Campanhas recorrem a ex-presidentes e figurões para engordar caixa eleitoral

Por Clarissa Oliveira, Luciana Lima e Marcel Frota , iG Brasília |

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Partidos dizem ter dificuldade para negociar contribuições e escalam desde Lula até FHC para ajudar na arrecadação

Em tempos de vacas magras na economia, polêmica sobre financiamento privado das campanhas e escândalos de corrupção envolvendo doadores, os principais candidatos da corrida ao Palácio do Planalto montaram equipes de primeira linha para engordar os caixas de campanha, com o reforço de ex-presidentes da República, ex-ministros e figurões do mercado financeiro. Embora apresentem estratégias distintas para convencer empresários a liberarem os talões de cheque, os principais partidos envolvidos na disputa presidencial são unânimes em dizer: está bem mais difícil arrecadar do que em eleições anteriores.

Conheça os arrecadadores das campanhas presidenciais:

João Vaccari Neto, tesoureiro do PT, responsável por conseguir criar um colchão no caixa do partido. Foto: Agência BrasilEx-ministro da Casa Civil de Dilma Rouseff, Antonio Palocci colaborou na elaboração da estratégia de arrecadação e acompanha o processo à distância. Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil - 2.1.11Deputado estadual Edinho Silva (PT-SP), tesoureiro da campanha de Dilma Rouseff à reeleição. Foto: AlespJosé Gregori, tesoureiro da campanha de Aécio Neves (PSDB) à Presidência da República. Foto: AlespArmínio Fraga, ex-presidente do BC, colabora de maneira informal com a arrecadação de campanha do PSDB. Foto: DivulgaçãoFernando Henrique Cardoso: ex-presidente abriu as portas do empresariado paulista a Aécio Neves. Foto: Agência CâmaraSérgio Silva de Freitas: ex-itaú, é um dos poucos arrecadadores oficiais da campanha de Aécio Neves. Foto: DivulgaçãoMárcio França, secretário nacional de finanças do PSB, partido que tenta chegar à presidência com Eduardo Campos e Marina Silva. Foto: DivulgaçãoNeca Setúbal (à esquerda), participa da campanha de Campos e Marina, e faz ligação com o empresariado. Foto: Arquivo pessoal

Divulgada na semana passada, a prestação de contas parcial das campanhas mostrou os primeiros resultados das estratégias de arrecadação. Quando consideradas as doações feitas a candidatos e aos comitês eleitorais, a campanha da presidente Dilma Rousseff declarou R$ 10,1 milhões no caixa. Em segundo nas pesquisas, o tucano Aécio Neves somou R$ 11 milhões, enquanto o socialista Eduardo Campos fechou com R$ 8,2 milhões.

A arrecadação, neste momento, tem caráter estratégico. Para os tucanos, manter o caixa em alta já na largada ajuda a passar a mensagem de que Aécio conquistou a confiança do empresariado. Na campanha petista, o argumento é que o melhor é concentrar o grosso das doações na etapa final da corrida. Assim, é possível minimizar a exposição de doadores, principalmente aqueles que têm negócios com o governo federal.

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Na campanha de Dilma, a estratégia conta com empenho pessoal do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Além de orientar Dilma a intensificar a agenda com empresários, Lula tem trocado telefonemas frequentes com alguns deles e repassado eventuais queixas sobre a condução do governo à equipe de campanha. De acordo com interlocutores, é Lula quem ouve reclamações. E é também quem se encarrega de dar as broncas.

Do ponto de vista operacional, entretanto, a arrecadação petista está nas mãos do ex-presidente do PT paulista e ex-prefeito de Araraquara Edinho Silva. Ocupando oficialmente o cargo de tesoureiro, é ele quem coordena encontros com empresários e aplica a estratégia para abastecer o caixa. Ele cuida também de toda infraestrutura da campanha, incluindo a distribuição de recursos e a montagem de comitês. Edinho atua principalmente nos bastidores e assumiu um assento no seleto núcleo que se reúne semanalmente com a presidente Dilma. Aos poucos, tornou-se nos um dos homens da confiança de Lula e da presidente na montagem do projeto eleitoral petista.

Outro que tem papel estratégico na arrecadação é o secretário de Finanças do PT, João Vaccari. Embora a estrutura do partido seja totalmente distinta da campanha, Vaccari conseguiu criar uma espécie de “colchão” no caixa partidário. Aumentou as doações de empresas para o diretório nacional nos últimos anos e correu atrás de petistas que estavam inadimplentes com o dízimo da legenda, deixando as contas partidárias em dia. Com isso, o PT hoje tem condições de absorver eventuais dívidas que restem da campanha de Dilma. Em anos anteriores, as campanhas do PT gastaram bem mais do que arrecadaram e o partido assumiu todos os débitos.

