Estrela do governo Lula, Marina perdeu embate com então ministra Dilma Rousseff

Por Wanderley Preite Sobrinho - iG São Paulo | - Atualizada às

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Ministra de Minas e Energia, Dilma emplacou obras enfrentando a ambientalista, que perdeu prestígio até sair do PT

Estrela da Esplanada dos Ministérios quando Luiz Inácio Lula da Silva estreou na presidência, em 2003, a então petista Marina Silva chegou a ser defendida por alguns petistas na época como a sucessora do ex-metalúrgico no Palácio do Planalto. Filiada ao PT em 1985, Marina foi cabo eleitoral de Lula desde a campanha de 1989 e, no Ministério do Meio Ambiente, era admirada por ambientalistas brasileiros e internacionais. Quando o crescimento econômico do País passou a depender de uma série de obras de infraestrutura, Lula deu munição para que uma técnica saída do PDT atropelasse as exigências ambientais defendidas pela companheira de antiga data. Dilma Rousseff emplacou obras como a Usina de Jirau, em Rondônia, e obrigou Marina a pedir as contas.

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
De estilos completamente diferentes, Marina e Dilma duelaram em Brasília: venceu a segunda

Fontes que trabalharam na Esplanada durante os anos de Lula em Brasília se lembram da "tensão" que Dilma começou a despertar pelos corredores à medida que ganhava influência. Ao contrário de Marina, doce no trato, mas demorada em tomar decisões, Dilma aparecia nas reuniões com slides de Power Point e deliberações praticamente tomadas. Quem se aventurava a levantar alternativas se transformava em alvo imediato. Ela se atinha aos detalhes dos argumentos adversários, irritando qualquer interlocutor. Logo, ganhou o apelido de "Dilma Power Point".

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Irritados, muitos ministros e assessores foram bater na sala do chefe para contestar a postura da ministra, mas os números da economia eram mais convincentes. Dilma raramente enfrentava Marina, ainda prestigiada, mas sua caneta começava a irritar a ambientalista, conhecida na época por mudar de ideia sobre o mesmo assunto com frequência demais. A construção das usinas do Rio Madeira, em Rondônia, acabou de vez com a paz entre as duas.

Divulgação
Dilma Rousseff na pré-campanha presidencial de 2010

Enquanto a hoje presidente queria que as licenças ambientais saíssem a fórceps, Marina ignorava os relatórios de R$ 150 milhões encomendados por Furnas e Odebrecht e comprava as exigências do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que apontavam riscos de contaminação ambiental por mercúrio e extinção de algumas espécies de peixes. Dilma saía da sala do presidente, Marina entrava. Venceu Dilma. “Agora não pode por causa do bagre, jogaram o bagre no colo do presidente. O que eu tenho com isso?", declarou Lula na época.

À medida que Dilma ganhava prestígio, a tensão entre as duas aumentava. Nas reuniões ministeriais, o encontro se resumia a cumprimentos formais e a algumas alfinetadas de Marina, sempre contemporizadas por Lula.

Na Casa Civil, Dilma ganhava ainda mais influência e responsabilidade para tirar do papel obras de infraestrutura. No final de 2007, a relação das duas ficou insuportável. Marina precisava de verba e apoio para levar adiante sua ideia de impedir que bancos privados e públicos financiassem agricultores que avançassem sobre a floresta amazônica. Perdeu de novo.

Mais: Campanhas de Dilma e Aécio minimizam crescimento de Marina 

Bancados pelo então governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, pesos-pesados do agronegócio passaram a exigir compensações do governo, causando sucessivos choques com o Ministério do Meio Ambiente. Reinhold Stephanes, então ministro da Agricultura, e Roberto Mangabeira Unger, de Assuntos Estratégicos, fecharam com o agronegócio, enquanto Dilma e Lula se calaram. Sem sustentação, Marina foi ao gabinete presidencial, reclamou de seu silêncio e entregou o cargo em maio de 2008.

Reprodução
Cabo eleitoral de Lula desde 1989, Marina perdeu espaço em seu governo

Sentindo-se abandonada por Lula, a ex-ministra deixou o partido no ano seguinte, após 24 anos na legenda. Chegou ao PV prestigiada, candidatando-se à Presidência contra José Serra (PSDB) e a nova aposta de Lula, a própria Dilma, apontada pelo petismo como responsável direta pelo crescimento médio de 4,5% no segundo mandato.

Marina terminou a campanha sob a pecha de “ecocapitalista”, apelido dado pelo então candidato a presidente pelo PSOL, Plínio de Arruda Sampaio, morto este ano.

No fim, Marina ficou em terceiro lugar com 19 milhões de votos nas eleições presidenciais de 2010. Há quem acredite que sua decisão de se manter imparcial no segundo turno tenha sido o jeito encontrado por ela para se vingar da petista. Não foi suficiente. Dilma venceu o tucano José Serra com 55 milhões de votos.

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