Geração de energia e grandes obras são alguns pontos de atrito entre a ex-senadora e o partido do ex-governador

Com a morte de Eduardo Campos e a escolha de Marina Silva para encabeçar a chapa socialista à Presidência da República, as divergências entre o pensamento da ex-senadora e a base do PSB voltam à tona. Muito da superação de diferenças entre princípios da Rede e do PSB ocorreu principalmente por ação de Eduardo Campos. Em sua convivência diária com Marina, ele dizia que havia passado a admirá-la e também percebido o mesmo sentimento por parte dela.

No PSB, Campos atuava como apaziguador de ânimos mais acirrados, principalmente de seus coordenadores mais próximos que forçaram costuras de alianças nos estados em desacordo com a então candidata a vice. Marina se colocou como obstáculo para o fechamento de coligações em estados importantes como São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro, entre outros, porque não queria se aliar aos representantes da “velha política” ou ainda ter compartilhar o mesmo palanque com os líderes do agronegócio.

Leia também : Evangélica, Marina terá de agradar fiéis sem espantar o voto jovem 

As divergências não se resumem ao campo político. São antagônicas as visões de Marina e do PSB sobre desenvolvimento econômico, geração de energia, sobre o avanço do agronegócio, ou ainda sobre as grandes obras desenvolvidas pelo governo petista, tocadas com entusiasmo pelo próprio Campos quando ele era governador de Pernambuco.

Campos tinha um perfil bem mais desenvolvimentista que Marina. Na questão da geração de energia, por exemplo, Marina é radicalmente contrária à instalação de usinas nucleares. O PSB, nunca se opôs a isso e tem como grande entusiasta da construção de usinas nucleares o atual presidente do partido, Roberto Amaral.

Para o programa conjunto, escrito pela Rede e pelo PSB, este assunto ficou de fora. O programa fala em geração de energia limpa e aponta que a concentração em matrizes hídricas provoca “desafios socioambientais importantes”.

Grandes empreendimentos

Como partido aliado ao governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e de Dilma, até o ano passado, o PSB também apoiou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) que incluiu grandes obras de infraestrutura em todo país. O próprioCampos, que era governador de Pernambuco durante boa parte de instalação dos empreendimentos, fez das obras também sua bandeira.

Marina se opôs. Em sua campanha em 2010, ela disse que não teria a visão de só acelerar o crescimento, mas de buscar “desenvolvimento com sustentabilidade”.

Infográfico: Quem é quem na campanha do PSB, o partido de Marina Silva

Entre as mais polêmicas construções está a transposição do Rio São Francisco, um exemplo que expõe a forma de pensar de Marina e dos socialistas. A começar pelo tratamento que a obra recebeu do próprio Campos, quando ainda era governador de Pernambuco e aliado do governo. Ele chegou a pegar carona exaltando a parceria com o governo federal para levar água ao Semiárido.

Enquanto era ministra do Meio Ambiente de Lula, Marina nunca se opôs diretamente contra a obra, no entanto, em sua campanha à Presidência da República, em 2010, ela organizou uma viagem pelos municípios mais secos do Nordeste para marcar posição contra a ideia de tirar o rio de seu leito natural. Marina disse que esta obra, orçada inicialmente em R$ 5,5 bilhões, não resolveria o problema de falta d’água.

Agronegócio

Durante a campanha ao lado de Marina, Campos fez o possível para negar a diferença de pensamento dos dois em relação ao agronegócio. O pernambucano disse que a ex-senadora nunca se posicionou contrária ao agronegócio ou ao desenvolvimento econômico e acabou adotando o discurso de sua vice.

“Temos que ter desenvolvimento com o meio ambiente e inclusão. Hoje o mundo pode conciliar e colocar em uma equação só”, disse Campos em uma atividade de campanha.

Um dos principais representantes do agronegócio e líder ruralista da Câmara, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) teve sua aliança com Campos barrada por Marina
Divulgação
Um dos principais representantes do agronegócio e líder ruralista da Câmara, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO) teve sua aliança com Campos barrada por Marina


A dificuldade de Marina com os representantes do agronegócio não é desconhecida. Tanto é que integrantes do PSB já dizem que o candidato a vice da chapa socialista, o deputado Beto Albuquerque, terá o papel de ajudar Marina no diálogo com setores agrícolas, já que também é fundamental para a campanha, obter financiamento destas empresas.

Integrantes do PSB chegam a citar o posicionamento de Marina, vetando a aliança com o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO), que já havia sido costurada por Eduardo Campos. Caiado é um dos principais representantes do agronegócio e líder ruralista da Câmara.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.