O time petista contou ainda com um reforço do ex-ministro Antonio Palocci, que deixou o governo em 2011, sob suspeita de enriquecimento ilícito. Palocci participou de algumas reuniões com Dilma e Lula, mas, de acordo com colegas de partido, acabou se distanciando, a pedido da própria Dilma. A preocupação era minimizar a repercussão na imprensa de seu envolvimento direto na campanha. Embora a maioria dos integrantes da campanha insista que Palocci está fora do primeiro time presidencial, há no PT quem admita que ele é consultado de tempos em tempos, informalmente. O ex-ministro mantém contato direto com Lula e foi acionado, por exemplo, para ajudar na arrecadação da campanha de Alexandre Padilha, em São Paulo.

Elenco tucano

No PSDB, a equipe de arrecadação mescla nomes com prestígio no mercado financeiro e quadros experientes na gestão de recursos eleitorais do partido. Responsável por fazer a ponte com empresários em 2010, para a campanha do então presidenciável José Serra, Sergio Silva de Freitas foi novamente selecionado para a missão. Ex-vice-presidente do Banco Itaú, ele tem bom trânsito no empresariado paulista e foi considerado braço direito de Olavo Setúbal. Freitas é apontado como o “arrecadador oficial” da campanha de Aécio e sua atuação é majoritariamente conduzida no estado de São Paulo.

Tesoureiro da campanha de Aécio Neves, o ex-ministro da Justiça José Gregori explica brevemente o perfil requisitado para a função. “São pessoas muito relacionadas, de alta taxa de credibilidade, grifa credibilidade, porque hoje em dia no Brasil essa é uma palavra que a nova geração precisa quase que ir ao dicionário para ver o que significa”, resumiu.

De maneira informal, o ex-presidente do Banco Central e um dos formuladores do programa de governo de Aécio Armínio Fraga também dá sua contribuição. “Faz de conta que você é um bruta banqueiro e grande amigo do Armínio. Você diz: ‘Armínio, estou querendo dar uma doação para o Aécio, como faço?’ Aí o Armínio sabe porque tem ligações com a campanha por causa dessa ligação com (a elaboração) do programa, então ele encaminha. Mas não é, digamos assim, uma função, ainda que voluntária, com a sistemática do Sérgio Freitas”, declarou o ex-ministro. “O Armínio é muito ligado ao candidato, tem participado da programação, tem uma infinidade de amigos no campo financeiro, mas não é arrecadador.”

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Assim como Lula atua na campanha de Dilma, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso também reforça a estratégia tucana. Ainda na pré-campanha, quando o PSDB discutia internamente a escolha de seu candidato e tinha no ex-presidente o maior entusiasta do nome de Aécio para a disputa, FHC levou o senador mineiro para diversas reuniões e conversas com empresários paulistas.

Arrecadação pulverizada

Embora também conte com reforços importantes, o socialista Eduardo Campos empenhou-se pessoalmente no plano de arrecadação de sua campanha. Desde o início da pré-campanha, ele próprio se encarregou de fazer o primeiro contato com empresários que mantinham boa relação com sua administração. Em seguida, Campos repassa a tarefa de prosseguir com o diálogo a Henrique Costa. Executivo de grandes bancos como o holandês RaboBank, o BankBoston, além do extinto Banco do Estado de Pernambuco (Bandepe), Costa diz que tem aproveitado esta experiência para pedir dinheiro para a campanha. “É claro que essa interlocução tem me ajudado muito na campanha”, considerou o executivo, que faz sua estreia na política ao atuar no time socialista.

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Costa mantém um estilo discreto e poucos do núcleo da campanha de Campos dizem conhece-lo de forma mais próxima. “É a primeira vez que eu faço uma campanha e aceitei participar por minha relação pessoal com Eduardo Campos. Fomos colegas de faculdade e, apesar de ter saído de Recife há muito tempo, aceitei pela confiança que tenho nele.”

A maior doação de sua campanha até o momento foi feita pela Arosucos, uma empresa da Ambev, que ampliou sua produção em Pernambuco durante sua gestão em Pernambuco. A empresa doou R$ 1,5 milhão.

Outra face importante da arrecadação da campanha de Campos e Marina é a de Neca Setúbal. Embora sua função esteja oficialmente restrita à coordenação do programa de governo, a herdeira do banco Itaú é a interface do empresariado com o núcleo da campanha. Amiga de Marina Silva, Neca doou cerca de R$ 200 mil para campanha.

Candidato a vice na chapa do tucano Geraldo Alckmin em São Paulo, o deputado Márcio França (PSB-SP) também teve papel de destaque na estratégia de arrecadação do socialista. Antes de virar candidato, era ele quem organizava jantares de Eduardo com o empresariado paulista, tido como estratégico para a campanha do ex-governador de Pernambuco. Atualmente, ele monitora as contas do PSB nacional.

Vice da ex-senadora Marina Silva na campanha em 2010, o presidente da Natura, Guilherme Leal, desta vez ficou fora do núcleo operacional da campanha. De acordo com socialistas, entretanto, o executivo já doou cerca de R$ 400 mil para a campanha.

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