Do luto à luta: pais de vítimas da violência e negligência entram na política

Por Carolina Garcia - iG São Paulo | - Atualizada às

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Sobrenomes Yared, Deppman e Roig ficaram conhecidos após serem alvos de tragédias e hoje eles buscam justiça nas urnas

As famílias Yared, Deppman e Roig vivem em três Estados diferentes, não se conhecem pessoalmente, mas têm em comum a dor da morte precoce dos filhos, vítimas de casos trágicos amplamente divulgados pela imprensa. E a busca por justiça foi parar nas urnas neste ano com ajuda de amigos e voluntários. Candidatos ao cargo de deputado, os novatos Christiane Yared, Marisa Deppman e Marcos Roig depositam nas eleições 2014 o fim do sentimento de impunidade, presente num violento acidente de trânsito, na frieza de um menor armado e em um erro médico, respectivamente, que interromperam bruscamente a vida de três jovens.

Divulgação
Candidata Christiane Yared: projetos são frutos do filho que plantou, não enterrou

Ouvidos pelo iG, os candidatos garantem que lutar contra o tipo de crime que desestabilizou suas vidas é o que alimenta o engajamento e desperta uma versão ativista da experiência do luto. Logo após os casos, todos se envolveram em manifestações, associações e atendimentos às vítimas ligados ao próprio drama, buscando canalizar o sentimento de vingança, revolta e descrença no poder público.

Mais: Famílias de vítimas criam rede de solidariedade para super morte dos filhos

Fazer compras em um supermercado de Curitiba (PR), por exemplo, não é uma tarefa fácil para a empresária Christiane, mãe de Gilmar Yared, um dos jovens mortos no acidente envolvendo o ex-deputado Carli Filho, em 2009, que dirigia entre 161 km/h a 173 km/h.

“Dificilmente saio sem ser reconhecida por alguma mãe que perdeu o filho [aos 26 anos] ou por alguém que apenas quer me dar um abraço. [Minha luta] é um caminhar que já dura cinco anos, infelizmente, acompanhada pela morte do meu filho”, desabafa. E continua: “Até hoje o assassino não recebeu nem a multa por excesso de velocidade”. Em maio deste ano, a Justiça do Paraná decidiu pela terceira vez que o acusado enfrentará júri popular pelas mortes, mas sem data marcada.

Casos de violência:
Victor Deppman: Universitário é morto durante tentativa de assalto na zona leste de SP
Gilmar Yared:
Justiça nega recurso e ex-deputado Carli Filho vai a júri popular
Rodrigo Roig: Guerreiro contra a dengue no Rio de Janeiro

Um mês após a morte de Gilmar, ela já atendia famílias enlutadas e formou um grupo de discussões sobre a violência no trânsito. Meses depois, o ativismo foi formalizado com a fundação do Instituto Paz no Trânsito (IPTRAN), que apresenta projeto de conscientização e responsabilidade aos motoristas infratores. “A política surgiu de uma forma natural. Estamos conseguindo mudar a realidade de Curitiba e isso pode ser feito no Brasil. [Os projetos] são frutos do meu filho plantado, não morto. Prometi em seu velório que o plantaria, não o enterraria. E tenho vontade política para isso”, encerra a candidata à deputada federal pelo PTN/PR, que já havia ministrado quatro palestras no dia da entrevista.

“Crime não tem idade, punição sim”

A advogada Marisa Deppman dedicou sua carreira à causa trabalhista. A morte do filho Victor Hugo Deppman, então com 19 anos, executado por um menor de 17 após entregar o celular, na zona leste de São Paulo, no entanto, mudaria isso. Desde abril de 2013, ela voltou a abrir os livros de direito penal e buscou dominar os conceitos da área criminalista. “Eu e meu marido precisávamos de uma motivação para viver, tentar não enlouquecer ou entrar numa depressão. Prometi ao meu filho que ele não seria apenas uma estatística policial.”

