Líder na corrida ao governo de SP, tucano deixa fama de “chuchu” para trás construindo alianças e driblando adversários

2006 não foi um bom ano para o tucano Geraldo Alckmin . Derrotado por Lula na eleição presidencial – inclusive tendo menos votos no segundo turno do que no primeiro – ele saiu da disputa menor do que entrou. Dois anos depois, o paulista de Pindamonhangaba sofreu outra derrota difícil de engolir. Disputando a prefeitura de São Paulo em 2008, Alckmin não conseguiu chegar nem ao turno final.

As seguidas derrotas se encaixaram perfeitamente com o apelido de “picolé de chuchu” que Alckmin conquistou ao longo de sua carreira de mais de quarenta anos. Mas curiosamente, tanto os tropeços eleitorais quanto a fama de político com déficit de carisma não impediram o tucano de virar o jogo ao seu favor a partir de 2011, quando voltou a ser governador de São Paulo e começou uma trajetória que o tornou uma liderança forte e influente no cenário eleitoral brasileiro.

Para mudar o jogo, Alckmin mostrou que a comparação com o legume insosso pode valer para o seu carisma, mas não para a sua capacidade de articulação política, onde ele se comporta como um verdadeiro “picolé de pimenta”, construindo alianças sólidas e driblando adversários.

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Se movimentando com destreza nos bastidores da política, Geraldo Alckmin se credencia para corrida presidencial de 2018
Sérgio Viana/ Notícias.Botucatu
Se movimentando com destreza nos bastidores da política, Geraldo Alckmin se credencia para corrida presidencial de 2018


Líder disparado nas pesquisas eleitorais, com potencial para se eleger no primeiro turno, o governador paulista construiu em São Paulo uma coligação gigantesca com 14 partidos. Mais: conseguiu a proeza de reunir em seu palanque as duas grandes forças de oposição à reeleição da presidente Dilma Rousseff. Estão com ele tanto o presidenciável correligionário Aécio Neves quanto o candidato do PSB – possivelmente Marina Silva, que deve ser a candidata socialista depois da morte de Eduardo Campos.

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Em suas ações de governo e de campanha, Alckmin também joga duro e despista a fama de insosso. Na segurança pública, por exemplo, ele tem proferido um discurso mais à direita, cobrando leis mais rigorosas contra criminosos adultos e adolescentes infratores. Agradando assim o enorme eleitorado conservador do Estado.

Além de citar o imperador francês Napoleão Bonaparte para exemplificar suas escolhas, Alckmin também tem recorrido às tiradas humorísticas em seus discurso. “Vamos fazer a linha 13 da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). Não temos preconceito”, ironizou o tucano, em recente debate, arrancando gargalhadas da plateia ao citar o número do partido adversário, que batizará a linha férrea da capital com o Aeroporto de Guarulhos.

Sem carisma, mas não fraco 

“Tem muita gente, inclusive jornalistas, que associa o apelido ‘picolé de chuchu’ a um sinal de fraqueza. E não é isso. Picolé de Chuchu é uma coisa sem graça, sem gosto, sem carisma e o Alckmin continua mais chuchu do que nunca. Mas pensando bem, acho que ele está transformando essa falta de carisma num carisma”, analisa o colunista José Simão, que em sua coluna na Folha de S. Paulo ajudou a propagar a comparação do tucano com o vegetal.

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O Geraldo Alckmin de 2014 é bem diferente do tucano hesitante  que tentou alçar voo em 2006. Às vésperas da Copa do Mundo, ele não titubeou em demitir os grevistas que ameaçam parar o metrô da capital. No mesmo período, mandou a polícia enquadrar manifestantes. Depois, coordenou pessoalmente as articulações que garantiram o senador Aécio Neves como candidato a Presidência, convencendo, inclusive, seu adversário interno, o ex-ministro José Serra, a sair candidato ao Senado, promovendo uma pacificação nas históricas divergências no PSDB.

“A estratégia de Alckmin é 2018. Se Aécio não vencer, ele será candidato à Presidência”, avalia Carlos Melo, cientista político e professor do Insper. Segundo o analista político, o governador paulista, com sagacidade mineira, atua com os pés em duas canoas.

Melo diz que inda é cedo para uma definição mais clara do quadro eleitoral, mas acha que Alckmin trabalha para tentar impor uma forte derrota a seus principais adversários em São Paulo e, ao mesmo tempo, mirar o futuro. Ele acha, no entanto, que nada está definido. “Será que ele vai se jogar de verdade na campanha de Aécio?”, indaga o cientista político.

Horário eleitoral pode mudar o jogo 

Pesquisador do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o professor Marco Antônio Carvalho Teixeira alerta que só o horário eleitoral gratuito é que mostrará se Alckmin consolidará (ou não) uma nova performance na política nacional.

Ele diz que a mais recente pesquisa eleitoral do Datafolha mostra que o governador paulista tem pela frente um potencial de desgaste em função dos péssimos números em relação a temas como saúde e educação. Mas reconhece que, ao contrário do que deixou transparecer em 2006, o governador vem assumindo postura mais enérgica, como a adotada na greve dos metroviários. “Ele quer mostrar que tem sensibilidade. O período eleitoral tem demandado uma nova postura e Alckmin tem procurado mostrar respeito”, afirma.

Os especialistas acham que os temas espinhosos a Alckmin – como a crise hídrica, segurança e sistema prisional – só ganharão relevo quando começar o horário gratuito de rádio e televisão. “O eleitor está preocupado com a disputa pela Presidência. Só depois prestará atenção nos candidatos a governo, senador e deputados. O País ainda está sob o abalo da morte de Eduardo Campos”, conclui Carlos Melo.

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