afirma que, em geral, as pessoas o tratam com carinho. Seu método é ir de mesa em mesa, pedindo licença e conversando sobre suas propostas. “Hostilidade não. A maioria trata bem, um ou outro pode estar cansado ou não querer conversar e eu respeito. Mas em geral, chego, sempre pergunto, explico e deixo panfletos”, resume ele.

Outro tradicional frequentador da Vila Madalena que aproveita suas passagens pelo bairro para prospectar eleitores é o deputado federal Penna (PV-SP). No último domingo, Penna foi assistir a um jogo de futebol em um bar da região e acabou abordado várias vezes. Ele diz que, naquele dia especificamente, sua presença ali não era pela campanha, mas admite que isso acaba fomentando o esforço eleitoral. “É sempre bom. Quem é visto é lembrado”, declara ele, que destaca também o aspecto financeiro da operação. “Campanha com pouco dinheiro tem de ser assim, gastando sapato”, diz.

Penna garante que nunca foi hostilizado em suas andanças pelos bares, mesmo em plena campanha. “O que me dá a ilusão de que todos gostam de mim. Ou fingem muito bem”, brinca ele. Penna diz acreditar que seu partido tem uma boa receptividade do público e por isso não sofreria rejeição ou hostilidades significativas dos eleitores nos bares. O verde revela que até o dia da eleição pretende promover duas grandes noites de campanha pela Vila Madalena. Segundo ele, a proposta é reunir um grupo de candidatos do PV, cabos eleitorais e amigos e sair pelo bairro panfletando de bar em bar, de mesa em mesa.

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