Veja imagens dos candidatos com os filhos que foram vítimas de tragédias:

Marisa Deppman com o filho Victor Hugo, morto no ano passado durante assalto na zona leste de São Paulo. Foto: Arquivo pessoalApós o crime, família e amigos foram às ruas a favor da redução da maioridade penal. Foto: Arquivo pessoalDepois da tragédia, ela ficou mais preocupada com as saídas do outro filho. Foto: Arquivo pessoalMarisa durante manifestação no bairro do Belém, na zona leste de São Paulo, onde vive há 35 anos. Foto: Arquivo pessoalMarisa e o marido José Valdir Deppman em manifestação após a morte do filho. Foto: Arquivo pessoalEquipe de campanha é composta por amigos e voluntários. Na foto, santinho da candidata à deputada federal. Foto: Arquivo pessoalChristiane Yared perdeu o filho Gilmar, de 26, em um acidente de carro em 2009. Foto: ReproduçãoGilmar Yared estava com um amigo no carro, quando foi atingido em alta velocidade pelo veículo do ex-deputada Carli Filho. Foto: Arquivo pessoalCom três perfis lotados nas redes sociais, Christiane luta contra a violência no trânsito em Curitiba. Foto: Arquivo pessoalMorte de Gilmar Yured ainda não foi levado ao tribunal do júri. Foto: Arquivo pessoalMarcos Roig e os filhos Luísa, Rodrigo e a mais velha Yasmin, que até hoje não conversa sobre a morte do irmão. Foto: Arquivo pessoalRodrigo passou por três clínica até ser diagnosticado com dengue hemorrágica. Foto: Arquivo pessoalRoig com mulher e filhas na clínica da família, no Complexo do Alemão, que ganhou o nome de Rodrigo. Foto: Arquivo pessoalRoig atuou como gestor na clínica que levou o nome do filho e aproveitou para se especializar no tema. Foto: Arquivo pessoalDetalhe do material de campanha de Marcos Roig, candidato a deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Foto: Arquivo pessoal

Ela então elaborou dois projetos de lei defendendo mudanças expressivas no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e a redução da maioridade penal, mas ambos foram engavetados em Brasília. Neles, Marisa defendia que o menor praticante de crime hediondo sairia da proteção do ECA e passaria a responder pela legislação comum, o Código Penal. O assaltante que matou seu filho, por exemplo, pegaria até 30 anos por latrocínio e agravantes. “Ele cumpriria até os 21 na Fundação Casa e depois seria transferido ao presídio comum”. Sem resposta das autoridades políticas, ela decidiu que tentaria chegar ao Congresso Nacional pelo PSDB/SP com o mote Crime não tem idade, punição sim.

“Só quem passa por isso entende. Eu tenho outro filho, sobrinhos e quero ter netos, mas com segurança e viver em paz. Sou candidata porque quero tentar fazer alguma coisa”, disse ao iG, ressaltando ainda que não consegue dormir quando Vinicius Deppman, de 24 anos, sai para baladas ou decide dormir fora.

Para ela, os menores perderam o medo de cometer crimes porque se apoiam na impunidade. E rejeita o título da extremista e garante que não está sozinha. “O brasileiro chegou ao limite na questão de impunidade, violência e falta de segurança. E não existe Direitos Humanos. Hoje só vemos ações dos 'Direitos dos Manos', que favorecem os criminosos e não famílias de bem.”

“Lutar para reconstruir”

Foram cinco dias frequentando clínicas particulares até o tardio diagnóstico de dengue hemorrágica. Horas depois, Rodrigo Yamawaki Roig, aos 6 anos, teve hemorragia interna e não resistiu. A morte do filho alterou o rumo da família Roig desde fevereiro de 2008. “Eu fiquei extremamente mal. Foi quando recebi a dica: ‘Use essa energia para resolver o problema. Lutar para reconstruir’. Eu já tinha perdido um pedaço de mim. A saída era canalizar a revolta para o bem”, explica o engenheiro Marcos Roig, que é pai de Luísa e Yasmin, de 11 e 16 anos, e candidato à Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Arquivo pessoal
Roig com Yasmin, Rodrigo e Luísa (à dir.). A última, hoje com 16 anos, não fala sobre a morte do irmão

Pouco mais de um ano depois, em julho de 2009, a parceira com outras vítimas da doença resultaria na criação da Associação de Vítimas da Dengue (Avide). Ao alcançar divulgação nacional com o caso de negligência médica, o nome de Rodrigo foi escolhido para batizar uma clínica da família, no Complexo do Alemão, no Rio. Atuando como gestor do novo espaço, Roig conseguiu se especializar no tema e concluir que os funcionários da saúde pública e privada não estão preparados para ajudar a população em casos de epidemia.

