Impugnado, Arruda faz campanha à base de reza e sob xingamentos de ‘ladrão’

Por Wilson Lima - iG Brasília |

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Ex-governador do DF diz que hostilização vem de um eleitor a cada dez e é alimentada pela oposição; veja vídeo

Mesmo com seu registro de candidatura ao governo do Distrito Federal (GDF) negado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o ex-governador José Roberto Arruda (PR) segue normalmente em campanha. Uma campanha com poucos assessores e cabos eleitorais. Nas caminhadas quase solitárias, ele pede prece aos seus eleitores, ouve gritos de “ladrão” de outros e pede voto até para repórteres.

Arruda teve seu registro de candidatura negado por aplicação da Lei da Ficha Limpa, após a 2ª Câmara Criminal do Distrito Federal confirmar sua condenação pelo crime de improbidade administrativa, por envolvimento no mensalão do DEM. O esquema de corrupção foi desarticulado pela Polícia Federal em 2009, durante a Operação Caixa de Pandora. Na época, o iG antecipou os principais momentos da operação. Arruda promete recorrer no Supremo Tribunal Federal (STF) e no próprio TSE para continuar candidato.


Nas suas caminhadas pelo Distrito Federal, Arruda já fez um pouco de tudo. Regeu orquestra de música, comeu pastel em feira popular, engraxou sapatos em centros comerciais e até discursou em um palanque improvisado. Mais precisamente uma caixa de madeira. Suas caminhadas têm pouca gente em volta. Apenas poucos assessores e cabos eleitorais integram a chamada “comitiva verde” nas cidades de Brasília. Normalmente, uma comitiva que gira entre 10 a 15 pessoas. Sempre que pode, Arruda também evita o assédio da imprensa.

Mais sobre o caso: Arruda diz ter ‘fé na Justiça’ mas começa a articular plano B

“Mas eu, quando posso, gosto de andar sozinho. Às vezes digo que vou para uma cidade, mas vou para outra para poder ficar o máximo de tempo sozinho. Se eu ando sozinho, as pessoas são mais diretas comigo, as pessoas falam com franqueza o que elas sentem. Eu conheço os reais problemas da cidade porque eu não fico cercado por ‘puxa-saco’. Eu ando como um cidadão comum e ouço as pessoas”, explica Arruda.

Impugnação e fé

O assunto impugnação quase passa despercebido nas caminhadas do ex-governador. Arruda não se dá o trabalho de explicar aos eleitores que, por decisão do TSE, está impedido de concorrer. No geral, fala apenas em perseguição e que o eleitor pode “ficar tranquilo”, que “poderá votar no Arruda”. O ex-governador ainda afirma: “querem impedir o trabalho que já fiz no Distrito Federal”.

Os eleitores, muitas vezes, se contentam com a resposta. Um ou outro ainda pergunta para os assessores por qual motivoArruda ainda faz campanha se “na internet, tudo mundo diz que ele não é mais candidato”. Os assessores confirmam apenas a tese de Arruda, de que ele pode ser “votado normalmente”.

“Eu nem chego a ter que explicar. O povo é muito mais sabido do que vocês imaginam. A nossa população mais humilde tem mais sabedoria até do que certos setores da nossa elite. Eles acompanham a coisa com muito mais naturalidade”, afirmaArruda.

Agência Brasil
José Roberto Arruda, candidato PR ao governo do Distrito Federal


Apesar do otimismo das palavras, a apatia da campanha é flagrante. Arruda tem um semblante abatido e cansado. Na última quarta-feira (27), emocionou-se a falar sobre o indeferimento de sua candidatura a correligionários na sede do PR. Arrudapede constantemente orações aos seus eleitores. Quase como se pedisse um milagre a essa altura da campanha. A questão é que especialistas em Direito Eleitoral ouvidos pelo iG confirmam que, de fato, “apenas um milagre” salva a candidatura de Arruda.

Devoto de Nossa Senhora Aparecida, Arruda sempre usa um broche da santa no bolso. Os pedidos de orações dos eleitores, no geral, são acompanhados com mais promessas de campanha. Como melhorias na saúde, no transporte público ou a regularização fundiária de algumas áreas próximas às cidades satélites de Brasília. Esse tem sido o maior pedido dos eleitores de Arruda.

Provocações

Pela rua, Arruda ouve gritos de “ladrão” de um ou outro eleitor, fruto do período em que ele foi preso, em 2010, durante exercício do mandato após decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) por envolvimento no mensalão do DEM.

Na sexta-feira dia 22 de agosto, na Feira dos Importados, em Brasília, duas eleitoras discutiram a ética do ex-governador. Uma opositora classificou Arruda como “corrupto”. Outra, ao defender o candidato do DEM, dizia apenas que, “ladrão por ladrão, pelo menos Arruda fez alguma coisa pela gente”. “As pessoas têm a opção em quem escolher. Mas votar em alguém que comprovadamente foi preso por corrupção é dar brecha a mais desvios. E quando se desvia dinheiro público, se deixa de investir em várias áreas”, disse a psicóloga Claudiane Soares, uma das envolvidas na discussão.

Já na última quinta-feira, enquanto a reportagem do iG acompanhava mais uma caminhada de Arruda, um outro eleitor gritou apenas “eh, ladrão” em direção ao candidato. Desconcertado, ele brincou e disse apenas... “Viu? Nove a Um”. Uma referência que, segundo o Arruda, a cada dez eleitores, apenas um responde de forma mais provocativa.

“Existem aqueles que discordam e o fazem com elegância, com educação eu também os cumprimento com o maior respeito. Obviamente reconhecendo que cada cidadão tem o direto de ter a sua opinião. Então é muito raro quando acontece alguém mais provocador, normalmente mandado por alguém. O cidadão comum não. Mesmo quando ele tem uma opinião diferente mas sempre de forma muito respeitosa”, avalia Arruda.

E de abraço em abraço, aperto de mão em aperto de mão e de um grito ou outro menos favorável, Arruda continua em campanha. Pedindo votos a todos e entregando sempre um santinho de plástico. Até mesmo para repórteres que acompanham a sua caminhada. Na quinta-feira, após a uma rápida entrevista com o iG, Arruda perguntou o domicílio eleitoral da equipe de reportagem e quando soube que nem repórter, nem cinegrafista votaram em Brasília, ele não desistiu e falou. “Tudo bem, mas se você tiver um votinho...”

Leia tudo sobre: Eleições 2014José Roberto Arruda

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