Falha no modelo Cessna 560XL foi identificado nos EUA; não há relação com tragédia no Brasil, dizem especialistas

O avião que transportava Eduardo Campos, candidato do PSB à Presidência da República, passou por uma espécie de recall para corrigir um defeito que, em determinadas condições meteorológicas, poderia dificultar o pouso.

O jato, um Cessna 560XL, caiu na última quarta-feira (13) em Santos, no litoral paulista, após uma tentativa de pouso frustrada atribuída ao mau tempo. O acidente matou Campos e mais seis pessoas.

Gelo no cone de cauda de um Cessna 560XL que voava nos EUA
NTBS
Gelo no cone de cauda de um Cessna 560XL que voava nos EUA

Para dois especialistas ouvidos pelo iG , é altamente improvável que a falha existente nos Cessna 560XL – que, inclusive, já havia sido corrigida no caso do jato do presidenciável – pudesse ter contribuído para o acidente.

O defeito, identificado após incidentes sem gravidade nos Estados Unidos, pode levar à formação de gelo em cabos e polias existentes no cano de cauda (parte traseira do avião) e que fazem parte do sistema de controle da direção do avião. 

Foram registrados ao menos quatro incidentes do tipo nos EUA – um deles em que a temperatura de solo era de 9 ºC. A temperatura de solo em Santos era de 19º C.

Para corrigir a falha, a Cessna emitiu três comunicados – um em 2005 e dois em 2011 – orientando os operadores dos jatos modelo 560XL a fazerem alterações nas aeronaves. Um dos emitidos em 2011 estabelecia que a alteração era obrigatória.

"Este alerta de serviço deve ser cumprido após 90 horas de voo ou 90 dias da data de recebimento, o que ocorrer antes", afirmava o alerta, segundo um documento da National Transportation Safety Board (NTSB), agência do governo dos EUA equivalente ao Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) brasileiro.

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Em 2012, a Federal Aviation Administration, órgão do governo dos EUA equivalente à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) brasileira, emitiu um alerta de segurança às companhias que usam o Cessna 560XL, recomendando que os pilotos analisassem os drenos do cano de cauda antes de levantar voo.

No mesmo ano, a FAA emitiu uma diretiva de aeronavegabilidade obrigando as companhias a fazerem duas alterações na cauda do avião de modo a corrigir o problema. 

Segundo a Anac, a aeronave que transportava Campos cumpriu a determinação, e estava com todas as revisões em dia.

"A ANAC recebeu a Ficha de Cumprimento de Diretriz de Aeronavegabilidade, executada pela TAM Aviação Executiva e Taxi Aéreo S.A [ que representa a Cessna no Brasil ], sobre essa DA", informou a agência, por e-mail.

A TAM Aviação Executiva informou que somente se pronunciará sobre o acidente após a conclusão das investigações.

Peritos dizem que congelamento no caso é improvável

"A minha percepção preliminar, e estamos falando de conjecturas de um acidente cujos dados eu desconheço,  é que é muito pouco provavelmente isso tenha alguma conexão", diz o comandante Humberto Gimenes Branco, vice-presidente da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (APPA). "O avião estava baixo, pousando no litoral no Brasil. Formação de gelo acontece m altitudes elevadas em condições particulares. Não é um caso como esse."

Professor de Ciências da Aeronáutica da PUC-RS, o comandante Paulo Villas tem a mesma opinião, e afirma que chamados para realização de pequenas mudanças em aeronaves são comuns.

"Cada aeronave recebe dezenas de boletins [de serviço] por ano", afirma Villas. "É como se fosse um recall de carro. Mas recall de avião é toda hora, [ ocorre ] mesmo não sendo nada grave", afirma.

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