“Vivemos não só um problema de infraestrutura, mas de profissionais também, dentro da rede pública e privada. Não dá para endemonizar apenas o serviço público”, resume. Roig ressalta ainda que muitos deveriam ingressar na vida pública – como político ou formador de opinião – antes de viver uma tragédia. O engenheiro se orgulha da comitiva voluntária que conseguiu formar e que ainda dispensará ajuda financeira do partido. "Posso não ganhar essas eleições, mas já começo a construir uma história na política", concluiu. 

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Parlamentar Keiko Ota (PSB/SP) não impressionou, mas tenta a reeleição

O desempenho de Keiko Ota

Não é o primeiro ano em que vítimas de casos emblemáticos tentam chegar ao poder. Masataka Ota e Keiko Ota também conquistaram cargos públicos após exposição no jornalismo policial. Eles ficaram conhecidos após a morte violenta do filho Ives, de 8, vítima de um sequestro em 1997. Os três acusados pelo crime foram condenados menos de um ano após o assassinato da criança.

Candidata à reeleição, a parlamentar Keiko (PSB/SP) não deixou uma boa impressão em sua primeira passagem pelo Congresso, no entanto. É o que explica Antônio Augusto de Queiroz, analista político e diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), entidade que acompanha o trabalho do Congresso desde 1983.

Segundo ele, a deputada não participou de discussões relevantes e não conseguiu transformar em lei nenhuma das propostas de sua autoria, quase todas relacionadas ao setor que representa - alteração do Código Penal em casos de crimes hediondos e a criação do Fundo de Assistência às Famílias de Vítimas de Crimes Dolosos (FAVIC).

"Candidatos que se promovem em função de tragédias, normalmente, são uma decepção no desempenho do mandato. Acham que podem converter uma revolta em políticas públicas para combater um determinado tipo de atitude", avalia o especialista. Para ele, ausência de experiência, traquejo e capacidade de liderança, por exemplo, podem sentenciar um mandato. 

O outro lado

A assessoria da parlamentar Keiko Ota procurou a reportagem para se posicionar contra as declarações do DIAP e declarar que a deputada não foi ouvida pelo iG antes da publicação. Leia a íntegra da nota enviada nesta sexta-feira (22): 

"A respeito de matéria “Do luto à luta: pais de vítimas da violência e negligência entram na política”, assinada pela repórter Carolina Garcia e publicada neste portal, em 21 de agosto, nós, da assessoria de comunicação e imprensa da deputada federal Keiko Ota (PSB) informamos que em nenhum momento fomos procurados para que a deputada se manifestasse a respeito do referido comentário de Antônio Augusto de Queiroz, analista político e diretor de documentação do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), entidade que acompanha o trabalho do Congresso desde 1983, a respeito de seu mandato, publicado na matéria.

Sobre a atuação da deputada Keiko Ota, convém esclarecer que a decisão de disputar um cargo eletivo ocorreu depois de mais de dez anos da perda trágica de seu filho.

Cumpre destacar que em seu primeiro mandato parlamentar, Keiko Ota procurou sempre dar vez e voz aos movimentos e famílias de vítimas de violência. Ela é a atual coordenadora da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Vítimas de Violência, que visa unir poder público e a sociedade para garantir medidas de proteção às famílias vítimas e combater, dessa forma, a violência e a impunidade. A Frente, sob coordenação da deputada, já se encontra instalada nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso e Rio Grande do Sul.

Por conta de sua atuação na Frente, Keiko Ota foi convidada a participar das reuniões da comissão e juristas que elaborou a nova proposta de Código Penal, em análise no Senado. Nesses encontros, ela procurou levar ao conhecimento dos juristas as sugestões dos movimentos de justiça e paz.

Além disso, Keiko Ota foi vice-presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Violência contra as Mulheres. Ao longo de 2012, ela percorreu diversos Estados brasileiros para verificar a situação das mulheres vítimas e o funcionamento da rede de atendimento público a essas pessoas. A Comissão produziu um grande levantamento sobre esse quadro, a partir de reuniões, audiências públicas e conversas com especialistas, gestores públicos, ONGs e movimentos sociais."

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